Em uma aldeia indiana, a mudança no comportamento das formigas pode indicar algo mais do que parece à primeira vista. Antes da chegada de fortes chuvas, as pessoas notam há muito tempo como as formigas transportam ovos e larvas para locais mais altos e secos. Ao mesmo tempo, sapos ficam mais barulhentos, pássaros mudam seus movimentos e cobras às vezes deixam seus esconderijos. Essas observações foram transmitidas de geração em geração na forma de folclore.
No entanto, por trás dessas observações reside uma questão científica: os animais realmente sentem as mudanças antes dos humanos? A resposta é mais complexa do que apenas a ideia de um 'sexto sentido'. Os animais não preveem terremotos, ciclones ou inundações no sentido humano. Em vez disso, seus corpos são capazes de registrar sinais físicos que são difíceis para os humanos ouvirem, sentirem ou verem, sejam vibrações que se propagam pelo solo ou mudanças na pressão atmosférica. Isso pode explicar por que os animais às vezes começam a se mover antes que o desastre ocorra.
Quando as formigas se movem
Em muitas partes da Índia, as formigas são um dos animais que as pessoas observam atentamente antes de fortes chuvas. Seus movimentos entraram no conhecimento tradicional sobre o meio ambiente em várias comunidades. As próprias formigas não sabem da aproximação de uma tempestade. No entanto, suas colônias estão profundamente inseridas no meio ambiente. Mudanças na umidade do solo, nível de umidade, temperatura e equilíbrio hídrico podem alterar as condições dentro e ao redor do ninho. Portanto, o movimento de ovos ou larvas para um local mais seguro pode ser uma reação à mudança ambiental, e não um ato de previsão.
A questão do terremoto
Essa ideia se torna ainda mais surpreendente quando se trata de terremotos. Durante séculos, as pessoas relataram que cães latem, cobras aparecem, pássaros voam e gado fica agitado pouco antes dos terremotos. Na Índia, existe um corpo próprio de histórias sobre o comportamento incomum de animais, especialmente em áreas geologicamente ativas do Himalaia e Nordeste. Existe uma possível explicação biológica. Um terremoto envia vários tipos de ondas através da Terra; as ondas primárias (ondas P) viajam mais rápido do que as ondas S, mais destrutivas, que as seguem. Animais capazes de captar as sutis oscilações da terra podem registrar esses movimentos precoces antes que o humano sinta o tremor principal conscientemente. Elefantes são particularmente interessantes, pois podem detectar vibrações de baixa frequência através de suas patas e se comunicar usando sons de baixíssima frequência. Cobras também são altamente sensíveis a vibrações que percorrem o solo. No entanto, isso não significa que uma cobra possa nos dizer que um terremoto ocorrerá amanhã. O Serviço Geológico dos EUA observa que comportamentos anormais de animais foram relatados antes de terremotos ao longo de séculos, mas os cientistas não estabeleceram um padrão consistente que pudesse prever com confiabilidade o momento do terremoto. Um animal pode detectar uma perturbação, mas isso não significa necessariamente que ele possa nos dizer o que causou essa perturbação.
O Tsunami de 2004
Esta distinção tornou-se importante após um dos desastres naturais mais mortais da modernidade. Em 26 de dezembro de 2004, sob o Oceano Índico, perto da costa da Indonésia, ocorreu um terremoto de magnitude 9,1, que causou um tsunami que matou pelo menos 225.000 pessoas em países ao redor do Oceano Índico, de acordo com a BBC. Muitas comunidades costeiras não receberam nenhum aviso. No entanto, nos minutos e horas antes que as ondas chegassem à costa, testemunhas descreveram diferentes comportamentos animais. A BBC relatou casos em que elefantes se moviam em direção a elevações, flamingos deixavam áreas baixas para nidificar e cães recusavam-se a sair. Na aldeia de Bang Koey, na Tailândia, os moradores, segundo relatos, viram búfalos virar-se subitamente para o mar e depois correr para a montanha pouco antes do impacto do tsunami. Essas histórias tornaram-se parte da mitologia em torno desse desastre. Mas os cientistas alertaram repetidamente que tais relatos não podem provar que os animais previram o tsunami. Eles apenas demonstram a possibilidade de que os animais reagiram a sinais ambientais relacionados ao terremoto, ondas ou condições alteradas ao seu redor.
Um radar meteorológico próprio
O mesmo princípio se aplica a tempestades. Muitas aves são capazes de captar mudanças na pressão atmosférica, enquanto alguns animais ouvem frequências que estão muito além da audição humana. Essas capacidades podem ser úteis quando as condições climáticas começam a mudar. Pesquisas mostraram que algumas aves reagem à queda da pressão barométrica associada a tempestades iminentes. Aves migratórias também podem reagir às condições atmosféricas durante longas viagens. Uma queda na pressão, que para um meteorologista significa 'aproximação de mau tempo', para um pássaro pode significar simplesmente 'mudança de condições'.
Folclore não é necessariamente o oposto da ciência
É aqui que o conhecimento tradicional da Índia merece um estudo cuidadoso. Algumas observações podem ter sido formadas pelo folclore ao longo de gerações. A ciência não precisa aceitar cada interpretação tradicional para aceitar a observação em si. A questão importante é se esse comportamento pode ser medido, replicado e ligado a uma mudança específica no meio ambiente. As formigas podem indicar de forma confiável o aumento da umidade do solo antes de inundações? Os movimentos das aves podem detectar perturbações atmosféricas iminentes? As reações dos animais às vibrações da terra podem melhorar nossa compreensão dos terremotos? Estas são questões testáveis, não profecias. Sensores. O corpo do animal é equipado com sistemas sensoriais formados por milhões de anos de evolução. Vibrações, pressão, som, umidade e outras mudanças que mal são registradas por humanos podem se tornar informação para outra espécie. No entanto, o comportamento animal não é preciso o suficiente para substituir os sistemas de alerta científicos. A recusa de um cão em sair pode significar muitas coisas. Pássaros podem se mover devido a predadores. Formigas podem se mover porque seu ninho ficou molhado. Essa incerteza é exatamente o motivo pelo qual os pesquisadores precisam de estudos controlados, e não de anedotas. No entanto, as observações antigas levantam uma questão que a tecnologia moderna não tornou obsoleta.
