Cientistas reconstroem os sons de insetos das florestas do Jurássico usando fósseis e simulações
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Cientistas reconstroem os sons de insetos das florestas do Jurássico usando fósseis e simulações

A combinação de tecnologia avançada e evidências fósseis permite aos cientistas reconstruir com grande exatidão como e onde viviam seres de milhões de anos atrás, embora a trilha sonora desse período permaneça um mistério.

Diferentemente do que é retratado no cinema, a ciência não consegue determinar com precisão os ruídos emitidos por animais como os dinossauros. Por exemplo, o famoso rugido do Tiranossauro rex em Jurassic Park (Steven Spielberg, 1993) foi criado sem base científica, apenas a partir da desaceleração de um latido de cachorro.

Trinta anos depois, o cineasta americano buscou maior aproximação com a ciência. Na minissérie da Netflix intitulada “Os Dinossauros”, produzida por Spielberg, o objetivo foi ir além e tentar recriar os sons das florestas da era jurássica, que ocorreu entre 145 e 201 milhões de anos atrás.

Como o som não se fossiliza, a estratégia adotada foi analisar asas fossilizadas e empregá-las em experimentos com insetos vivos, complementados por simulações computacionais, para imitar os sons dos insetos jurássicos. Utilizando tecnologia a laser, os pesquisadores conseguiram mensurar a vibração, a mecânica e a ressonância dessas asas.

Com isso, chegou-se à conclusão de que o ambiente acústico daquela época era «extremamente movimentado» e atingia frequências tão baixas que seriam imperceptíveis ao ouvido humano. Muitos desses sons possuíam uma faixa de frequência restrita, o que os especialistas denominam de tom puro; para o ouvido humano, seriam comparáveis a apitos agudos e nítidos, distantes dos zumbidos de insetos atuais.

Essa característica sonora poderia ter auxiliado a espécie na comunicação em ambientes ruidosos, ao mesmo tempo que dificultava que predadores localizassem sua posição exata. Os achados desses estudos foram divulgados na série, no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences e em um vídeo específico.

No estudo, os pesquisadores examinaram 20 fósseis pertencentes a nove espécies ancestrais de grilos e tetigoniídeos (conhecidos como «esperanças»), que habitavam o mesmo local onde hoje se encontra a Mongólia Interior, na China. Isso possibilitou a reconstrução de um grupo de animais que partilhava o mesmo ecossistema jurássico.

Inicialmente, a equipe testou seus modelos em grilos, esperanças e parentes próximos contemporâneos, medindo a vibração de suas asas com lasers. Posteriormente, esses modelos foram aplicados às asas fossilizadas, e os resultados foram cruzados com as frequências sonoras previstas para os insetos vivos. As simulações computacionais auxiliaram a estimar a velocidade de voo dos insetos extintos.

Uma dessas reconstruções pode ter levado a uma descoberta evolutiva: morcegos talvez não sejam os primeiros animais a utilizar a comunicação por ultrassom. Nesses encontros, os animais usam ondas sonoras de alta frequência, acima do limite de audição humana (20.000 Hz), para trocar informações. Foi justamente essa comunicação por ultrassom que foi identificada em um dos exemplos das florestas jurássicas.

Os pesquisadores indicam um parente das esperanças, o Sigmaboilus peregrinu, como o animal mais antigo a se comunicar por ultrassom. De acordo com seus cálculos, esta espécie emitia sons entre 20.000 e 22.000 hertz.

Contudo, os pesquisadores reconhecem limitações na reconstrução. Embora o fóssil revele o tom e o som básico produzido pelo inseto, ele não permite deduzir a cadência ou o ritmo do som, elementos cruciais na comunicação desses animais, pois este ritmo depende do sistema nervoso e do movimento das asas, que não estão preservados nos fósseis.

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