Visita de Marie Curie ao Brasil em 1926: história, legado e impacto científico
Leia mais
Super Abril
super.abril.com.br

Visita de Marie Curie ao Brasil em 1926: história, legado e impacto científico

A renomada cientista franco-polonesa Marie Curie, nascida em 1867 e falecida em 1934, esteve no Brasil em 1926. Ela foi convidada pelo Instituto Franco-Brasileiro de Alta Cultura para apresentar uma série de palestras sobre suas descobertas relacionadas à radioatividade.

Internacionalmente reconhecida e detentora de dois Prêmios Nobel, Curie permaneceu no território nacional por mais de quarenta dias. Ela foi acompanhada por sua filha, Irène Curie, que também era pesquisadora.

A chegada de Marie Curie ocorreu no porto do Rio de Janeiro em 15 de julho de 1926, gerando grande expectativa e ampla cobertura midiática. A recepção contou com a participação de figuras proeminentes da ciência e da sociedade brasileira, incluindo membros da Academia Brasileira de Ciências e da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, organização liderada pela bióloga e feminista Bertha Lutz.

A presença de Curie estimulou não só a comunidade científica, mas também movimentou uma intensa agenda científica, cultural e social durante sua estadia. Ela foi recebida por diversas autoridades e visitou várias instituições dedicadas à pesquisa, ensino e cultura.

No Rio de Janeiro, ela visitou o Museu Nacional e o Jardim Botânico, entre outros locais científicos. No Museu Nacional, ela teve encontros com cientistas brasileiras como Bertha Lutz e Heloísa Alberto Torres, um evento que simbolizou o crescimento da participação feminina na ciência brasileira.

O foco principal da agenda científica foi a Escola Politécnica do Rio de Janeiro, onde Marie Curie ministrou onze aulas sobre radioatividade. Sua filha, Irène, participava ativamente das atividades práticas. Essas aulas também foram transmitidas pela Rádio Sociedade Brasileira, permitindo que o conhecimento alcançasse um público maior além dos presentes nas conferências.

Além do Rio, Marie Curie deu palestras na Academia Nacional de Medicina e na Academia Brasileira de Ciências, ambas no Rio de Janeiro. Ela também se deslocou para as faculdades de Medicina em São Paulo e Belo Horizonte. A cientista inspecionou centros de pesquisa como o Instituto Butantan, em São Paulo, e o Instituto do Rádio, em Belo Horizonte.

A imprensa cobriu minuciosamente quase todos os eventos da viagem. Jornais de várias regiões publicaram reportagens, entrevistas e relatos sobre suas atividades. Os periódicos não se restringiram à figura da celebridade, mas também divulgaram o conteúdo das conferências, auxiliando a população brasileira a se familiarizar com os avanços do conhecimento sobre radioatividade.

A viagem também incluiu momentos de lazer e passeios por diferentes locais. Marie Curie visitou pontos turísticos do Rio de Janeiro, como o Pão de Açúcar. Ela também percorreu São Paulo e Minas Gerais, onde foi acolhida por pesquisadores e autoridades. Em Águas de Lindóia, ela visitou fontes termais, demonstrando interesse pela radioatividade natural dessas águas.

Marie Curie deixou o Brasil em 28 de agosto de 1926. Na despedida, ela expressou publicamente sua gratidão pela hospitalidade oferecida por autoridades, cientistas, jornalistas e o público. Ela também agradeceu a atenção da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, que apoiou sua estadia e tornou a viagem mais agradável.

O Brasil foi uma das poucas experiências internacionais de Marie Curie fora da Europa e representou uma chance de conexão com a comunidade científica brasileira. Sua visita ajudou a reforçar trocas científicas, disseminar saberes sobre radioatividade e impulsionar o desenvolvimento de pesquisas e suas aplicações médicas no país.

Um legado tangível de sua passagem foi a doação de fontes de rádio ao Instituto do Rádio, em Belo Horizonte, destinadas à então nascente área de radioterapia.

Cem anos após a visita, o interesse na trajetória da cientista permanece vivo. Um grupo de pesquisa liderado por Meninas e Mulheres nas Ciências da Universidade Federal do Paraná (UFPR) investiga a passagem de Marie Curie pelo Brasil sob múltiplas óticas, produzindo estudos em história da Ciência, educação científica, ensino de química e física, e divulgação científica.

Este trabalho engloba ações nas cidades que ela visitou, em colaboração com centros de ensino, pesquisa, museus e ciência. O objetivo é resgatar a memória dessa jornada e ilustrar sua ligação com a história científica brasileira e com a participação feminina na produção de conhecimento.

Entre as ações está o projeto Marie Curie Esteve Aqui. Em maio de 2024, foi inaugurada uma estátua da cientista no Balneário Municipal de Águas de Lindóia, acompanhada de uma exposição sobre sua passagem pela cidade. Além disso, está sendo desenvolvido um mapa que mapeará os locais visitados por Marie Curie, mostrando como eram esses espaços há cem anos e o que ela realizou em cada um deles.

Para celebrar o centenário da visita em julho de 2026, o projeto organizou uma recriação de uma foto histórica tirada no Pão de Açúcar. Cinquenta cientistas contemporâneos participaram desta iniciativa, reproduzindo o registro no mesmo local e data da passagem de Marie Curie pelo Rio de Janeiro. A fotografia original de 1926 retrata Marie e Irène Curie ao lado de importantes personalidades, em sua maioria brasileiras. Um século depois, a nova imagem atualiza esse registro, criando uma conexão entre duas gerações de pesquisadoras.

Mais do que relembrar a passagem de uma cientista notável, projetos como este possibilitam revisitar um marco crucial na história da ciência brasileira. A viagem de Marie Curie demonstra como a circulação internacional de pesquisadores, a divulgação científica e a cooperação institucional já desempenhavam um papel relevante na formação da ciência no Brasil. Ademais, a presença de uma mulher mundialmente reconhecida ajudou a aumentar a visibilidade das mulheres na ciência.

Popular