Especialistas em bem-estar dos Emirados Árabes Unidos (EAU) observam que um hotel cinco estrelas, um plano de atividades apertado e centenas de fotos podem criar a ilusão de um descanso de verão perfeito, mas isso não garante um tempo feliz para a família.
Psicólogos e especialistas em bem-estar apontam que a busca por preencher cada dia de férias com eventos e experiências às vezes anula o próprio objetivo da viagem.
A Dra. Rita Figueiredo, psicóloga clínica e diretora executiva da Peninsula Psychology, acredita que as férias estão cada vez mais se tornando um reflexo de como as pessoas se veem e como gostariam que os outros as vissem. Ela observa que as viagens amplificam ou acentuam todos os fatores que causam estresse na vida das pessoas.
Figueiredo vê o chamado 'modo mental de otimização', no qual as pessoas esperam um certo retorno emocional com base no dinheiro gasto ou no número de dias de folga tirados. Por exemplo, uma pessoa pode pensar: 'Gastei tanto dinheiro, então devo ser tão feliz' ou 'Tirei esses dias de férias, então eu e meu parceiro devemos reconectar ou criar memórias para os filhos'.
Como resultado, as férias podem se transformar em 'uma extensão da minha identidade', levando as pessoas a questionar o que dizem sobre seu estilo de vida, família e situação financeira através do destino, atividades e fotos.
As redes sociais adicionam outro nível de pressão, embora Figueiredo adverte contra culpar exclusivamente as redes sociais. Ela enfatiza que o problema reside no impacto psicológico dessas redes — na comparação, nos padrões elevados e na ideia de otimização.
Ela descreve as férias como cada vez mais 'performáticas', onde as famílias pensam não apenas na experiência do local, mas também em como essa impressão será vista pelos outros. Se vinte anos atrás as pessoas podiam viajar pelo tempo com a família, nova cultura ou simplesmente para relaxar, hoje surge uma pergunta adicional: 'Como isso vai parecer?'
Esse estresse pode influenciar decisões, mesmo as mais básicas, como a escolha do local da viagem, pois alguns podem preferir uma opção que pareça mais impressionante em vez de uma que realmente se adapte à sua família.
Para expatriados que visitam a pátria, isso pode significar tentar ver pais, irmãos, parentes distantes e amigos em um curto período, já que eles não sabem quando voltarão da próxima vez. Essas pessoas frequentemente descrevem o retorno dessas viagens como um sentimento profundo de conexão familiar acompanhado de exaustão total.
Para algumas famílias, a principal fonte de tensão pode não estar relacionada ao destino. Figueiredo frequentemente observa casais onde um parceiro, muitas vezes a mulher, assume o papel de 'gerente de projeto' das férias. Isso inclui reservar passagens e hotéis, verificar passaportes, planejar atividades, organizar pertences das crianças e tomar decisões sobre as necessidades de todos os participantes.
Ela observa que a pessoa que realiza todo o trabalho fica irritada. Na terapia de casais, este é um padrão recorrente. O outro parceiro pode sentir que pagou pelas férias ou trabalhou horas extras para torná-las possíveis, enquanto o parceiro responsável pelo planejamento sente que seu trabalho passou despercebido.
Figueiredo cita um exemplo em que a esposa pergunta: 'Por que você acha que estamos tendo as mesmas férias [todos os anos]?'. Ambos os parceiros podem se sentir sozinhos, pois ninguém percebe totalmente a contribuição do outro.
Hanadi Al Jaber, treinadora de bem-estar familiar, afirma que esse 'trabalho invisível' pode minar o próprio descanso. A pessoa responsável pelo planejamento e organização continua a carregar a carga mental durante toda a viagem. Se os resultados não correspondem às expectativas, ela pode assumir total responsabilidade, enquanto a família faz acusações como: 'Você queria isso, você escolheu isso'.
Al Jaber insiste que a responsabilidade deve ser distribuída entre os parceiros, dando a ambos a oportunidade de descansar e recuperar-se. Ela enfatiza: 'Se as férias devem ser férias, o objetivo é deixar a família descansar, não fazer com que alguém trabalhe'.
Outro erro comum, na opinião de Al Jaber, é tentar colocar muito em pouco tempo. As famílias podem focar em visitar o maior número possível de lugares e realizar o maior número de atividades, em vez de pensar em como essa experiência realmente é sentida. Ela declara: 'A qualidade das férias não está ligada à quantidade de atividades'.
Cronogramas sobrecarregados podem aumentar os níveis de estresse e fadiga tanto dos pais quanto dos filhos, diminuindo a capacidade da família de aproveitar o momento. Uma criança pode esquecer uma atividade específica, mas lembrará dos sentimentos associados a ela. Quanto mais apertado o cronograma, maior o nível de estresse e fadiga.
A pressão aumenta quando as famílias tentam recriar as férias que viram outras pessoas nas redes sociais. Al Jaber aconselha a fazer-se uma pergunta simples antes de reservar: 'Isso realmente serve para nós, ou estamos fazendo isso por causa da comparação com os outros?'
O desejo de proporcionar aos filhos férias 'ideais' também pode levar os pais a gastar grandes somas em experiências que os filhos podem não valorizar. Os pais às vezes presumem saber o que seus filhos precisam sem perguntar. Eles acreditam que, ao dar aos filhos férias ideais, estão lhes dando o melhor.
O conselho de Al Jaber é perguntar às crianças, de uma maneira apropriada para a idade delas, o que elas mais gostariam de fazer. As respostas podem surpreender os pais: as crianças podem querer apenas nadar, brincar ou comer juntas. O benefício psicológico importante é que a criança sinta que sua opinião foi ouvida.
Para famílias com vários filhos, ela recomenda estabelecer expectativas antecipadamente e ensinar às crianças que as opiniões de todos são importantes, em vez de permitir que uma criança dite todas as férias.
Shahed Mardini, mãe de dois filhos de Abu Dhabi, acredita que férias de verão perfeitas não precisam ser excursões internacionais. Neste verão, ela viajou com o marido e dois filhos para a Síria, principalmente para passar tempo com parentes, o que ela começou a associar a um longo recesso de verão. Ela prefere passar longas férias de verão com a família, em vez de sentir que está perdendo uma viagem mais glamorosa. Ela desfrutou sinceramente da viagem e voltou com a sensação de ter feito a escolha certa, explicando que gosta apenas de sentar e descansar, e não tem um forte desejo de explorar ou se mudar de um lugar para outro constantemente.
No entanto, seus filhos começaram a notar o que seus colegas estavam fazendo. O filho mais velho começou a perguntar sobre visitar lugares que ouvira de outras crianças, mas ela não considera isso motivo para recusar o estilo de férias preferido da família. Ela está disposta a levá-lo em uma viagem quando ele for mais velho e desenvolver esses interesses. Para ela, visitar parentes e tempo com entes queridos oferece uma experiência de descanso diferente.
Nem todas as famílias enfrentam a pressão de maximizar as férias. Ibrahim Al Qatari, pai de dois filhos dos Emirados, viajou com a esposa e os filhos (de cinco e três anos) para a Turquia por uma semana neste verão. Ele planejou toda a viagem, mas notou que não houve conflitos sobre a rota, pois sua esposa estava feliz em seguir seus planos. A família também controlou seus gastos e manteve um orçamento de reserva separado. O resultado foi uma viagem relaxada, que pareceu valer o dinheiro gasto, e que não exigiu gastos excessivos. Tirar fotos também não foi um problema, pois nem ele nem sua esposa gostam muito de tirar fotos.
A experiência deles confirma a tese dos especialistas: não existe uma fórmula única para férias de sucesso; o que funciona para uma família pode ser exaustivo para outra.
Figueiredo aconselha a evitar conflitos conduzindo conversas sobre expectativas antes do início do planejamento. Ela pergunta: 'O que estamos fazendo? Qual é o objetivo principal desta viagem?' Se o objetivo é relaxar, a rota deve prever descanso. Se o objetivo é restaurar o relacionamento do casal, a família precisa pensar em como exatamente eles criarão tempo juntos. O mesmo se aplica ao trabalho. Figueiredo diz que os casais devem discutir com antecedência se haverá notebooks nas férias, se mensagens de trabalho serão verificadas e quando. Esses pontos provavelmente precisam ser acordados.
Al Jaber aconselha de forma semelhante as famílias a repensarem o conceito de férias de sucesso. Em vez de medir pelo número de lugares visitados ou fotos tiradas, as famílias devem perguntar como se sentiram juntas. 'Como nos sentimos? Quantas vezes rimos? Como gostamos de estar juntos?'
Ela também apela para não atribuir cada situação decepcionante à culpa de alguém. Se um restaurante for ruim ou uma atividade não corresponder às expectativas, quem o reservou não deve automaticamente se culpar. 'Estamos tentando um novo lugar. Nenhum de nós sabe', observa ela.
Um dos argumentos mais fortes de Figueiredo é que as famílias frequentemente gastam semanas planejando a viagem, mas quase não gastam tempo planejando o retorno. As pessoas organizam cuidadosamente voos, hotéis, atividades e restaurantes para retornar imediatamente ao trabalho, estudo e tarefas domésticas. Ela se pergunta: 'Como posso planejar meu retorno?' Ela recomenda deixar alguma margem de tempo entre o retorno para casa e o início do trabalho ou estudos, para não transformar o último dia de férias em mais uma correria logística. Se o objetivo era relaxar, como voltar mantendo essa sensação de calma?
Em última análise, Figueiredo conclui que as melhores férias são aquelas que refletem a própria família, e não como ela pensa que um feriado de sucesso deve parecer. A escolha deve corresponder à própria pessoa: quem ela é, o que ela gosta de ver e o que ela gosta de fazer.
Al Jaber concorda, afirmando que as famílias devem abandonar a medição das férias através do consumo e da comparação em favor do bem-estar. A pergunta não deve ser apenas 'Quanto fizemos?', mas sim 'Como nos sentimos ao fazer isso?' Para famílias que já sentem a pressão de que este período de verão seja perfeito, isso pode ser a medida mais simples.
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