Um estudo realizado em um superlaboratório brasileiro focou nas proteínas envolvidas em doenças priônicas, após o diagnóstico de Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) de Lito Sousa chamar a atenção para a pesquisa nacional. Cientistas utilizaram o equipamento Sirius, localizado em Campinas (SP), para monitorar as alterações comportamentais dessas moléculas.
Este trabalho, publicado na Science Advances em 2023, investigou uma fase inicial do processo patológico. É importante ressaltar que a pesquisa não possui ligação direta com o caso de Lito, nem visa desenvolver tratamentos, mas sim compreender o que ocorre antes do surgimento de danos cerebrais.
A proteína príon, denominada PrPC, é uma molécula naturalmente presente nos neurônios. Em casos de doenças priônicas, essa proteína pode sofrer modificações estruturais, induzindo outras proteínas similares a seguirem o mesmo caminho, o que resulta em acúmulos prejudiciais ao sistema nervoso, afetando primariamente o cérebro.
Uma pista crucial para os pesquisadores reside nos chamados condensados, que são áreas onde as proteínas se concentram. Inicialmente, esses condensados apresentam características de uma gotícula líquida e mantêm mobilidade. Contudo, sob certas circunstâncias, esse estado pode ser alterado.
Os cientistas observaram esses condensados na presença de cobre, um elemento também encontrado nos neurônios, e nessas condições as gotículas permaneceram fluidas. Aline Ribeiro Passos, pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), explicou ao g1 que, enquanto as gotas estão líquidas, não se observa uma estrutura patológica; porém, elas podem transitar por um estágio intermediário gelatinoso até atingir um estado sólido.
Posteriormente, o experimento foi modificado com a adição de peróxido de hidrogênio, simulando um cenário de estresse oxidativo, momento em que o comportamento das estruturas sofreu mudanças significativas.
Parte dos testes foi conduzida na Cateretê, uma das instalações de pesquisa do Sirius. Para gerar a luz síncrotron necessária às análises, elétrons são acelerados a velocidades próximas à da luz em um túnel de 500 metros. Na Cateretê, os pesquisadores empregaram a técnica de raios X XPCS, que possibilitou analisar aspectos além do tamanho e formato das gotículas, revelando também o movimento das proteínas internas.
A pesquisadora Aline detalhou que, visto que as proteínas são estruturas minúsculas e possuem organização complexa, os condensados formados são gotas micrométricas. O objetivo era determinar o estado físico da proteína dentro dessa gota, exigindo alta resolução espacial e temporal, fornecida por equipamentos como o Sirius.
Embora a DCJ pertença ao grupo das doenças priônicas, os achados laboratoriais não podem ser aplicados diretamente a um paciente. O estudo não comprovou que cobre ou peróxido de hidrogênio sejam causadores da doença, tampouco resultou no desenvolvimento de um medicamento.
Enquanto a pesquisa fundamental prossegue, a família de Lito busca opções experimentais nos Estados Unidos. O Ministério da Saúde tentou auxiliar o influenciador na participação em estudos, mas uma das pesquisas procuradas parou de recrutar voluntários. Outra possibilidade mencionada é o estudo PRiSM, associado a pesquisadores de Harvard e MIT.
No Brasil, o trabalho continua. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) têm novos experimentos agendados para o final de setembro no Sirius, utilizando a técnica SAXS na linha de luz Sapucaia. A esperança dos cientistas reside em investigar uma fase anterior ao tratamento: descobrir precisamente como essas proteínas se transformam, pois sem essa resposta, muitos aspectos das doenças priônicas e outras neurodegenerativas permanecem desconhecidos.
