O uso constante de inteligência artificial na rotina de estudos pode estar ligado a um desempenho inferior em avaliações, conforme revelam dados do Pisa divulgados pela OCDE. Pesquisas indicam que estudantes de 15 anos que utilizam chatbots diariamente para atividades escolares obtêm notas mais baixas em comparação com colegas que raramente empregam essa tecnologia.
No Brasil, quase metade dos alunos já incorpora a IA em seus estudos. Contudo, os próprios dados demonstram que a correlação entre o uso de tecnologia e o desempenho depende da frequência e, crucialmente, da metodologia de aplicação dessas ferramentas.
O mais recente levantamento do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) coletou informações de mais de 760 mil jovens em 91 nações. Entre os discentes que usam IA diariamente ou quase todos os dias para criar trabalhos escritos, a média de pontuação em ciências foi de 481 pontos. Em contraste, aqueles que quase nunca ou nunca recorrem à tecnologia para este fim alcançaram 509 pontos.
Essa disparidade de 28 pontos, ajustada por fatores socioeconômicos, equivale a cerca de um ano e meio de instrução. Um padrão similar se manifesta quando os chatbots são utilizados para realizar pesquisas iniciais sobre novos assuntos ou para sintetizar materiais de leitura.
Assim como não se condiciona apenas assistindo esportes, mas sim praticando-os, o processo de aprendizagem não se dá apenas pelo consumo de conteúdo, mas sim por meio de um engajamento cognitivo produtivo com o novo material.
Andreas Schleicher, diretor de Educação e Habilidades da OCDE, comentou à Bloomberg que a IA deve ser vista como um «andaime, e não como uma muleta». Ele sustenta que a tecnologia pode impulsionar o aprendizado ao estimular o esforço intelectual, mas pode ser prejudicial ao desenvolvimento se assumir essa função no lugar do aluno.
No contexto brasileiro, 48% dos estudantes de 15 anos relatam usar chatbots de IA pelo menos semanalmente para estudar, um índice próximo à média de 46% observada nos países membros da OCDE.
A tecnologia permeia diversos momentos da vida escolar. Os resultados educacionais do Brasil ficaram aquém da média da OCDE nas três áreas avaliadas. Em ciências, 48% dos estudantes atingiram no mínimo o nível 2 de proficiência, contra 74% na organização. Apenas 1% alcançou os níveis 5 ou 6, frente a 7% na OCDE.
Em matemática, 28% dos brasileiros atingiram pelo menos o nível 2, enquanto a média da OCDE foi de 65%. Na leitura, o Brasil registrou 49%, comparado a 69% na organização.
Os dados também sinalizam que a tecnologia não é inerentemente nociva. Alunos que utilizam IA uma ou duas vezes por semana tendem a ter um desempenho superior tanto aos que usam menos quanto aos que dependem da ferramenta diariamente.
O avanço da IA generativa intensificou o debate sobre a presença de dispositivos e tecnologia em ambientes de sala de aula. A Bloomberg noticiou que um número crescente de nações está considerando restringir o uso de celulares nas escolas, motivado pela apreensão de que recursos digitais possam diminuir a capacidade de concentração dos estudantes para aprender.

