As espécies invasoras representam uma das maiores ameaças à biodiversidade de água doce globalmente, e seu controle frequentemente exige métodos severos. Um exemplo disso é o caso da truta-apache e do chub-de-cauda-redonda, peixes nativos do rio West Fork Black, no Arizona, que competem há muito tempo com a truta-das-fontes, uma espécie considerada invasora.
Para combater essa invasão, biólogos estão introduzindo mais peixes da espécie invasora, criados em cativeiro, diretamente no rio. Inicialmente, essa tática pode parecer ilógica, mas esses novos peixes possuem uma característica genética específica projetada para levar a população invasora à extinção.
Conhecidos como supermachos ou machos Trojan YY, esses indivíduos apresentam dois cromossomos Y em vez de apenas um. Quando esses supermachos se acasalam com trutas fêmeas, toda a prole nasce do sexo masculino. Com o passar do tempo, isso resulta em uma população composta exclusivamente por machos idosos, extinguindo assim a linhagem invasora.
Após seis anos de implementação do experimento, os resultados têm sido favoráveis. No rio West Fork Black, a proporção de machos na população atingiu 61% no ano anterior, e em dois riachos localizados em Idaho, os supermachos conseguiram erradicar completamente a truta-das-fontes. Estes achados foram detalhados em um artigo publicado na revista Transactions of the American Fisheries Society.
Anteriormente, os métodos utilizados para controlar peixes invasores incluíam o emprego de venenos, como a rotenona, e a pesca elétrica. Contudo, ambas as abordagens enfrentam limitações: a rotenona afeta tanto peixes nativos quanto invasores, enquanto a pesca elétrica não demonstra eficácia significativa em grandes massas d'água.
A ideia dos supermachos foi desenvolvida em 2008 pela equipe de pesquisadores. Dan Schill, o primeiro autor do estudo, obteve a sugestão de um matemático de que os machos YY poderiam causar a extinção de uma espécie invasora. Assim, ele e seus colaboradores decidiram testar essa metodologia na truta-das-fontes.
A truta-das-fontes foi escolhida porque, embora seja originária do leste dos Estados Unidos, ela se tornou invasora na região oeste há mais de cem anos. Adicionalmente, o rápido amadurecimento dessa truta facilitou o processo de teste.
Em 2016, a equipe introduziu as primeiras criações de supermachos nos riachos Bear e Willow, na área central de Idaho. Para garantir uma vantagem numérica inicial, foi aplicada também a técnica de pesca elétrica para remover pelo menos metade da população de trutas-das-fontes. Consequentemente, os supermachos superaram em número os machos selvagens, e atualmente quase não há espécies invasoras nesses dois riachos.
Mais provas da eficácia da estratégia podem aparecer em breve. Atualmente, nove estados americanos apoiam um programa de criação de machos Trojan, e oito estados realizam testes ativos em riachos. No Novo México, a proporção de machos em três riachos experimentais alcançou 90%.
Os testes não se restringem apenas à truta-das-fontes. Os pesquisadores estão analisando pelo menos outras dez espécies, incluindo peixes como o lúcio-do-norte e o bagre-do-canal, além de anfíbios como o rã-touro.
É importante notar que nem todas as espécies de peixes invasores podem ser erradicadas com o uso de supermachos. Algumas delas possuem a capacidade de mudar de sexo conforme a temperatura da água ou a densidade populacional, o que complica a intervenção dos supermachos. Além disso, corpos d'água extensos, como rios e lagos, exigem uma quantidade extremamente alta de machos YY para que a estratégia seja bem-sucedida.
