Cientistas usam roupas íntimas enterradas para medir a saúde e a fertilidade do solo
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Cientistas usam roupas íntimas enterradas para medir a saúde e a fertilidade do solo

Um grupo de cientistas da Universidade de Zurique desenvolveu uma iniciativa inovadora para aumentar a conscientização pública sobre a importância do solo, um recurso natural essencial para a produção de alimentos, visto que cerca de 95% dos alimentos globais dependem dele. Este recurso, que leva centenas ou milhares de anos para se formar, encontra-se em rápido processo de degradação, ameaçando ecossistemas e biodiversidade.

Em 2021, a equipe mobilizou aproximadamente mil voluntários para realizar um experimento em toda a Suíça. Eles enterraram mais de 2.000 peças de roupa íntima de algodão, incluindo calcinhas e cuecas, juntamente com 12 mil sacos de chá. Os itens foram dispostos em variados tipos de solo, abrangendo desde jardins até áreas de campo e gramados, com o propósito de demonstrar como tais objetos podem atuar como indicadores do estado do solo.

Após dois meses, os voluntários recuperaram as peças para análise laboratorial. Os resultados confirmaram as expectativas dos pesquisadores: enquanto algumas roupas permaneceram quase intactas, com apenas pequenos rasgos, outras apresentavam um nível de deterioração muito mais avançado, reduzindo-se a um mero esqueleto do tecido.

Os achados foram divulgados em 26 de agosto na revista científica Plants, People, Planet. Os autores concluíram que a menor taxa de degradação nas cuecas e calcinhas estava associada a solos com baixa concentração de nutrientes e menor atividade biológica. Em contrapartida, quanto maior era a decomposição do tecido, maior era a presença de organismos capazes de degradar o algodão.

Este fenômeno foi denominado pelos pesquisadores como o “índice de roupas íntimas”. Anteriormente, estudos similares utilizavam materiais como tiras de algodão, que são eficazes, mas menos atraentes para o público em geral.

Os cientistas também investigaram a correlação entre a decomposição das peças e as práticas de manejo da terra, que impactam diretamente a qualidade do solo. Foi notado que terras agrícolas, pastagens e gramados exibiram peças com menor grau de deterioração. O solo menos fértil analisado no estudo era aquele proveniente de monocultura de grama, comum em residências e edifícios.

Em contraste, os solos de jardins privados demonstraram alta atividade biológica, graças à presença de minhocas, fungos e outros seres vivos, resultando na decomposição de 58% do algodão das peças enterradas nesse tipo de solo durante o período de dois meses. Este padrão sugere uma ligação com o cuidado e a fertilização frequente desses ambientes.

Entretanto, o estudo alerta que uma maior fertilidade não implica automaticamente em solo de excelente qualidade. Os jardins particulares, por exemplo, registraram níveis mais altos de fósforo, nitrogênio e potássio, superando, em certos casos, os limites considerados ideais. Assim, uma decomposição excessivamente rápida das roupas íntimas também não deve ser interpretada como um indicador positivo.

Os autores ressaltam que este projeto prova que as roupas íntimas funcionam como uma ferramenta simples e fácil de entender, oferecendo dados valiosos sobre o estado do solo. Eles propõem o “Índice de Roupa Íntima” como um método acessível e engajador para avaliar a fertilidade e os processos de decomposição, visando elevar a consciência pública sobre o solo como um recurso vital sob ameaça.

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