Corvos da espécie Corvus brachyrhynchos são capazes de memorizar os traços faciais de uma pessoa específica associada ao perigo e continuam a demonstrar hostilidade apenas a essa pessoa mesmo anos depois. Isso foi comprovado em um estudo realizado pela Universidade de Washington (EUA), utilizando máscaras humanas para capturar e soltar as aves.
Uma descoberta ainda mais surpreendente foi que corvos que nunca foram capturados também começaram a demonstrar agressividade contra aqueles que usavam a mesma máscara da pessoa que apresentava o 'rosto perigoso', o que indica a disseminação da informação sobre o 'rosto perigoso' dentro do grupo.
Condução do experimento
O experimento ocorreu em cinco locais perto de Seattle (EUA), sob a direção do biólogo John Marzluff e sua equipe da Universidade de Washington. Em cada localidade, entre sete e quinze corvos eram capturados usando redes. Após a captura, os pássaros recebiam anéis de identificação na pata e eram depois libertados.
Durante a captura, os pesquisadores utilizavam máscaras de borracha classificadas como 'perigosas'. Em outros momentos, sem realizar capturas, eles se moviam pela mesma área com outras máscaras, chamadas de 'neutras'. Antes do início da captura, poucos corvos reagiam a qualquer uma dessas duas máscaras.
No entanto, a situação mudou: os pássaros começaram a gritar e a atacar aqueles que usavam a máscara 'perigosa', independentemente da roupa, sexo ou modo de andar da pessoa. A máscara 'neutra' continuou a ser ignorada, assim como os pesquisadores que não usavam máscaras.
Os resultados foram publicados em dois artigos da mesma equipe nas revistas Animal Behaviour em 2010 e Proceedings of the Royal Society B em 2012.
Mecanismos de propagação do aviso
O segundo estudo foi dedicado especificamente a esta questão e revelou duas formas de propagação do sinal de alerta dentro do grupo. A primeira é vertical: filhotes de corvos que nunca viram a captura já reagiam à máscara 'perigosa', supostamente devido à influência de seus próprios pais. A segunda é horizontal, entre aves da mesma geração.
Quando um corvo é capturado, outros pássaros das redondezas se aproximam, alertados pelo característico grito de socorro da espécie. Mesmo sem serem tocados, esses vizinhos parecem associar toda a cena, incluindo o rosto da pessoa responsável, ao perigo.
Existe uma diferença significativa entre os grupos. Os corvos que foram efetivamente capturados distinguem as máscaras 'perigosa' e 'neutra' com muito mais precisão do que aqueles que aprenderam observando a reação dos outros. Não se trata de uma situação em que o corvo 'comunica' ao outro no sentido literal; o aprendizado ocorre porque o sinal de alarme de um pássaro serve como pista para os vizinhos, o que é um mecanismo registrado em outras espécies.
No estudo inicial, os cientistas confirmaram que o reconhecimento persistia por pelo menos 2,7 anos após uma única captura. Relatos posteriores da própria equipe sugerem um efeito ainda mais duradouro.
Durante um passeio pelo campus da universidade usando a máscara 'perigosa', anos após o experimento, Marzluff foi alvo de agressão por 47 dos 53 corvos que cruzaram seu caminho. Isso é significativamente maior do que aqueles que foram capturados inicialmente.
Isso indica que o grupo mantém e transmite essa informação ao longo do tempo, mesmo com a mudança de participantes entre gerações. A conclusão prática para quem vive perto de corvos é simples: a preocupação de um pássaro pode levar a uma má reputação em toda a bandada por muitos anos, incluindo corvos que nunca viram a cena original.
