A AMI decidiu prolongar sua missão de suporte psicológico aos afetados na Venezuela por mais dois meses, estendendo a atuação até 31 de outubro. Essa decisão foi tomada internamente, considerando tanto o volume de atendimentos quanto a necessidade de garantir a sustentabilidade e responsabilidade do serviço prestado.
Daniel Viegas Rocha, coordenador da missão da AMI, informou à Lusa que, mesmo após mais de dois meses do duplo sismo, e com o evento afastando-se da atenção midiática, o sofrimento persiste no cotidiano das pessoas, muitas das quais se sentem abandonadas.
Ele explicou que a AMI enviou uma equipe imediatamente após o sismo para iniciar uma fase exploratória e prestar assistência psicológica às vítimas do terremoto. Inicialmente, a missão, totalmente financiada pelo orçamento da organização, tinha previsão de término para o final de agosto.
Rocha detalhou que a equipe está próxima de realizar 1.500 intervenções de saúde psicológica, incluindo atendimento comunitário. O trabalho foca no trauma como um problema coletivo, visto que as comunidades vivenciaram o mesmo evento traumático.
O coordenador ressaltou que a continuidade no terreno se deve ao fato de o suporte em saúde psicológica ser diferente da distribuição de kits de bens materiais, o que impede definir uma data de saída imediata. Ele mencionou que, enquanto seria possível finalizar o trabalho em um prazo determinado com a entrega de um kit de diálogo, o acompanhamento contínuo realizado pelos psicólogos nas comunidades de La Guaira estabeleceu um laço de confiança com a população.
Além disso, a permanência é vista como uma questão de 'sustentabilidade e responsabilidade', garantindo que as comunidades estejam preparadas e capacitadas para o momento da saída da organização, seguindo uma metodologia e estratégia definidas.
A AMI também está promovendo oficinas para capacitar a própria comunidade e identificar membros que não foram tão atingidos, permitindo que estes ajudem aqueles que mais necessitam localmente.
Ao ser questionado sobre se a origem portuguesa facilitou o trabalho da missão local, Daniel Viegas Rocha confirmou que sim. Ele enfatizou que a divulgação do trabalho de uma organização portuguesa, com equipe portuguesa, mas que colabora com psicólogos venezuelanos falantes de português, tem sido de grande auxílio.
Como exemplo, ele citou um lusodescendente que procurou a AMI em Naiguatá (La Guaira) no sábado anterior, pois recebeu informações de familiares em Portugal sobre o apoio da organização à população local. Rocha esclareceu que o atendimento não discrimina entre portugueses e venezuelanos, mas reconhece a presença de muitos portugueses entre os beneficiários, e o fato de ser uma organização portuguesa gera muita confiança.
O duplo sismo ocorrido em 24 de junho provocou sérios danos em infraestruturas, resultando em feridos e mortes em sete estados da Venezuela: Caracas, Miranda, Arágua, Carabobo, Lara, Yaracuy e La Guaira, sendo este último o mais impactado. De acordo com o último balanço oficial, 6.509 pessoas faleceram e 226.696 foram atendidas em hospitais venezuelanos. Entre os mortos, há pelo menos 138 portugueses e lusodescendentes.
Adicionalmente, cerca de 190 edificações desabaram, e as autoridades inspecionaram 60.785 residências, das quais 11.001 foram classificadas como de 'alto risco'. Estima-se que aproximadamente 25.240 casas estejam inabitáveis, e já foram removidas 600.790 toneladas de entulho.

