Brasileiros encontram fóssil da maior tartaruga de água doce do mundo no Acre
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Brasileiros encontram fóssil da maior tartaruga de água doce do mundo no Acre

A descoberta do fóssil da maior tartaruga de água doce do mundo ocorreu em junho de 2025, durante uma expedição ao rio Acre. A pesquisadora, professora associada III e livre-docente do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP), relatou a experiência vivida após sete horas de viagem de barco pelo rio Acre até a localidade fossilífera conhecida como Patos, próxima à Aldeia dos Patos, no território do povo indígena Manchineri.

Esta área detém grande valor paleontológico para a Amazônia Ocidental brasileira, sendo particularmente relevante para o Estado do Acre. O sítio está situado na Terra Indígena Cabeceira do Rio Acre, na divisa entre Brasil e Peru, e despertou interesse científico desde o final da década de 1970, com levantamentos iniciais realizados por pesquisadores estadunidenses. Posteriormente, entre 1990 e 2000, paleontólogos da Universidade Federal do Acre (UFAC) intensificaram as investigações, estabelecendo Patos como um dos locais fósseis mais importantes da região.

A chegada a Patos é desafiadora devido ao isolamento geográfico. Durante a estação seca amazônica, o nível do rio Acre diminui consideravelmente, expondo bancos de areia e 'pauzadas' — acúmulos de galhos e troncos que obstruem a navegação. Em períodos de estiagem prolongada, a travessia se torna ainda mais difícil, forçando a equipe a empurrar o barco, o que exige atenção para evitar arraias e grande resistência física. Essa complexidade explica a raridade das expedições científicas ao local, podendo passar anos ou décadas entre elas, dependendo do ritmo hidrológico da Amazônia.

A equipe de pesquisa era composta por 16 indivíduos, incluindo pesquisadores, alunos de graduação e pós-graduação, além de barqueiros da Reserva Extrativista Chico Mendes, localizada em Assis Brasil (AC). Ao desembarcar perto do acampamento, a pesquisadora e Edson Guilherme Silva, docente e pesquisador da UFAC e parceiro de mais de 20 anos em pesquisas paleontológicas na Amazônia brasileira, correram em direção ao afloramento fossilífero. Eles seguiram para um ponto que já havia fornecido fósseis importantes em 2022, como aves, serpentes e pequenos roedores.

Neste momento, ouviram os gritos de Francisco Ricardo Negri, professor da UFAC de Cruzeiro do Sul, um paleontólogo experiente e amigo da pesquisadora. Ele estava no início do afloramento, enquanto a dupla já estava a cem metros à frente. Inicialmente, a pesquisadora achou graça da agitação, sugerindo que talvez devessem retornar. No entanto, Guilherme estava focado em encontrar sua primeira ave fóssil naquela expedição, dada sua especialidade. O clima mudou drasticamente quando Negri gritou, indignado: «Vocês não viram a tartaruga? Vocês são cegos?». Isso desencadeou uma sequência caótica e eufórica de gritos no afloramento, misturando a empolgação de Negri com a incredulidade da equipe por terem passado pelo local minutos antes sem notar nada.

O objeto era um casco de tartaruga fossilizado de grande porte, parcialmente exposto nas rochas. A pesquisadora retornou rapidamente e ficou paralisada ao se aproximar, sentindo perplexidade. Ela levou dias para processar a real relevância daquele achado para a paleontologia amazônica. Ninguém na equipe estava preparado para encontrar um fóssil desse tamanho em Patos, necessitando improvisar uma base de madeira para o transporte.

Historicamente, os achados mais notáveis da região eram de porte pequeno ou médio, revelando a diversidade de mamíferos amazônicos extintos, como gambás, roedores, macacos-aranha e muriquis, frequentemente registrados apenas por dentes isolados ou fragmentos minúsculos. Assim, o casco gigantesco, visível a metros de distância, representava uma ruptura completa com a escala usual das descobertas do sítio.

A tartaruga provavelmente se chama Stupendemys geographicus. Está em fase de estudo e é considerada a maior espécie de água doce do mundo, tendo vivido entre 10,8 e 8,5 milhões de anos atrás, durante o Mioceno. Este é o fóssil mais completo de uma tartaruga gigante encontrado no Brasil. Foram identificados fragmentos da carapaça, ossos da cintura pélvica, parte de um fêmur e outros elementos ósseos da perna. O casco mede mais de 1,6 metro de diâmetro, e estimativas preliminares sugerem que o animal inteiro poderia atingir cerca de 2 metros de comprimento, comparável ao maior registrado na Venezuela em 2020.

A equipe precisou ser dividida: parte trabalhou dia e noite na coleta da tartaruga, enquanto outra parte realizou prospecção direta nas rochas e peneiramento de sedimentos, mantendo o foco nos fósseis menores. Negri e Ighor Mendes, pesquisador associado à UFAC, ficaram responsáveis pela organização da coleta junto aos cinco barqueiros: Abias, Mitieli, Carlos, Josemir e Valter. A pesquisadora e os demais membros da equipe assumiram a outra parte do trabalho de campo, que foi reestruturada. Apesar de suas tarefas, a presença da tartaruga permanecia constante.

Com apenas quatro dias e três noites disponíveis, o desafio era imenso, exigindo trabalho sem as ferramentas padrão de paleontologia para grandes fósseis, como gesso pedra, cabos de ferro e estacas de madeira. Durante o segundo dia de campo, a pesquisadora recebeu uma mensagem de Carlos D’Apolito Júnior, professor e pesquisador da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e coordenador do projeto Amazônia+10, que lhe mostrou um link de uma reportagem em um jornal de Assis Brasil, vinda de Rio Branco, intitulada «Fóssil gigante de tartaruga encontrada no Rio Acre de 13 milhões de anos».

Diante do vazamento de imagens, ela foi ao acampamento, onde os barqueiros estavam. Embora suspeitasse que um deles fosse o responsável, manteve a calma, lembrando que, nas orientações iniciais dadas por ela e Carlos, não havia permissão para publicação de qualquer fóssil. Nas semanas subsequentes, a notícia gerou grande repercussão midiática, e os cinco barqueiros apareceram sorrindo na foto, conscientes de estarem fazendo história.

A pesquisadora, que estuda fósseis no Acre há 20 anos em colaboração com a UFAC, já havia visitado a região em 2022 com Edson Guilherme. Mesmo após tantos anos de colaboração, a expectativa de uma nova expedição permaneceu intensa. Ela não estava preparada para localizar um fragmento tão monumental, confirmando a descoberta da maior tartaruga de água doce já existente no planeta.

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