Atelier CRAFT explora a filosofia de projeto que une o fazer artesanal à arquitetura reversível
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Atelier CRAFT explora a filosofia de projeto que une o fazer artesanal à arquitetura reversível

O Atelier CRAFT, sediado em Saint-Ouen, Paris, dedica-se a investigar as narrativas contidas nos materiais e como as marcas visíveis do trabalho artesanal podem interagir com os processos de fabricação e a industrialização. A filosofia do estúdio propõe que o ato de pensar através da execução se torne o guia central de um projeto, combinando madeira, insumos industriais e itens reutilizados, seguindo o princípio da arquitetura reversível, resumido em seu manifesto: «Transformar o projeto através do fazer».

Desde sua fundação em 2016, o escritório foca em projetos que cruzam arquitetura, design e cenografia, atuando em ambientes culturais, comerciais e sociais. O Atelier CRAFT também dá grande atenção à circularidade, priorizando o reaproveitamento de técnicas, materiais, sistemas de montagem e objetos. Ao dissolver as fronteiras disciplinares, cada empreendimento se torna uma chance de construir uma narrativa coletiva e fomentar novas formas de cooperação.

Um exemplo que ilustra essa visão é o projeto AMBACTOS, denominado Cozinha da Embaixada do Amanhã (previsto para 2025). Este projeto enfatiza a importância de valorizar os criadores, colocando os trabalhadores no centro da representação diplomática, onde a cozinha funciona como um local de hospitalidade e palco para a culinária francesa.

O estúdio redefine o conceito de ornamentação sob a perspectiva das questões atuais, alterando a linguagem visual de poder e representação. Elementos como a habilidade manual, a competência técnica, a responsabilidade ambiental e o uso de materiais brutos são cruciais nos espaços diplomáticos. Por exemplo, uma estrutura feita de madeira de carvalho recuperada de uma antiga fazenda compõe o pavilhão de recepção, e um molde da Manufatura de Sèvres é reinterpretado como luminária suspensa.

Em uma conversa com o Atelier CRAFT, foi detalhado o processo criativo, a forma como o artesanato revitaliza diversos elementos e o valor do toque do artesão na arquitetura contemporânea.

Processo de desenvolvimento de projeto do Atelier CRAFT

O processo de projeto do Atelier CRAFT sempre se inicia com uma história; a equipe pesquisa narrativas históricas, sociais e culturais. Dessa forma, as decisões tomadas para cada cliente ou projeto são sempre ancoradas no contexto, seja por meio de referências históricas ou escolha de materiais. Após anos dedicados à prática, o estúdio passa a definir uma linguagem construtiva e a identificar suas prioridades: a ressignificação de objetos, a beleza inerente ao material bruto e o ofício artesanal. Sua filosofia é sintetizada na frase: «Transformar o projeto através do fazer».

Ao ser questionado sobre o papel do fazer artesanal, o Atelier CRAFT descreve uma prática criativa mista de designer e executor. A união entre concepção e execução sempre foi um princípio fundamental, motivado pela necessidade de ultrapassar os limites entre arquitetura, design e artesanato. Ter o estúdio de design integrado à oficina permite uma criação orgânica e livre, pois muitas soluções surgem durante a experimentação na oficina, dispensando o desenho completo.

Embora não se definam estritamente como artesãos, o estúdio é profundamente influenciado pelo artesanato devido à conexão única que ele estabelece com os processos de fabricação e os materiais. A transparência do processo de construção, que visa garantir a reversibilidade dos projetos, é o que frequentemente leva ao comentário de uma «estética artesanal», sendo este apenas um resultado do método adotado.

Valor agregado do reaproveitamento de materiais

O compromisso ambiental do estúdio envolve a redução das fontes de aquisição de materiais a cinco vias: aluguel (para eventos temporários), empréstimo (de fornecedores ou clientes), compra de segunda mão, uso do estoque próprio da oficina ou aquisição de novos, sempre mantendo a possibilidade de reversibilidade. Esse compromisso, embora presente em todos os trabalhos, não é um fim isolado; ele deve coexistir com a contação de histórias, a criação de imaginários desejáveis e a proposição de inovações.

Objetos existentes trazem conexões históricas que seriam difíceis de imaginar se o objeto fosse criado do zero. Eles servem como uma fonte inesgotável de inspiração. Utilizar peças antigas é visto como uma homenagem às tradições e aos artesãos que as produziram, mas o estúdio evita criar pastiches, utilizando o item antigo apenas como ponto de partida para adaptá-lo aos usos modernos.

Diálogo entre o fazer artesanal e sistemas industriais

O trabalho do Atelier CRAFT se posiciona entre o manual e o semi-industrial. Enquanto a indústria oferece eficiência e otimização, sua falha reside na incapacidade de se adaptar a contextos específicos, tendendo a descaracterizar. Já o DIY (faça você mesmo) garante a singularidade, mas dificulta a replicação. O objetivo é questionar a indústria, resgatando seu conhecimento técnico para aplicá-lo em escalas menores e mais adequadas ao contexto. A fusão entre artesanato e produção em massa permite respostas que são simultaneamente otimizadas e contextualizadas.

No projeto mais recente para a Birkenstock (setembro de 2025), por exemplo, foi escolhida a cortiça reciclada, dado que o cliente fabrica solados de cortiça. Complementada por materiais industriais como réguas de pedreiro em alumínio e MDF, a intenção foi tornar o conceito visível, permitindo que qualquer pessoa entenda intuitivamente a fabricação dos móveis e objetos. Todos os espaços criados funcionam como veículos para essas narrativas.

Abordagem da circularidade e identidade espacial

Para o estúdio, não há conflito em usar materiais de estoque, reaproveitados ou preexistentes em projetos novos com identidades próprias. Trabalhando com matérias-primas brutas, eles podem ser transformadas livremente para contribuir com novas visões sustentáveis e narrativas. A circularidade é vista como um requisito básico, mas não como ditadora das regras espaciais; os materiais circulam, mas a narrativa e os usos são únicos em cada projeto.

Diálogo entre histórias passadas e presente contemporâneo

No projeto Palanquin 1804-2024, foi fascinante trabalhar com um móvel de alto padrão técnico do século XIX. Inicialmente, o estúdio conheceu o móvel apenas por fotos, mas ao recebê-lo, a natureza artesanal da peça esclareceu os limites do que poderia ser feito para respeitar o trabalho original. Embora tivesse 220 anos, a escrivaninha permaneceu intacta e em ótimo estado. A proposta foi honrar a maestria do produtor, adicionando um toque autoral através da remontagem com uma nova estrutura que lhe confere uma função e narrativa inéditas, mantendo a possibilidade de reconstrução original.

Assim, o propósito é gerar espaços e objetos atemporais que se baseiam no passado, adaptando-os aos usos atuais para que possam perdurar no futuro, conciliando assim três temporalidades.

Olhando para o futuro, espera-se uma harmonização entre a mente e a mão no Atelier CRAFT, promovendo maior permeabilidade entre disciplinas como artesanato, design e arquitetura. Isso implica que o aprendizado prático e artesanal deve ser reintegrado aos currículos de arquitetura. Devido à escala, cronograma e lógica econômica da construção civil atual, recorre-se a métodos majoritariamente industriais. No entanto, a reforma de edificações antigas se alinha à prática do estúdio, exigindo um fazer mais artesanal ou, pelo menos, uma mistura entre artesanato e indústria, focando mais no processo do que no resultado final.

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