Os livros possuem uma capacidade única de transportar o leitor para tempos e mundos que existem apenas na esfera da imaginação. Ao longo de milênios, milhões de pessoas foram privadas do prazer da leitura. A sensação de segurar um livro físico, o cheiro das páginas e a possibilidade de mergulhar temporariamente em outro mundo permanecem indescritíveis.
Mais valioso ainda é ler edições usadas, que carregam uma rica história emanando da própria página. O cheiro do papel, a espessura das páginas em livros antigos ou uma anotação de um parente ou amigo lhes confere um valor especial. Surge a esperança de que o proprietário anterior valorizou tanto o livro a ponto de passá-lo adiante.
Como proprietário de uma pequena livraria especializada em achados raros, valorizo quando os livros passam pelas mãos de diferentes pessoas, abrindo a possibilidade de descobertas surpreendentes. Podem ser primeiras edições com ilustrações de Thomas Pringle, cópias assinadas do livro de Anne Frank ou uma edição muito antiga de dicionário africâner. Eu vi tais exemplares, incluindo a primeira edição de 'Angela's Ashes', e minha alegria reside no momento em que eles deixam a loja novamente nas mãos de alguém que experimentou êxtase ao descobri-los.
Folhear as Páginas
A leitura difere de ouvir um narrador porque o leitor controla totalmente o processo. Ele mesmo forma as imagens e as vozes. É possível parar, reler um trecho, acelerar ou passar seis horas em um lugar inexistente para retornar ao mesmo mundo imaginário no dia seguinte. Essa experiência é profundamente pessoal.
A leitura por prazer só se tornou um fenômeno cultural reconhecido no século XVIII, quando o romance floresceu graças às obras de Defoe 'Robinson Crusoé' (1719), Richardson 'Pamela' (1740), Fielding e Sterne. Após isso, surgiram bibliotecas de troca de livros, o que permitiu que as pessoas lessem livros caros sem possuí-los.
O século XIX foi marcado por um boom: a impressão industrial, o papel barato, os ferrovias, o aumento da alfabetização e o surgimento das bibliotecas públicas tornaram os livros acessíveis aos cidadãos comuns. Em meados e no final do século XIX, a leitura tornou-se uma concorrência completa pelo tempo livre das pessoas. Dickens serve como um exemplo claro, pois os leitores aguardavam novas partes de seus romances tanto quanto os espectadores esperam por uma série. No entanto, Dickens não inventou a fuga imaginária; ele fez parte do momento em que ela se tornou acessível a milhões, e não apenas a milhares.
No entanto, todo esse florescimento da leitura acessível teve um ponto de partida: Johannes Gutenberg, que começou a experimentar a tipografia móvel na Europa na década de 1440. Sua prensa inicialmente era usada para trabalhos mais sérios, principalmente a Bíblia, mas a mesma tecnologia foi posteriormente aplicada a fins menos solenes. Ela permitiu colocar histórias em mais mãos, reduzir o custo dos livros e transformar a leitura de um privilégio dos ricos, clero e educados em uma atividade acessível a milhões simplesmente porque desejavam.
Apesar disso, cinco séculos após Gutenberg, 739 milhões de adultos com 15 anos ou mais ainda não possuem habilidades básicas de alfabetização, o que representa um em cada nove pessoas no mundo, de acordo com dados da UNESCO. Quase dois terços delas são mulheres, e 40% das crianças não atingem o nível mínimo de leitura. A UNESCO estima que 739 milhões de adultos com 15 anos ou mais ainda carecem de habilidades básicas de alfabetização.
O Surgimento de Dolly
É por isso que pessoas como Dolly Parton são heroínas. Ela continuou a democratização iniciada por Gutenberg, fornecendo centenas de milhões de livros. Sua 'Imagination Library' envia mensalmente mais de três milhões de livros para crianças registradas nos últimos 30 anos.
Em 1995, inspirada por seu pai, Robert Lee Parton, que não sabia ler nem escrever, ela lançou a 'Imagination Library' em seu condado de Sevier, Tennessee. Seu conceito era simples e incontestável: ela queria que cada criança registrada recebesse um livro gratuito e apropriado para sua idade pelo correio todos os meses, do nascimento aos cinco anos, independentemente da renda da família.
O primeiro pedido foi de apenas 1760 livros, mas o programa se expandiu por todo os Estados Unidos e depois internacionalmente para Canadá, Reino Unido, Austrália e Irlanda. Parton chamou este programa uma vez de uma de suas maiores conquistas, e isso é justo. Ela deu a milhões de crianças algo que seu pai nunca teve — um lar onde os livros simplesmente pertenciam.
Gutenberg deu ao mundo os meios, e Dolly Parton deu a milhões de crianças uma chance. Agora é nossa vez. Pegue um livro. Passe-o adiante. Dê-o a uma criança que nunca teve. O amor pela leitura não é apenas um prazer pessoal, mas um dever coletivo, e qualquer um de nós pode ser a 'Imagination Library' de alguém.
