O projeto Casa Los Navegantes consiste na ampliação e modernização de uma residência construída em 1963, localizada no bairro de Pedro de Valdivia Norte. Este bairro é caracterizado por ser residencial e central, e possui a presença do morro San Cristóbal, além de sua vegetação e jardins.
As condições cruciais para o projeto incluíram a orientação norte-sul da casa, a sombra proporcionada pelo morro, a necessidade de aumentar a iluminação natural, e a manutenção da privacidade, da flora já existente e da conexão com os pátios internos.
Contudo, o elemento mais importante foi a própria estrutura original da casa, que possuía uma identidade bem definida: duas alas paralelas interligadas por um hall e organizadas em torno de um pátio central. Em vez de demolir essa estrutura, o projeto optou por trabalhar dentro de suas regras estabelecidas, preservando sua organização e formato, mas adicionando novas aberturas, conexões e relações com o ambiente externo.
Planejada para servir como moradia permanente para uma família composta por quatro pessoas, a intervenção precisava ser flexível para acompanhar as distintas fases da vida familiar. No piso térreo, foram concentrados os espaços de convivência, os serviços e a área destinada às crianças. A cozinha foi integrada à sala de jantar, e o antigo quarto principal foi adaptado para se tornar uma sala de estar infantil, ligando dormitórios, pátios e o jardim.
O andar superior foi reservado para a área íntima dos adultos. A principal ação arquitetônica consistiu em harmonizar dois períodos distintos sem misturá-los. Enquanto a alvenaria representa a casa original, uma expansão feita em madeira, posicionada transversalmente sobre as alas primárias, se destaca como uma adição contemporânea. Esta disposição minimiza o impacto da nova estrutura sobre a incidência solar, as vistas e os pátios.
A nova cobertura, cuja inspiração veio das formas abobadadas encontradas nas Escolas da Sagrada Família de Gaudí, foi reinterpretada através de uma geometria ondulada e uma estrutura de madeira, definindo tanto a aparência externa quanto a atmosfera interna. O planejamento e a execução desta cobertura representaram um dos maiores desafios técnicos da obra. Um desafio semelhante ocorreu com a escada helicoidal, que foi desenhada para ocupar o mínimo de espaço possível sem obstruir a visão do pátio interno, sendo concebida como uma peça escultural envolta em vidro, garantindo a entrada de luz e a continuidade visual com o jardim.
A combinação de madeira com isolamento de celulose possibilitou o desenvolvimento de uma envolvente termicamente eficiente. Além disso, as tesouras removidas das coberturas originais foram reaproveitadas para a confecção de móveis, como mesas de jantar e estantes, reintegrando materialmente partes da antiga residência.
O paisagismo foi integrado ao conceito arquitetônico. Foi mantido um pittosporum de notável presença escultural e uma primavera que estabelece uma ligação visual entre os pátios. O jardim, majoritariamente composto por espécies nativas, inclui uma piscina natural cujas plantas auxiliam na purificação da água, além de telhados verdes que estendem a paisagem em direção ao segundo pavimento.
Em suma, o projeto não se limitou a apagar a casa de 1963; ele explorou o potencial de transformação a partir do que já existia. A convivência entre alvenaria e madeira, entre geometrias ortogonais e curvas, entre arquitetura e vegetação, torna visível a relação entre o passado e o presente, permitindo que a habitação se ajuste às novas maneiras de viver.
