Os domicílios na África do Sul enfrentam sérias dificuldades financeiras, pois os custos crescentes com serviços públicos, deslocamentos para o trabalho e compra de alimentos consomem uma parcela cada vez maior de sua renda, transformando a crise do custo de vida em uma luta pela capacidade de compra das famílias.
Dados recentes sobre a acessibilidade para os domicílios demonstram esse problema, apesar da aparente diminuição da inflação geral. Em agosto, o custo médio da cesta de alimentos foi de R5.479,80, de acordo com dados do Pietermaritzburg Economic Justice and Dignity Group (PMBEJD). Embora este valor estivesse 0,9% abaixo de julho, permaneceu 1,8% acima do ano anterior. Dos 44 produtos monitorados, 19 tiveram aumento de preço e 25 tiveram queda.
O diretor do grupo, Marvin Abrahamse, observa que as famílias não recebem renda, mas sim distribuem os fundos disponíveis entre itens de despesa fixos: moradia, eletricidade e transporte. Ele enfatiza que os itens mais essenciais são pagos primeiro, como aluguel ou hipoteca, eletricidade e transporte, e só depois sobra orçamento para alimentos.
Abrahamse explica que os alimentos geralmente são comprados com os fundos restantes, o que frequentemente leva as famílias a comprar menos e alimentos menos nutritivos. Os cálculos do grupo mostram o quão pouco pode sobrar após o pagamento das contas básicas: «Em agosto, eletricidade e transporte consumiram R3.183,45, o que representa 65,8% do salário do trabalhador, deixando R1.653,35 para comida e todo o resto». Assim, a crise de acessibilidade está ligada não apenas aos preços do pão ou do frango, mas também à competição entre várias despesas inevitáveis pelo mesmo rendimento.
O relatório de custo de vida da Comissão de Concorrência para agosto de 2026 também destaca essa situação, alertando que o choque nos preços dos combustíveis tem consequências muito além dos postos de gasolina. A Comissão indica que a primeira metade de 2026 foi caracterizada por um «aumento significativo no custo dos combustíveis», causado pela tensão geopolítica e interrupções nas cadeias globais de fornecimento de petróleo, agravadas pela pressão cambial.
A Comissão observa que o aumento dos custos de combustível e transporte se espalhou não apenas para os deslocamentos diários, mas também aumentou os custos de produção, logística e distribuição em toda a economia, criando uma pressão adicional sobre os bens essenciais. O desafio é encontrar um equilíbrio entre a sustentabilidade financeira dos serviços vitais e a carga sobre os domicílios, especialmente quando as tarifas sobem mais rápido que a inflação, e os grupos vulneráveis não recebem apoio adequado.
Para os trabalhadores, o problema se resume a saber se a renda conseguirá acompanhar o aumento dos preços. Abigail Moyo, representante do sindicato United Association of South Africa (UASA), afirmou que os domicílios já estão à beira do colapso. Ela acredita que o aumento dos preços dos combustíveis apenas agravará a pressão financeira sobre os cidadãos sul-africanos, cujos orçamentos já são muito limitados. Moyo insiste que a solução não pode ser que os trabalhadores assumam sozinhos os custos crescentes. Ela pediu ao governo que revisasse os mecanismos de precificação de combustíveis, incluindo impostos sobre combustível e carvão, e que os empregadores reconhecessem o reajuste salarial atrelado à inflação como necessário para a sobrevivência dos trabalhadores.
Os aposentados sentem uma pressão especial. Nos escritórios da SASSA em Wentworth, Durban, os aposentados exigem que o subsídio para idosos seja aumentado para R5.000 por mês, alegando que o valor atual não cobre as necessidades básicas de vida. O subsídio máximo para idosos é de R2.400 por mês, e para os maiores de 75 anos, ele aumenta para R2.420. O aposentado Quinton Eri descreve a situação como extremamente difícil: «Mal conseguimos sobreviver com 2400 rand. O custo da água está constantemente aumentando. Vamos à Sasa e às vezes ficamos aqui dois, três dias porque eles não funcionam. A vida se tornou uma enorme luta. Você nem consegue comprar e comer a comida que recebe. A comida que compramos não é suficiente». Ele acrescentou que comprar carne se tornou um luxo, e as pessoas são forçadas a comer frango, pois não podem pagar cordeiro ou carne bovina.
O ativista social Jean Chodry observou que os aposentados são forçados a arcar com as responsabilidades de sustentar outros membros da família. Ele acredita que a pensão deve ser dobrada, pois, além de cobrir serviços públicos, aluguel e alimentação, eles também cuidam dos netos. Ele enfatizou que a exigência de R5.000 não é caridade, mas uma necessidade real para a sobrevivência.
Uma petição lançada por Jay C Alex intitulada «Apoie os aposentados sul-africanos para restaurar a dignidade e o respeito» reuniu mais de 33.000 assinaturas confirmadas, pedindo um reforço no apoio aos aposentados que lutam contra a falta de alimentos, medicamentos e eletricidade.
A situação também afeta as crianças. O grupo calculou que a cesta básica nutricional para uma família de sete pessoas custou R6.597,25 em agosto, e o custo médio para fornecer nutrição básica a uma criança era de R961,96, enquanto o subsídio infantil é de R580. Abrahamse alertou que quando os domicílios são forçados a sacrificar a nutrição, as consequências vão muito além da conta mensal de alimentos. Ele descreveu isso como uma armadilha intergeracional de pobreza que começa diretamente na mesa das crianças mais novas.
Na opinião de Abrahamse, aliviar a situação não pode ser alcançado apenas reduzindo os preços dos alimentos; uma influência substancial na capacidade de compra dos domicílios virá da redução dos preços da eletricidade e do transporte.
