Na costa de Gqeberha, na África do Sul, milhares de sardinhas mortas foram jogadas na praia na semana passada, levando as autoridades a iniciar uma nova investigação. Ao amanhecer, vastas áreas da linha costeira de Gqeberha estavam cobertas por peixes prateados.
Moradores das praias de Hobie e Pollock observaram ondas trazendo cada vez mais peixe para a areia, o que aumentou as preocupações de que um vírus associado às mortes em massa destrutivas de sardinhas no exterior possa ser a causa do ocorrido.
O grupo local de conservação ambiental Algoa Bay Conservation descreveu o espetáculo como 'destrutivo'. Após isso, os escritórios de cientistas marinhos receberam inúmeras chamadas.
Nadine Stride, professora de zoologia na Universidade Nelson Mandela, relatou que eles receberam muitas solicitações. Ela esclareceu que sardinhas e pilchards eram predominantes entre os peixes capturados e enfatizou que a verdadeira escala da mortalidade pode ser significativamente maior do que o que foi encontrado na praia, pois parte dos peixes poderia estar no fundo do mar.
Este despejo em massa ocorreu apenas algumas semanas após uma morte semelhante de peixes ao longo da costa do Cabo Ocidental, na África do Sul, localizada a centenas de quilômetros de Gqeberha.
O aumento dos despejos levantou preocupações sobre se o herpesvírus do pilchard (PHV) — uma doença que dizimou as populações de sardinhas na Austrália e Nova Zelândia nos anos 90 — pode se espalhar nas águas sul-africanas.
O Ministério da Floresta, Pesca e Meio Ambiente (DFFE) declarou no domingo que a probabilidade de ligação entre os eventos em Gqeberha e no Cabo Ocidental é considerada alta, embora ainda seja necessário confirmar. O Ministério observou que o PHV permanece a principal causa de mortalidade de peixes no Cabo Ocidental, mas outros fatores, incluindo causas ambientais, também serão investigados.
O DFFE informou que o vírus foi detectado pela primeira vez nas águas sul-africanas em julho, depois que sardinhas coletadas em Saldanha Bay, Cape Canyon, Elands Bay e Gansbaai deram teste positivo. A sequenciação genética mostrou uma semelhança superior a 99% com a cepa associada ao surto na Austrália.
Stride afirmou que isso está acontecendo pela primeira vez na história da África do Sul. Material de PHV foi encontrado tanto em sardinhas mortas quanto em sardinhas aparentemente saudáveis coletadas em Saldanha Bay, com os níveis mais altos de vírus registrados nos peixes mortos.
No entanto, o representante do DFFE, Zolile Nkayi, explicou que essa descoberta por si só não prova que o PHV foi a causa das mortes. Os cientistas estão estudando se o vírus é a causa principal ou se infecta peixes já enfraquecidos pelo estresse ambiental.
As populações de sardinha na África do Sul já estão em estado baixo, e águas com baixo teor de oxigênio e florações de algas nocivas podem torná-las mais vulneráveis a doenças. Testes governamentais não detectaram vestígios de toxina paralisante de moluscos e apenas baixos níveis de outras toxinas marinhas, o que diminui a probabilidade de que a intoxicação por algas tenha sido a principal causa.
A investigação está se expandindo após relatos de despejos de sardinhas ao longo da costa da Namíbia. Embora o PHV não represente um risco conhecido para a saúde humana, as consequências mais amplas do surto já estão sendo sentidas. Na usina nuclear Koeberg, perto de Cidade do Cabo, sardinhas mortas entupiram o tanque de água de resfriamento, forçando a empresa nacional de energia a reduzir a produção em um de seus dois blocos.
Cientistas e grupos de conservação temem que as consequências possam ir muito além do setor pesqueiro. Craig Smith, especialista técnico sênior da WWF África do Sul, relatou que a organização está cooperando com representantes do governo e da indústria para responder ao surto. Ele expressou profunda preocupação, observando que na Austrália o vírus destruiu 70% dos estoques, e teme que esta possa ser a primeira onda, com possibilidade de uma segunda onda mais letal.
As sardinhas ocupam um lugar crítico na cadeia alimentar marinha, sendo alimento para golfinhos, focas, aves marinhas e pinguins africanos ameaçados de extinção. Stride enfatizou que as consequências são 'imensas', dada a morte de grande quantidade de peixes, o que pode afetar o meio ambiente.
Em Algoa Bay, onde se encontra uma das colônias mais importantes de pinguins africanos no mundo, defensores da natureza acreditam que a perda de sardinhas pode aumentar a pressão sobre os pinguins, que já enfrentam dificuldades para encontrar comida. O químico-ecologista Ronelle Friend, da Algoa Bay Conservation, afirmou que, devido à pesca descontrolada, os pinguins já lutam por comida, e agora, com esta morte viral de sardinhas, a situação piorará.
As comunidades pesqueiras também observam com apreensão. Um pescador veterano de Durban, Bonnie Adams, observou que a migração de sardinhas este ano já foi mais silenciosa que o normal. Ele acrescentou: 'Agora, com este vírus, não sabemos o que esperar. Estamos realmente preocupados.'
Um grupo intergovernamental coordena o monitoramento, testes, descarte de peixes mortos e avaliação do impacto nos estoques de sardinhas. Espera-se que o Grupo de Trabalho Científico Pelágico Menor se reúna esta semana para discutir a necessidade de medidas de gestão adicionais. No entanto, até que o escopo da mortalidade permaneça incerto, e um quadro mais claro possa emergir mais tarde este ano durante o levantamento hidroacústico anual dos estoques de sardinhas realizado pelo DFFE.
