A água-viva Turritopsis dohrnii possui uma capacidade extremamente rara entre os animais: após atingir a fase adulta, ela pode retornar a um estágio anterior de seu desenvolvimento. Em vez de seguir diretamente para o fim do ciclo de vida, a água-viva pode se transformar de volta em um pólipo — uma forma mais jovem, fixada à superfície.
Este processo é chamado de transdiferenciação, que ocorre quando uma célula já especializada muda sua função e começa a desempenhar outro papel. Na verdade, o organismo desmantela parte de sua estrutura adulta e reorganiza os tecidos para retornar a um estágio de desenvolvimento mais precoce. É por isso que esta espécie recebeu o apelido de 'água-viva imortal'.
O ciclo de vida da Turritopsis dohrnii geralmente começa com um pólipo. Dele surgem pequenas águas-vivas que crescem até atingir a fase adulta. Uma característica distintiva desta espécie é a capacidade de percorrer o caminho inverso.
Quando a água-viva adulta sofre danos, envelhece ou é exposta a condições adversas, ela pode iniciar o processo de reversão. O corpo perde os sinais da fase adulta e passa por um estágio intermediário chamado cisto. Em seguida, o tecido se reorganiza até que um pólipo seja formado novamente.
Um estudo publicado em 2019 na revista G3: Genes, Genomes, Genetics, assinado por Yui Matsumoto, Stefano Piraino e Maria Pia Milletta, investigou detalhadamente esse processo. Os pesquisadores descobriram mudanças na atividade gênica durante a transformação e encontraram sinais relacionados à reparação de DNA, manutenção dos telômeros — estruturas que protegem as extremidades dos cromossomos — e alteração da função celular.
Esta capacidade não é apenas uma hipótese. Experimentos demonstram que a espécie é capaz de realizar essa reversão e começar a produzir uma nova geração de águas-vivas. É este potencial de retorno a um estágio de desenvolvimento anterior que sustenta o conceito de imortalidade biológica associado a esta espécie.
No entanto, este apelido pode ser enganoso. A Turritopsis dohrnii não é invulnerável nem está protegida contra todos os riscos ambientais. A chamada imortalidade biológica significa apenas que o organismo pode evitar a morte causada pelo envelhecimento, revertendo seu desenvolvimento.
Compreensão mais detalhada do processo
É importante entender que o mecanismo que permite ao organismo rejuvenescer não elimina todas as outras ameaças à sobrevivência. Portanto, é mais preciso dizer que a espécie possui uma capacidade excepcional de prevenir o envelhecimento, em vez de dizer que nunca morrerá.
Pesquisas recentes visam descobrir o que permite a esta espécie fazer algo que as células humanas não conseguem naturalmente. Em 2021, Yui Matsumoto e Maria Pia Milletta, da Texas A&M University, publicaram no periódico Genome Biology and Evolution um estudo sobre as mudanças na atividade gênica durante o ciclo de vida reverso.
Os resultados reforçaram o interesse nos processos relacionados à reparação de DNA, capacidade de renovação celular e reprogramação celular. O objetivo não é encontrar uma fórmula para a imortalidade humana, mas sim entender melhor como diferentes organismos lidam com danos celulares e envelhecimento.
Em 2022, outro estudo, publicado nos Proceedings of the National Academy of Sciences, comparou o genoma da Turritopsis dohrnii com o genoma de uma espécie próxima que não possui essa mesma capacidade de rejuvenescimento. Os pesquisadores identificaram diferenças nos genes relacionados à reparação de DNA, manutenção dos telômeros, células capazes de gerar diferentes tipos de tecidos e comunicação intercelular.
Esses resultados ajudam os cientistas a investigar por que algumas células podem restaurar características de estágios de vida mais precoces e como mecanismos semelhantes podem estar relacionados ao envelhecimento. Isso ainda está no campo da pesquisa fundamental e não implica que haja aplicação médica para o rejuvenescimento humano.
O mais notável na Turritopsis dohrnii é que seu ciclo de vida não precisa seguir uma única direção. Enquanto o envelhecimento é geralmente visto como um caminho irreversível, esta pequena água-viva possui uma estratégia biológica que lhe permite retornar a um estágio anterior. É essa capacidade que a torna um dos exemplos mais intrigantes da natureza para aqueles que tentam entender por que os organismos envelhecem.
