O rápido desenvolvimento da inteligência artificial está exercendo uma pressão crescente sobre os compromissos climáticos das maiores corporações de tecnologia, à medida que suas emissões de gases de efeito estufa aumentam. Quatro principais fornecedores de serviços de IA e computação em nuvem registraram um aumento nas emissões de até 239% entre 2020 e 2024.
De acordo com o relatório mais recente 'Greening Digital Companies 2026', elaborado pela União Internacional de Telecomunicações (UIT) das Nações Unidas e pela World Benchmarking Alliance (WBA), as empresas de tecnologia estão alcançando sucessos em relatórios climáticos e uso de energia renovável, mas o ritmo de redução de emissões ainda é insuficiente para atingir as metas climáticas globais.
Este relatório analisa 200 grandes empresas digitais em todo o mundo, examinando suas emissões de gases de efeito estufa, consumo de energia, uso de eletricidade renovável, metas climáticas e planos de transição para operações de baixo carbono. Os resultados destacam a crescente contradição entre as enormes necessidades computacionais da IA e as ambições climáticas do setor.
Enquanto quatro principais fornecedores de IA e serviços em nuvem demonstraram um forte aumento nas emissões operacionais, o relatório mostrou que 14 grandes empresas de telecomunicações conseguiram reduzir suas emissões em 11% no mesmo período.
A Secretária-Geral da UIT, Dorin Bogdan-Martin, observou: 'Apesar do enorme potencial das tecnologias digitais para combater as mudanças climáticas, não se pode ignorar suas crescentes necessidades de energia e emissões. A sustentabilidade ambiental deve ser integrada na forma como projetamos, alimentamos e escalamos as tecnologias que moldam nosso futuro digital coletivo.'
A Crescente Demanda de Energia da IA
Das 200 empresas incluídas no estudo, foram registradas 301 milhões de toneladas de emissões operacionais de gases de efeito estufa em 2024, o que equivale a 0,8% das emissões globais relacionadas à energia. Essas emissões aumentaram 1,2% em comparação com o ano anterior.
O consumo de eletricidade foi significativamente maior: 163 empresas relataram um consumo agregado de 494 terawatt-horas em 2024, representando cerca de 1,7% do consumo mundial de eletricidade. Entre as empresas que forneceram dados, a China Mobile foi o maior consumidor de eletricidade com 63 TWh, seguida por Alphabet e Samsung com 32 TWh cada, e a Microsoft utilizou 30 TWh. A Amazon não forneceu dados de eletricidade para 2024.
Os dez maiores consumidores de eletricidade utilizaram um total de 269 TWh, demonstrando a escala da infraestrutura necessária para sustentar a economia digital. A UIT prevê que a demanda por energia continuará a crescer à medida que a IA, a computação em nuvem e outras infraestruturas digitais se expandirem.
No entanto, a IA tem o potencial de reduzir emissões em outras áreas através de aplicações como otimização do consumo de energia, previsão de energia renovável e aumento da eficiência. Contudo, o principal desafio é garantir que esses benefícios não sejam ofuscados pela energia necessária para treinar e operar sistemas de IA cada vez mais poderosos.
Implicações para a África do Sul
Esta questão está se tornando cada vez mais relevante para a África do Sul, à medida que o país se prepara para uma expansão significativa da capacidade de data centers. De acordo com o estudo 'Digital Infrastructure Investment Study' do Banco de Desenvolvimento da África do Sul, a carga de TI instalada nos data centers sul-africanos deverá aumentar de 435 MW em 2024 para 829 MW até 2029, correspondendo a uma taxa média de crescimento anual de 17,5%. Este crescimento é parcialmente impulsionado pelo aumento da adoção de IA, computação em nuvem e demanda por processamento e armazenamento de dados.
O aumento previsto levará a uma nova e substancial necessidade de energia, enquanto o país se concentra em garantir fontes de alimentação confiáveis e limpas. O estudo do DBSA indica que as cargas de trabalho de IA exigem mais energia e maior densidade de racks do que as cargas de trabalho tradicionais de TI, o que significa que os data centers locais devem modernizar sua infraestrutura existente e expandi-la para acomodar essas cargas.
À medida que a demanda por energia aumenta, os operadores de data centers na África do Sul recorrem cada vez mais a projetos de energia renovável e esquemas de 'power-wheeling' para complementar o fornecimento da rede e alcançar os objetivos de desenvolvimento sustentável.
Metas Climáticas Não Estão Sendo Alcançadas
O relatório global estabeleceu que o setor de tecnologia está progredindo em termos de energia renovável e compromissos climáticos, mas a implementação permanece desigual. Apenas 25 das 200 empresas avaliadas declararam usar 100% de energia renovável.
Enquanto isso, 151 empresas estabeleceram metas de curto prazo de redução de emissões. No entanto, apenas 85 delas foram consideradas alinhadas com o plano com base no progresso atual, e apenas 81 empresas possuíam planos abrangentes para atingir suas metas climáticas. O relatório também identificou lacunas significativas na divulgação de emissões. Embora a maioria das empresas divulgasse emissões diretas e emissões relacionadas à energia comprada, menos da metade relatava emissões em toda a sua cadeia de valor.
Isso é importante porque uma parte significativa do impacto ambiental do setor de tecnologia ocorre fora da eletricidade usada em seus próprios escritórios e data centers. Jebrand Haverkamp, CEO da World Benchmarking Alliance, afirmou: 'As empresas digitais devem interagir com fornecedores e resolver o problema das emissões nos produtos e serviços dos quais dependem.'
Apenas o setor de eletrônicos representa 53% das emissões declaradas em três subsetores avaliados pela WBA, o que destaca a importância de considerar não apenas as próprias empresas de tecnologia, mas também suas cadeias de suprimentos.
Quem Está Desempenhando Melhor?
A Swisscom ficou em primeiro lugar na avaliação e foi a única empresa a receber nota máxima. Accenture, Deutsche Telekom, Vodafone, Capgemini e Telefonica também estão entre os participantes mais fortes. Por outro lado, 18 empresas não receberam classificação por não fornecerem informações suficientes, incluindo X e SpaceX de Elon Musk. Entre as empresas com menor classificação, mas que receberam pontuação, estavam Huawei, Spotify, Nintendo, Weibo, Xiaomi, Zoom e Toshiba TEC.
Essas conclusões representam um equilíbrio complexo para a indústria de tecnologia: a IA e os serviços digitais podem ajudar outros setores a reduzir sua pegada de carbono, mas a infraestrutura necessária para sustentar esse crescimento consome cada vez mais eletricidade e gera mais emissões.
