Uma reportagem do Fantástico expôs a existência de um mercado ilícito dedicado à venda de logins e senhas furtados, possibilitando o acesso a sistemas tanto governamentais quanto particulares. Os serviços oferecidos neste mercado incluem a manipulação de processos judiciais, a anulação de multas e até mesmo a alteração de mandados de prisão.
Ao longo de um mês, a matéria acompanhou fóruns e grupos utilizados por criminosos para negociar credenciais de servidores e autoridades. Uma parte desses acessos foi validada pelo Ministério Público e confirmou sua funcionalidade.
As ofertas abrangem credenciais e os chamados «painéis», que consolidam dados obtidos ilegalmente. As consultas disponíveis envolvem áreas como Imposto de Renda, registros de saúde, compras online, informações de funcionários e dados de vacinação.
O custo varia conforme o sistema alvo e a finalidade do comprador. A reportagem registrou anúncios que chegaram ao Ministério Público do Rio Grande do Sul, que já conduzia investigações sobre essas atividades. Com permissão e segurança, os investigadores testaram algumas das credenciais e confirmaram: «Percebemos que é funcional. O que eles prometem, eles conseguem fazer», declarou Fábio Costa Pereira, procurador de Justiça do Rio Grande do Sul.
Em Goiás, as apurações revelaram aproximadamente 140 modificações no Banco Nacional de Mandados de Prisão. A inserção de dados incorretos em ordens judiciais pode resultar na prisão indevida de indivíduos inocentes. O Tribunal de Justiça de Goiás identificou um total de 350 acessos fraudulentos, e houve um caso em que uma ordem de bloqueio falsa foi emitida no estado.
Credenciais obtidas de servidores ou de magistrados foram empregadas para fraudar, inserir, modificar ou excluir ordens de prisão nos bancos nacionais. Sabrina Leles, delegada da Polícia Civil de Goiás, prestou depoimento ao Fantástico.
Um casal suspeito de participação nessas invasões foi detido, mas ambos permanecem em liberdade enquanto respondem ao processo. A rede denominada The Com agrupa comunidades criminosas dispersas globalmente. De acordo com o FBI, muitos membros dessa rede são jovens. Nesses círculos, dados pessoais e credenciais roubados são usados não só para invasões, mas também para golpes, chantagens e sextorsão.
Foi esse tipo de prática que atraiu a atenção da Polícia Civil do Pará. Em Belém, investigadores localizaram grupos envolvidos na comercialização de logins e senhas e em outras ações criminosas. Para monitorar a circulação dessas informações, a polícia colabora com pesquisadores da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), que fiscalizam bases de dados expostas na internet.
O volume de dados descobertos ilustra a magnitude do problema: somente em 2026, o projeto identificou 18 bilhões de dados expostos, incluindo informações passíveis de cair em mãos de criminosos e fomentar novas invasões.
Em uma madrugada de 20 de junho, um alerta emitido pela Defesa Civil atingiu quase todo o Brasil com a palavra «misantropia», termo que significa ódio à humanidade. Essa mensagem foi enviada por um invasor utilizando logins e senhas pertencentes a dois bombeiros do Pará. A mesma palavra foi encontrada nas conversas monitoradas pelo Fantástico. Para os investigadores, essa escolha poderia instigar a curiosidade de adolescentes, levando-os a buscar comunidades associadas a esses grupos. Este incidente evidencia o perigo de credenciais legítimas serem apropriadas indevidamente. É fundamental redobrar a atenção com senhas, logins e links, sendo que ferramentas como autenticação multifator e controle de acessos auxiliam a prevenir tais invasões.
