Em um apartamento localizado no bairro da Vila Ipojuca, em São Paulo, o escritório VAGA Arquitetura realizou uma reforma em uma unidade de 66 m². O projeto visa transmitir a sensação de pertencimento através de uma atmosfera definida pela materialidade, memória e durabilidade. Ele foi concebido para um cliente brasileiro que reside em Londres e retorna ao Brasil em períodos breves ao longo do ano, partindo de um desafio proposto pelo próprio morador: criar um espaço com características de 'brutalista tropical'.
Os arquitetos explicam que essa expressão, embora parecesse simples, englobava todas as diretrizes do projeto. O aspecto brutalista estava inerente à estrutura original do prédio, enquanto o toque tropical era manifestado nas texturas, nas cores, na interação mais acolhedora com os materiais e na própria maneira de viver no espaço.
A estrutura original do apartamento foi mantida, destacando-se notavelmente a laje de concreto aparente, que foi preservada em todos os cômodos. Este elemento ressalta a essência construtiva do edifício e cria um contraste intencional com os materiais mais quentes adicionados durante a reforma.
Pedro Domingues e Pedro Faria, sócios da VAGA Arquitetura, mencionam que o projeto nasceu fortemente da relação entre o ato de retornar e a sensação de familiaridade. O desejo do cliente era ter um apartamento que estivesse sempre pronto para recebê-lo, funcionando quase como um refúgio temporal onde conforto, identidade e história pessoal fossem imediatamente perceptíveis.
Na área social, o piso de taco, desenhado pelo próprio escritório, é um dos pontos centrais da composição. Este piso é feito pela união de madeiras claras e escuras em um padrão geométrico, que se estende por todo o apartamento, conferindo unidade visual e profundidade ao layout.
A sala possui um grande painel de marcenaria em madeira natural que se estende do chão ao teto, servindo para separar de modo discreto as áreas social e privada. Este painel, com seu desenho vertical ritmado e estante integrada, atua simultaneamente como divisor camuflado, biblioteca e suporte para os pertences do morador, delimitando sutilmente os espaços sem prejudicar a fluidez geral. Assim, livros, discos e esculturas passam a fazer parte da composição de maneira natural, acentuando o caráter pessoal do local.
Entre os móveis que definem a linguagem do apartamento, destaca-se a poltrona Jangada, feita em jacarandá e couro cru, que foi trazida do imóvel anterior do cliente, juntamente com um sofá verde que organiza a sala e intensifica a presença dos tons terrosos e naturais presentes em toda a residência.
As pedras verdes escuras, utilizadas pelo escritório, representam outro detalhe crucial, pois percorrem diversos ambientes como um fio condutor material. Elas estão presentes na bancada da cozinha, na mesa de jantar e na escrivaninha, estabelecendo uma unidade visual sutil e precisa ao longo do apartamento. A bancada principal atravessa longitudinalmente a área social, concentrando múltiplas funções diárias: apoiar o preparo de alimentos, servir como local de refeições e funcionar como estação de trabalho voltada para a janela.
A cozinha, projetada para ser aberta, reforça a conexão entre convívio e rotina proposta pelo projeto. Integrada à sala, ela foi pensada como o coração da casa, permitindo que o morador cozinhe enquanto interage com amigos, conversa ou ouve música. A ausência de televisão na área social direciona o foco do apartamento para a permanência, a troca e a experiência sonora, fazendo com que livros, discos e o toca-discos ganhem destaque na construção de uma atmosfera mais íntima e pessoal.
Os banheiros são apresentados como pequenos espaços sensoriais. Eles são revestidos inteiramente com pastilhas em tom terracota e recebem iluminação indireta, criando um clima quente e quase teatral. Sobre a bancada de pedra verde, a cuba de cerâmica artesanal, também desenhada pelo escritório, reforça o caráter autoral do projeto, complementada por metais em tom cobre que harmonizam com a paleta terrosa dominante.
No quarto, a atmosfera adquire um tom mais acolhedor e reservado. Um tapete vermelho introduz um elemento de contraste que auxilia na definição da identidade do ambiente, enquanto as cortinas de linho amenuizam a entrada de luz natural.
Adicionalmente às soluções espaciais, a reforma integrou a trajetória do morador. Objetos, móveis e lembranças trazidos pelo cliente foram incorporados à nova arquitetura sem perder suas conexões originais; em vez de apagar o passado, o projeto constrói uma continuidade histórica.
