Pesquisadores advertem que a órbita terrestre baixa atingiu seu limite operacional seguro, e a situação tende a se agravar rapidamente. De acordo com informações divulgadas, mais de 34 mil satélites e detritos atualmente circulam nessa região, e estima-se que pelo menos 41 mil novos objetos serão lançados até o ano de 2034.
Éder Martioli, pesquisador principal do Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA/MCTI) e afiliado ao Instituto de Astrofísica de Paris, afirmou em entrevista que haverá um momento em que a quantidade de objetos no espaço será tão grande que se tornará complicado manter um satélite de grande porte em órbita sem que ocorram colisões.
Os radares atuais são capazes de rastrear detritos com aproximadamente o tamanho de uma bola de softball, ou seja, cerca de 10 centímetros. Contudo, tudo o que for menor que esse tamanho é invisível aos sistemas de monitoramento, e este é o cerne do perigo.
Estimativas da Agência Espacial Europeia (ESA) indicam que existem mais de 36 mil detritos com mais de 10 centímetros orbitando a Terra, totalizando cerca de 11 mil toneladas de material. Se considerarmos objetos menores que 10 centímetros, o número ultrapassa 1 milhão. Wagner José Corradi Barbosa, diretor do LNA/MCTI, acrescentou que, incluindo fragmentos entre 1 mm e 1 cm, o total pode exceder 130 milhões.
O monitoramento desse lixo espacial é crucial para assegurar a integridade dos equipamentos espaciais. Martioli ressaltou que o problema já impacta a ciência, mencionando que pode haver um ponto em que não haverá mais céu disponível para estudos, devido à poluição luminosa gerada pela luz solar refletida pelos satélites, o que já prejudica observatórios globalmente.
O cenário mais temido pelos especialistas é conhecido como Síndrome de Kessler. Este conceito foi introduzido em 1978 pelo astrofísico Donald Kessler, enquanto ele trabalhava na NASA. Kessler alertou que, ao atingir uma determinada densidade de objetos em órbita, as colisões começariam a produzir fragmentos mais rapidamente do que a atmosfera conseguiria consumi-los, desencadeando uma reação em cadeia incontrolável.
Em 2009, Kessler havia previsto, com base em seu modelo, que o ambiente orbital poderia já estar instável. O mecanismo é simples: uma colisão gera milhares de pedaços, que podem atingir outros satélites, resultando em mais fragmentos, e assim sucessivamente. Isso levaria à inutilização da órbita por décadas ou séculos.
Um evento notório ocorreu em 2009, quando um satélite da Iridium Communications colidiu com um satélite russo desativado, gerando aproximadamente 1.800 fragmentos com pelo menos 10 centímetros de diâmetro.
As implicações de um colapso orbital seriam vastas, afetando não apenas as missões espaciais, mas também serviços essenciais como GPS, previsão do tempo, comunicações mundiais, monitoramento ambiental e internet via satélite.
Embora a ONU tenha estabelecido diretrizes para mitigar detritos, como exigir que satélites inativos sejam removidos em até 25 anos e projetar satélites modernos para liberar combustível residual, o ritmo dos lançamentos supera largamente essas soluções. Com a SpaceX operando mais de 10 mil objetos da Starlink e projetos como Kuiper da Amazon e constelações chinesas em expansão, o desafio de gerenciar o espaço próximo à Terra tornou-se extremamente urgente.
