O novo Conselho Nacional contra Violência de Gênero e Feminicídio enfrenta a necessidade de transformar obrigações políticas em melhor financiamento, maior responsabilização e apoio às sobreviventes, o que é sublinhado por alarmantes dados estatísticos da SAPS sobre a crise de violência de gênero na África do Sul.
Organizações da sociedade civil alertaram que o novo Conselho Nacional contra Violência de Gênero e Feminicídio na África do Sul será avaliado pela capacidade de suas prioridades resultarem em melhorias no financiamento, fortalecimento da responsabilidade e mudanças práticas para as vítimas.
O Conselho realizou sua primeira reunião em Pretoria na segunda-feira, onde foi decidido desenvolver um Pacto de Acionistas e um sistema de cálculo de custos para a resposta à violência de gênero no país, além de identificar lacunas de financiamento e recursos.
Siyabulela Monakali, representante da Ilitha Labantu, observou que os problemas identificados pelo conselho não são novos. Ele afirmou que é prematuro considerar a reunião como uma conquista ou presumir que a criação do Conselho levará automaticamente a mudanças significativas.
Monakali enfatizou que a África do Sul já possuía legislação e um Plano Estratégico Nacional contra a Violência de Gênero e Feminicídio, mas a implementação dessas medidas permaneceu um problema central. Ele questionou se o Conselho possui, em última análise, a autoridade, os recursos e a vontade política para resolver esses problemas.
Sindisive Chikunga, Ministra na Presidência dos Assuntos da Mulher, Juventude e Pessoas com Deficiência, informou que o conselho desenvolverá um sistema abrangente de cálculo de custos para determinar as necessidades da resposta nacional, identificar déficits de recursos e criar um estudo de viabilidade de investimento.
O Pacto de Acionistas definirá como a eficácia do trabalho do conselho será medida. Monakali apontou que as maiores carências são observadas nas organizações que prestam serviços diretos às sobreviventes em townships, áreas rurais e comunidades carentes. Ele destacou particularmente que uma das maiores carências de financiamento recai sobre a linha de frente, especialmente entre ONGs e organizações da sociedade civil que fornecem assistência direta a sobreviventes e grupos vulneráveis.
A South African Refugee Movement expressou preocupações semelhantes após o Presidente Cyril Ramaphosa anunciar sete membros do conselho em 31 de julho. Esta organização notou a existência de leis e políticas fortes contra a violência de gênero na África do Sul, mas apontou dificuldades na sua implementação, coordenação e responsabilização. Além disso, pediram financiamento sustentável para refugiados e organizações da sociedade civil.
A Ilitha Labantu acredita que o processo de avaliação de custos também deve considerar as fraquezas no funcionamento da polícia, do sistema de saúde, dos serviços sociais e do sistema judicial. Monakali declarou que as sobreviventes não podem continuar a enfrentar sistemas que não estão adequadamente equipados para responder com a urgência, sensibilidade e competência exigidas.
O trabalho do conselho começa em meio a 50.511 casos de violência de gênero registrados na SAPS no ano fiscal de 2025/26, de acordo com dados do Ministro Ativo de Polícia, Professor Firoz Kachali. Em resposta parlamentar, Kachali relatou que 30.736 casos resultaram em prisões e/ou encaminhamento de materiais ao Ministério Público Nacional.
Criado de acordo com a Lei do Conselho Nacional contra Violência de Gênero e Feminicídio nº 9 de 2024, o conselho é responsável por monitorar a estratégia nacional, promover a responsabilização e mobilizar recursos. Monakali acredita que o teste crucial será se os departamentos e instituições sofrerão consequências por não cumprirem seus deveres. Ele enfatizou que a responsabilização não pode se resumir apenas à identificação de falhas e à discussão delas em reuniões, enquanto os mesmos problemas persistirem ano após ano.
A Ilitha Labantu exige uma clara distribuição de responsabilidades, metas mensuráveis e prazos, apoiados por relatórios públicos de progresso e fracassos. Durante o primeiro ano, a organização também espera que os recursos cheguem aos serviços críticos e que haja uma melhoria no tratamento das sobreviventes ao buscar ajuda. Monakali concluiu que, para a Ilitha Labantu, a questão mais importante é o que realmente mudará. Ele perguntou se uma sobrevivente poderá obter apoio mais facilmente, se as organizações na linha de frente terão acesso a financiamento sustentável e se haverá consequências caso os departamentos governamentais não cumpram suas obrigações. Ele acrescentou que o sucesso não pode ser medido pelo número de reuniões realizadas ou relatórios preparados; ele deve ser refletido em melhorias tangíveis na resposta às sobreviventes e em maior responsabilização de todo o sistema. Monakali também observou que a primeira reunião, realizada nos últimos dias do Mês da Mulher, não deve significar que a violência de gênero atrai atenção apenas durante campanhas de conscientização, pois a violência contra as mulheres ocorre diariamente, e não apenas em períodos como o Mês da Mulher ou os 16 dias de ativismo. Agora, o conselho deve demonstrar que seu mandato estatutário pode transformar obrigações antigas em mudanças que as sobreviventes experimentam ao receber proteção, apoio e justiça.


