A literacia financeira determina se as mulheres conseguirão se sustentar sozinhas ou se terão que retornar à dependência econômica. A liberdade financeira tem significados diferentes para pessoas distintas: para alguns, é quitar uma hipoteca; para outros, é uma aposentadoria confortável ou acumular capital. No entanto, para mulheres em relacionamentos com abusadores financeiros, isso pode significar apenas ter fundos suficientes para sair desses relacionamentos.
De acordo com uma pesquisa nacional realizada pelo Conselho Científico de Ciências Naturais em novembro de 2025, uma em cada oito mulheres sul-africanas com mais de 18 anos enfrentou violência financeira, e mais da metade relatou comportamento controlador no relacionamento.
Simon Dippenaar, fundador do escritório de advocacia Simon Dippenaar & Associates, observa que as mulheres frequentemente sofrem violência ou até morte ao tentar romper o relacionamento com o agressor. Por isso, ele enfatiza que um planejamento cuidadoso é crucial, e o plano de saída deve incluir aspectos financeiros.
Kenshani Nobanda, gerente de marketing e assuntos corporativos na Nedbank, afirma que a violência financeira priva a pessoa de autonomia. Ela explica que uma mulher cujo rendimento é controlado por um parceiro abusador não é financeiramente livre. Da mesma forma, uma pessoa proibida de trabalhar, ou aquela forçada a contrair dívidas, que não tem acesso à sua própria conta bancária ou está sob controle financeiro diário, também não pode ser considerada financeiramente livre.
Liberdade como autonomia
Nobanda acrescenta que a independência financeira vai muito além de possuir produtos financeiros. Segundo ela, a liberdade financeira é a capacidade de tomar decisões sobre suas finanças de forma autônoma, e não sob a influência de outra pessoa. Ela especifica que isso significa poder ganhar, poupar, investir, gastar e acumular riqueza sem medo, coerção ou dependência, sabendo que o futuro é determinado pela própria escolha, e não pelo controle de outra pessoa.
Hayley Parry, chefe de educação na Worth, acredita que a autonomia financeira se apoia em dois pilares: um fundo de reserva tradicional e um 'Fundo da Liberdade' pessoal separado. Ela aconselha ter no fundo de reserva um valor que cubra os custos de vida por três a seis meses. Quanto ao 'Fundo da Liberdade', Parry explica que é essencialmente um fundo de reserva do qual apenas você conhece a existência. A ideia é que esse dinheiro seja guardado na esperança de nunca ser necessário, mas serve como um colchão de segurança financeira caso seja preciso deixar um relacionamento tóxico ou até mesmo o local de trabalho.
Parry insiste que este Fundo da Liberdade deve permanecer confidencial e servir exclusivamente como um caminho de salvação financeira, se as circunstâncias exigirem. Ela também menciona que as mulheres podem criar redes de apoio semelhantes coletivamente, discutindo como isso pode ser organizado dentro de uma comunidade feminina, semelhante ao sistema de stokvel.
Parry compara este fundo a um paraquedas financeiro ou rede de segurança, que dá tempo e espaço para sair e desenvolver novos planos.
Autonomia
Parry defende que as mulheres devem ter autonomia financeira e poder gerenciar todas as facetas de sua vida financeira, incluindo ganhos, economias e planejamento de aposentadoria, independentemente do estado de seus relacionamentos. Ela enfatiza a importância crítica de formar e manter uma identidade financeira pessoal. Nesses casos, na opinião de Parry, as mulheres precisam conhecer seu histórico de crédito e garantir seu crescimento, abrindo produtos financeiros ou linhas de crédito em seu nome, usando até mesmo seus 'benefícios', se necessário.
Parry alerta que a ausência de produtos ou contas bancárias em seu próprio nome cria uma situação extremamente problemática, pela qual a pessoa pode ser excluída de muitos serviços financeiros, quer intencionalmente ou sob pressão. As consequências disso podem ser muito sérias. Simon Dippenaar observa que, se uma mulher tiver sua própria renda, ela está em uma posição relativamente forte, mas ela pode ter sido limitada no trabalho ou receber um salário mínimo.
Parry aconselha a garantir antecipadamente uma linha de crédito e construir um histórico de crédito antes que seja necessário. Ela aponta que, se uma pessoa sair do emprego sem receber salário por dois meses, a tentativa de abrir um cartão de crédito provavelmente não terá sucesso.
Situação real
Simon Dippenaar recomenda que mulheres que estão passando por violência financeira abram uma nova conta bancária em outro banco, diferente daquele usado pelo parceiro, preferencialmente visitando uma agência para conversar com um consultor e excluir a possibilidade de correspondências serem enviadas para casa. Ele observa que funcionários de bancos já encontraram situações semelhantes e sabem como ajudar.
David Kruu-Brown, diretor de riscos na Nedbank, afirma que a violência financeira frequentemente deixa um rastro financeiro que pode ser facilmente confundido com maus hábitos financeiros. Ele diz que uma pessoa submetida a controle coercitivo pode pular pagamentos repentinamente, acumular dívidas que não escolheu, ou sua renda pode se tornar instável porque lhe foi proibido trabalhar.
Kruu-Brown acrescenta que, de acordo com o modelo tradicional de avaliação de riscos, tal comportamento pode parecer apenas sinais de risco de crédito elevado, quando na verdade pode indicar violência financeira. Ele conclui que alguns clientes tomam decisões limitadas, e que os registros financeiros por si só nem sempre revelam o quadro completo. Os dados financeiros mostram o que aconteceu, mas nem sempre explicam o porquê.
Parry aconselha as mulheres a abordarem suas finanças estrategicamente com antecedência, caso precisem de fundos para sair de relacionamentos tóxicos. Dippenaar conclui dizendo que, se uma mulher não tiver recursos próprios, a eficácia do seu planejamento financeiro será o fator decisivo entre sobreviver sozinha e retornar à insegurança econômica.
