A dor de cabeça desencadeada pelo consumo de algo muito gelado, como sorvete, tem sua origem inicial dentro da cavidade oral. Quando temperaturas extremamente baixas entram em contato com o palato, elas induzem uma resposta em nervos e vasos sanguíneos daquela área. O cérebro interpreta este sinal como se a dor estivesse localizada na testa ou nas têmporas.
Este evento é tecnicamente denominado cefaleia associada à ingestão ou inalação de estímulos frios, sendo também conhecido como ganglionite esfenopalatina. Embora o nome seja complexo, o mecanismo é relativamente simples: o frio afeta o palato, mas a percepção da dor ocorre em outro local.
Ao comer uma colherada de sorvete ou beber algo muito gelado, o palato esfria rapidamente. Essa variação térmica é detectada pelos nervos que transmitem informações da face ao cérebro. Uma das principais teorias aponta para uma reação vascular ao frio, onde os vasos sanguíneos podem alterar seu diâmetro rapidamente, modificando o fluxo sanguíneo regional e potencialmente ativando sinais de dor.
Contudo, os cientistas ainda não possuem uma explicação completa para todo o mecanismo; por isso, a alteração vascular é vista como uma hipótese central, e não como uma conclusão definitiva. Um estudo realizado na revista científica Cephalalgia, que analisou 618 indivíduos, revelou que 51,3% deles já experimentaram dores de cabeça após contato com algum estímulo frio.
Geralmente, essa dor é transitória. Conforme a classificação internacional de cefaleias, ela deve cessar em até dez minutos após o término do contato com o frio, embora na maioria dos casos a sensação dure apenas alguns segundos ou poucos minutos.
A explicação reside em uma espécie de 'confusão' do sistema nervoso. Os nervos que trazem informações da boca também estão conectados a áreas da cabeça. Quando o sinal chega ao cérebro, ele pode ser erroneamente interpretado como dor na testa ou nas têmporas. Este fenômeno é classificado como dor referida, caracterizada pela sensação de dor em um ponto distinto da origem do estímulo.
O nervo trigêmeo é um dos componentes cruciais nesta comunicação, pois ele conduz informações de sensibilidade de grande parte do rosto e da cabeça. O gânglio esfenopalatino, situado em uma região profunda da face, é outra estrutura ligada a este fenômeno.
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Esta conexão com as vias da dor motivou pesquisadores a investigar uma possível correlação entre a dor de cabeça do sorvete e a enxaqueca. Um estudo publicado na Cephalalgia em 2003 investigou 8.359 adolescentes no Taiwan. Neste estudo, a dor causada pelo frio foi observada em 40,6% dos participantes. Entre os adolescentes diagnosticados com enxaqueca, essa frequência atingiu 55,2%, comparada a 39,6% no grupo sem enxaqueca.
Outra pesquisa, publicada na mesma revista em 2004 por pesquisadores da Kocaeli University, na Turquia, identificou o fenômeno em 74% dos participantes com enxaqueca e em 32% daqueles com cefaleia tensional episódica. Tais achados sugerem uma possível ligação, mas não comprovam que a dor de cabeça do sorvete cause enxaqueca. Adicionalmente, um estudo de 1992 na revista Headache apresentou resultados divergentes, mostrando menor incidência do fenômeno em pessoas com enxaqueca em comparação com o grupo de controle. Assim, a relação ainda não pode ser estabelecida como uma regra universal.
Caso a dor surja, há uma técnica simples que pode auxiliar na sua rápida dissipação: pressionar a língua contra o palato. A intenção é reaquecer a área que foi resfriada pelo alimento ou bebida. Consumir o sorvete lentamente e em porções menores também auxilia, permitindo que a boca se adapte melhor à temperatura e reduzindo a probabilidade de dor.
Embora possa ser alarmante quando ocorre, a dor de cabeça induzida pelo sorvete tende a ser breve e passageira. O aspecto mais notável é a capacidade do cérebro de converter um estímulo interno na boca em uma dor sentida na testa. Portanto, na próxima vez que o sorvete causar essa pontada, o problema não estará necessariamente na cabeça, mas sim terá se iniciado no palato.
