A nova produção da DC Studios adota uma estrutura de investigação criminal para introduzir os personagens Hal Jordan e John Stewart. Contudo, o segundo episódio já sinaliza que o contexto cósmico desses personagens não permanecerá em segundo plano.
A série inicia-se com os 'policiais espaciais' do Universo DC investigando um homicídio em uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos. A trama acompanha Hal Jordan, um veterano da Tropa dos Lanternas Verdes, e John Stewart, um recruta sob seu treinamento. Em vez de começar com uma grande ameaça galáctica, a narrativa os coloca diante de um caso misterioso em Rushville, Nebraska.
A escolha desse foco inicial chamou a atenção do autor, que, apesar de estar cansado de séries de super-heróis, mantém grande interesse por narrativas de investigação policial, especialmente aquelas com a atmosfera das produções da HBO. Exemplos citados incluem True Detective, Mare of Easttown e Task, séries que utilizam o crime como ponto de partida para explorar personagens, relacionamentos e segredos mais profundos. Lanternas segue essa mesma linha, embora seus detetives pertençam a uma força policial que patrulha o Universo.
Tom King, um dos criadores, informou ao The Wrap que concebeu o projeto como uma fusão entre o filme Dia de Treinamento (2001, com Denzel Washington e Ethan Hawke) e True Detective, aplicado aos Lanternas Verdes. A premissa era clara: criar uma 'série policial espacial'. Damon Lindelof, outro criador, mencionou ao Screen Brief que a ideia de uma história no estilo True Detective ambientada na Terra lhe sugeriu imediatamente a possibilidade de aplicá-la aos 'policiais espaciais'.
A dinâmica funciona porque os Lanternas Verdes já atuam como uma força policial interestelar, monitorando diversos setores do Universo e utilizando anéis que convertem força de vontade em estruturas físicas. Hal possui vasta experiência nesse trabalho, enquanto John, ainda aprendiz, está sendo preparado para assumir seu papel.
Entretanto, a relação entre os dois não é de um mentor paciente ensinando um novato. Hal retém informações e fornece orientações incomuns, parecendo ter motivos próprios para manter John distante. Por sua vez, John deve aprender a função enquanto tenta compreender o homem que deveria guiá-lo. Paralelamente, ambos precisam investigar um assassinato que se revela progressivamente mais complexo.
A série também explora a cronologia de maneira não linear; os episódios não seguem uma sequência estrita, alternando entre os anos de 2016 e 2026. Essa alternância permite que a série revele fatos de ambos os períodos, exigindo que o espectador estabeleça as conexões. O segundo capítulo, por exemplo, retorna a 2016, elevando a importância de eventos que pareceram secundários no início do primeiro episódio.
Inicialmente, grande parte da experiência reside no que ocorre fora do âmbito dos anéis. Hal e John conduzem interrogatórios, seguem pistas, visitam locais e conversam em veículos, tentando identificar quem mente. Rushville serve como aquela cidade pequena típica de dramas policiais, onde todos parecem se conhecer, mas poucos estão dispostos a compartilhar o que sabem. A distinção crucial é que esta investigação abrange uma organização que vigia o Universo.
Quem esperava que a mitologia dos Lanternas surgisse imediatamente em sua totalidade deve ter paciência. O primeiro episódio prioriza a construção do caso e a apresentação dos personagens. O segundo, por outro lado, intensifica o elemento cósmico ao introduzir os Caçadores Cósmicos, seres artificiais antigos ligados à história da Tropa, e apresenta Sinestro (Ulrich Thomsen).
Este equilíbrio é uma decisão estratégica para uma produção destinada a um público que pode conhecer os Lanternas Verdes apenas pelo nome. Em vez de expor de imediato a Tropa, os anéis, os Guardiões e toda a mitologia circundante, Lanternas convida o espectador a acompanhar primeiramente a investigação. Quando o universo maior começa a emergir, já há uma história concreta servindo como base.
Isso explica, talvez, por que a série não transmite a sensação de estar apenas preparando o terreno para um futuro grande filme do Universo DC. Existe um homicídio a ser resolvido, uma relação tensa entre os protagonistas e uma narrativa contada em dois tempos distintos. Os elementos de super-heróis estão presentes, mas não dominam cada cena.
Ao final do segundo episódio, contudo, torna-se difícil classificar o caso meramente como um homicídio em Nebraska. A história começa a revelar suas dimensões mais amplas, lembrando que esses dois investigadores fazem parte de uma polícia responsável por proteger uma porção inteira do Universo.
Até o momento, essa união entre ficção científica e policial está funcionando bem. Pode ser uma das maneiras mais envolventes de apresentar os Lanternas Verdes: começando com corpos, dois investigadores desconfiados e uma cidade repleta de segredos, e somente depois remetendo ao fato de tratar-se de uma saga de policiais espaciais.
A série possui lançamentos semanais na HBO e no HBO Max, sempre aos domingos, e recomenda-se assisti-la a quem aprecia histórias de investigação, mesmo sem familiaridade com os quadrinhos. Lanternas consegue introduzir a mitologia dos personagens gradualmente, sem negligenciar o mistério policial que sustenta os episódios iniciais. A combinação de investigação, ficção científica e super-heróis tem se mostrado eficaz até agora, e há muito potencial para descobrir o que reside por trás dessa trama.
