A Casa de Praia Otway, desenvolvida pela equipe de projeto Kerstin Thompson Architects, foi concebida em um local limítrofe a um parque nacional e em um terreno classificado como zona de chamas. Este cenário desafiador permitiu que a edificação transformasse a regulamentação de resistência ao fogo em uma chance para inovação arquitetônica.
A residência apresenta-se como uma estrutura monolítica firmemente assentada no solo, posicionada em uma clareira, oferecendo aos ocupantes a visão simultânea tanto do oceano quanto da floresta. Um layout retangular simples divide o espaço interno, direcionando a área privada para o interior e a área social em direção ao mar.
Em análise de corte transversal, o volume revela-se como uma extrusão composta por uma série de vigas profundas e painéis de parede de concreto isolado. Contudo, é o corte longitudinal que detalha a ligação da moradia com o terreno, situada próxima à Great Ocean Road, em terras pertencentes aos povos Eastern Maar e Wadawurrung.
A seção norte da casa está integrada ao terreno inclinado, onde os dormitórios se abrem para a floresta através de um jardim localizado na encosta, promovendo uma atmosfera de tranquilidade e proximidade com a natureza. Em contraste, a extremidade sul se abre para um terraço nivelado com o chão e voltado para o mar, permitindo que a área de convívio utilize toda a largura da casa para emoldurar a vastidão e a linha do horizonte.
O platibanda de concreto se estende para formar a cobertura, adicionando mais um ponto de observação ao longo da Great Ocean Road. A partir deste ponto, o panorama se torna uma vivência sensorial que conecta o indivíduo à terra, à água e ao céu.
Inicialmente, as autoridades locais consideraram inviável a construção durante um extenso processo de aprovação. No entanto, o invólucro resistente aos incêndios florestais, construído com concreto e esquadrias corta-fogo, possibilitou a obtenção da certificação final e a concretização da obra. Apesar de esta arquitetura marcante compartilhar características materiais e estruturais com a infraestrutura pública — com o interior lembrando um passadiço subterrâneo e o terraço superior ligando o mar à mata —, o uso de revestimento em madeira de eucalipto (blackbutt) nas paredes secundárias e na maior parte da marcenaria confere um caráter doméstico ao ambiente.
