Danone: como a empresa que vendia iogurtes em farmácias se tornou referência em ciência da alimentação
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Danone: como a empresa que vendia iogurtes em farmácias se tornou referência em ciência da alimentação

Antes de ocupar os refrigeradores dos brasileiros, os produtos da Danone já estavam disponíveis nas prateleiras das farmácias. Em 1919, em Barcelona, o fundador Isaac Carasso iniciou a comercialização de iogurtes, baseando-se nas descobertas científicas da época relativas à fermentação e à saúde digestiva. Essa modesta operação evoluiu para uma corporação presente em mais de 120 nações, contando com aproximadamente 2.000 cientistas focados em converter conhecimento em soluções nutricionais adequadas para diversas fases da vida.

Essa trajetória explica o motivo pelo qual a Danone se estabeleceu como uma das companhias mais influentes na criação, desenvolvimento e transformação de categorias alimentares globalmente. A empresa integra microbiologia, ciência dos alimentos, estudos clínicos e inovação para promover a saúde através da alimentação ao maior número de pessoas possível, abrangendo desde laticínios cotidianos até nutrição altamente especializada.

No Brasil, onde a companhia atua há mais de 55 anos, essa evolução é visível tanto no aprimoramento de seus produtos quanto na alteração dos hábitos alimentares dos consumidores. Um exemplo notável é o Danoninho, presente nas mesas brasileiras desde 1973, que atualmente contém 50% menos açúcar em comparação com há vinte anos. Embora pareça uma alteração simples, a redução do açúcar impacta não só o sabor, mas também a textura, a consistência e a percepção sensorial dos alimentos, exigindo anos de pesquisa e reformulação para manter a aceitação do público.

Mais recentemente, o Danone Zero destacou-se como um dos produtos mais vendidos no último ano, apresentando cinco características simultâneas: ausência de adição de açúcar, colesterol, gordura saturada, gordura trans e lactose. Seu sucesso levou a expansão do formato de venda, saindo das garrafas tamanho família para as bandejas.

Gustavo Alvarez, diretor de pesquisa e inovação da Danone no Brasil e no Cone Sul, explica que processos como a substituição ou remoção de um ingrediente são complexos, comparáveis a mover uma peça de dominó, pois uma única mudança pode afetar textura, aroma, consistência e sabor. Ele ressalta que o desafio reside em integrar avanços nutricionais sem prejudicar a experiência alimentar esperada pelo consumidor.

A ciência por trás das categorias

Enquanto muitas empresas apenas seguem tendências, a Danone tem participado ativamente da formação de categorias que fazem parte do dia a dia brasileiro. O Danoninho auxiliou na consolidação da categoria de petit suisse infantil, enquanto o Activia promoveu a conscientização sobre a saúde digestiva entre os consumidores. Além disso, o YoPRO contribuiu para popularizar o consumo de proteínas em formato de shakes.

A atuação da companhia transcende o lançamento de produtos; ela moldou discussões sobre nutrição, saúde e alimentação. Sua expansão para áreas de alta complexidade científica ocorreu após a aquisição da Nutricia, uma empresa holandesa, adicionando mais de 130 anos de soluções de nutrição especializada para indivíduos com necessidades específicas e pacientes em diferentes estágios de vida.

Produtos como Aptanutri, Fortini e Nutridrink demandam extensos processos de pesquisa e aprovação regulatória antes de serem disponibilizados a pacientes, cuidadores e profissionais de saúde. Arthur Lorenzetti, VP de nutrição especializada da Danone no Brasil, salienta que, embora seja comum pensar apenas no conteúdo do prato, existe uma necessidade nutricional muito específica para cada fase da vida, e o desafio da nutrição especializada é traduzir essas diferenças em soluções de apoio para pessoas em momentos variados, desde crianças até pacientes em recuperação.

Uma rede global de pesquisadores

Para compreender a dimensão científica da Danone, é preciso observar seus bastidores. A empresa opera dois grandes centros de pesquisa globais, situados em Paris-Saclay, na França, e no Utrecht Science Park, na Holanda. Estes centros estão interligados a seis polos especializados mundialmente, focados em temas como nutrição de precisão, tecnologia de laticínios, alimentos vegetais e embalagens.

Essa estrutura reflete a gênese da empresa: Isaac Carasso fundou a Danone inspirado nos avanços científicos que começavam a evidenciar a importância dos microrganismos para a saúde humana. Uma referência fundamental nesse período foi o trabalho de Élie Metchnikoff, laureado com o Prêmio Nobel de Medicina em 1908 e pioneiro em estudos sobre imunidade e fermentação. A premissa inicial era revolucionária: aplicar o saber científico ao desenvolvimento de alimentos, um princípio que persiste hoje, mas com ferramentas mais sofisticadas, incluindo inteligência artificial e estômagos artificiais.

Do fermento ao uso de dados

Se o foco inicial era a fermentação, o desenvolvimento atual de produtos abrange microbiologia, biotecnologia, modelagem digital, inteligência de dados e estudos clínicos. A companhia mantém uma das maiores coleções de fermentos do planeta, usada para preservar e estudar cepas distintas que podem gerar novos alimentos e soluções nutricionais.

O tempo necessário para o desenvolvimento varia conforme a complexidade do projeto. Enquanto reformulações e melhorias em itens existentes podem levar alguns meses, soluções mais avançadas, especialmente na nutrição especializada, podem requerer anos de testes, pesquisa e aprovações regulatórias. Este é um esforço multidisciplinar que une especialistas em nutrição, qualidade, engenharia, microbiologia, assuntos regulatórios e cadeia de suprimentos.

Alimentação e saúde do futuro

A ciência também direciona a evolução nutricional do portfólio da Danone. Nos últimos anos, a empresa tem investido em iniciativas para diminuir o teor de açúcar em várias linhas, otimizar perfis nutricionais e criar opções que se alinhem às expectativas e aos novos hábitos dos consumidores.

Além dos produtos, a companhia assumiu compromissos ambientais e sociais. Em 2021, tornou-se a primeira grande fabricante de alimentos no Brasil a obter a certificação Empresa B, reconhecendo seu engajamento com impacto social e ambiental positivo. A Danone também avança em metas de redução de emissões de gases poluentes, promoção da agricultura regenerativa, fortalecimento da cadeia leiteira e diversificação em cargos de liderança.

Se há mais de um século a inovação residia em vender iogurtes em farmácias, hoje ela engloba nutrição especializada, pesquisas clínicas, estudos de microbiota, fermentação, leite materno e inteligência de dados. As ferramentas mudaram, mas a questão central da companhia permanece inalterada desde 1919: como utilizar a ciência para aprimorar a saúde por meio da alimentação? É essa busca que a Danone persegue há 55 anos no Brasil e mais de um século no cenário mundial.

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