A segunda edição dos Jogos Mundiais de Robôs Humanoides, realizada em Pequim, concluiu-se na semana anterior, apresentando competições em 51 diferentes modalidades. Neste evento, a seleção brasileira de robôs obteve um desempenho notável no futebol, emergindo como campeã do torneio entre as equipes internacionais após vencer a Itália na grande final.
No campo de jogo, os robôs tiveram que demonstrar habilidades complexas, como a identificação do ambiente, o controle de seus próprios movimentos e a capacidade de trabalhar em conjunto. O sucesso brasileiro foi liderado por Flávio Tonidandel, pesquisador em robótica e vice-presidente da RoboCup Brasil. Em conversa com o Olhar Digital, Tonidandel mencionou um dos maiores desafios: o uso de robôs inéditos, fornecidos pela Booster Robotics, responsáveis pelos robôs de futebol.
Esses robôs utilizavam o modelo T2, que havia sido distribuído para programação pelas equipes. Segundo Tonidandel, embora os robôs viessem com funcionalidades básicas, como chutes pré-treinados, locomoção e equilíbrio, o goleiro apresentava um desempenho deficiente, exigindo que os participantes trabalhassem intensamente em diversos parâmetros para ajustá-lo.
A abordagem adotada pelo Brasil consistiu em replicar táticas observadas no futebol tradicional. Para isso, cada robô recebeu uma função específica que precisava ser executada, conforme detalhou Isabela Moura, estudante da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e membro da seleção brasileira. Ela explicou que a equipe dividiu tarefas, com pessoas focadas no goleiro, no atacante e no posicionamento dos robôs.
Inicialmente, o trabalho da equipe era baseado em jogos de três contra três, mas a competição exigia um formato de cinco contra cinco, forçando a consideração de mais robôs e funções durante as partidas.
Durante a final internacional contra a Itália, um robô designado como líder era encarregado de perseguir constantemente a bola. Guilherme Escudeiro, estudante do Centro Universitário FEI, em São Paulo (SP), relatou que inicialmente houve receio devido à menor responsividade do líder brasileiro comparado ao adversário, que parecia chegar e chutar a bola com maior rapidez. Contudo, após a equipe ajustar a defesa, suas ações foram eficazes, permitindo que o líder brasileiro recuperasse a posse de bola consistentemente. Os adversários notaram essa mudança e questionaram a equipe brasileira sobre o que haviam implementado.
Atualmente, a equipe brasileira está se preparando para a próxima edição do evento com o objetivo de buscar o bicampeonato.
A segunda edição das Olimpíadas de Robôs Humanoides na China registrou outros feitos notáveis. Nas provas de atletismo, o robô chinês Tiangong Ultra superou o recorde humano dos 100 metros rasos, completando a distância em apenas 8,64 segundos, o que é quase um segundo mais rápido que a marca humana de 9,58 segundos, estabelecida por Usain Bolt em 2009.
A atração gerada por robôs que quebram recordes humanos serve como um objetivo para edições futuras no país asiático, mas o propósito do torneio vai além de corridas ou saltos. Um desafio crucial para as empresas de robótica e tecnologia nos Jogos Mundiais de 2026 é demonstrar a utilidade prática de seus modelos, mostrando que eles podem ser aplicados tanto em linhas de produção industriais quanto em ambientes domésticos.
Dos 51 eventos, 30 eram esportivos (incluindo atletismo, futebol e tênis de mesa), enquanto 21 eram baseados em cenários práticos, como resgate, hotelaria e tarefas fabris. De modo geral, o evento funcionou como uma vitrine para o notável avanço na potência física e velocidade dos modelos, apesar de alguns momentos terem gerado conteúdo viral.
Entretanto, os robôs humanoides ainda enfrentam dificuldades em dois aspectos essenciais para sua aplicação no mundo real: autonomia e precisão fina. Somente após superar esses obstáculos é que os modelos poderão operar fora de ambientes altamente controlados.
Anderson Moreira, professor de Engenharia de Controle e Automação e coordenador da equipe de robótica do Instituto Mauá de Tecnologia, comentou que «uma casa é, do ponto de vista da robótica, muito mais imprevisível do que uma fábrica». O professor também enfatizou que «uma competição demonstra capacidade tecnológica, não maturidade industrial», distinguindo a quebra de recordes atléticos da real utilidade em um contexto fabril.

