O conceito de hot hatch, embora esteja enfrentando dificuldades em um mercado cada vez mais voltado para o conforto, ainda atrai entusiastas que valorizam a dirigibilidade, o baixo peso e a praticidade desses veículos compactos. A indústria automobilística tem promovido a ideia de que os SUVs suprem essas necessidades, o que muitos críticos contestam, comparando essa tendência ao destino de outras categorias como peruas e sedãs.
A diminuição dos hot hatches é vista como um sintoma da atual preferência por posições de direção elevadas e promessas exageradas de capacidade off-road. Apesar disso, alguns modelos icônicos persistem; o Volkswagen Golf GTI e o Honda Civic Type-R continuam presentes, com os engenheiros japoneses garantindo que o Type-R será mantido enquanto houver demanda por um hatchback esportivo com câmbio manual e motor girador.
É necessário reconhecer e lamentar a perda de diversos outros hot hatches que enriqueceram o cenário automotivo, como o Mercedes-AMG A45 S, o Renault Mégane RS, o Renault Sandero RS, o Suzuki Swift Sport R e o Audi RS3.
Observa-se que a maioria dos hot hatches mencionados possui origem europeia, refletindo a filosofia do Velho Continente, que prioriza baixo peso, pouca inércia e potência adequada ao chassi, permitindo que os entusiastas desfrutem de estradas sinuosas, diferentemente da abordagem americana focada em grandes motores V8 para retas desertas.
No entanto, os americanos também demonstraram capacidade em criar hot hatches notáveis. Um exemplo proeminente é o Shelby GLHS, resultado da fusão da engenharia europeia com a força bruta americana, concebido por Carroll Shelby.
A origem deste veículo é intrinsecamente ligada à crise do petróleo de meados da década de 1970 nos Estados Unidos. O fim da era dos muscle cars e as novas regulamentações de emissões forçaram uma mudança drástica, resultando em carros pesados e com desempenho reduzido. Nesse contexto de dificuldade financeira, a Chrysler introduziu a plataforma L-Body em 1978, adaptando-a de uma fabricante francesa, a Simca.
Nesta base, a Chrysler lançou dois veículos: um hatchback compacto, essencialmente uma versão americanizada do Volkswagen Golf de primeira geração, vendido como Omni na Dodge e Horizon na Plymouth, além de uma versão Talbot Horizon na Europa. Paralelamente, utilizou-se a mesma base para criar um cupê de três portas chamado Dodge Charger, uma decisão de marketing controversa para os puristas.
Embora o Omni e o Horizon tenham ajudado a salvar a corporação Chrysler, eles eram considerados carros esquecíveis. A situação mudou com a chegada de Lee Iacocca, que assumiu a Chrysler com a meta de injetar paixão na marca. Iacocca procurou Carroll Shelby, seu antigo amigo texano, para desenvolver algo mais emocionante.
Shelby, inicialmente afastado da indústria, foi desafiado a aplicar suas habilidades em subcompactos de tração dianteira e motores de quatro cilindros. O primeiro resultado foi o Dodge Shelby Charger em 1985, que possuía melhorias na suspensão e aerodinâmica, mas apresentava apenas 110 cv.
Carroll Shelby percebeu o potencial do Omni, um modelo menor e mais leve na mesma plataforma L-Body. Convencendo Iacocca, ele desenvolveu o Dodge Omni GLH em 1984. A sigla GLH significava oficialmente «Goes Like Hell» e não era uma promessa vazia.
O Omni GLH original era extremamente competitivo, pesando 1.000 kg e equipado com um motor 2.2 de alta taxa de compressão. Ele atingia 0 a 100 km/h em impressionantes 8,7 segundos, superando o Volkswagen Golf GTI, e sua dinâmica foi totalmente redesenhada por Shelby.
