Sobrevivência de povos isolados na Amazônia exige novas estratégias de proteção territorial e ambiental
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Sobrevivência de povos isolados na Amazônia exige novas estratégias de proteção territorial e ambiental

As mortes do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips em junho de 2022 trouxeram a Terra Indígena do Vale do Javari, localizada no Oeste do Amazonas, para o debate internacional. Ambos foram vítimas de uma emboscada enquanto navegavam no rio Itacoaí, a caminho de Atalaia do Norte (AM). O responsável pelo crime, Rubén Dario da Silva Villar, agia para resguardar seus esquemas ilegais de garimpo e pesca na floresta amazônica, práticas que ameaçam a subsistência das comunidades indígenas.

Quatro anos após o incidente, o Vale do Javari permanece sob ameaça de criminosos, cujas ações ilegais comprometem tanto a soberania do território quanto a identidade cultural dos habitantes locais. Apesar da grande repercussão gerada pelas mortes de Pereira e Phillips, muitos outros defensores indígenas continuam trabalhando na defesa dos povos nativos da Amazônia, correndo riscos sem receber a devida atenção.

Para aumentar a visibilidade desta problemática, a revista Nature Sustainability publicou um artigo elaborado por 66 pesquisadores de mais de 50 instituições. Este trabalho enfatiza a necessidade crucial de proteger a área circundante às terras indígenas, argumentando que os motivos vão além da simples demarcação territorial.

Michel Eustáquio Dantas Chaves, geógrafo e professor da Unesp, e Rodrigo Lilla Manzione, engenheiro agrônomo e professor da mesma instituição, participaram da redação do texto. Chaves justifica a escolha do Vale do Javari por ser uma fronteira trinacional, fazendo divisa com Brasil, Peru e Colômbia. A densidade da vegetação dificulta o trabalho de fiscalização e policiamento eficaz. Contudo, as terras indígenas na área possuem recursos de valor econômico, e em suas fronteiras já se observa a exploração ilegal de madeira para comércio e a extração de ouro.

O grupo de pesquisadores foca na proteção dessas fronteiras. Eles observam que, diferentemente das unidades de conservação ambiental brasileiras, que possuem zonas de amortecimento previstas em lei para proteger a biodiversidade interna, as terras indígenas demarcadas, como as do Vale do Javari, carecem de uma área de proteção análoga. Essa lacuna facilita a aproximação das atividades ilícitas aos povos originários.

O estudo analisou o impacto dessas atividades, cruzando dados de desmatamento fornecidos pelo PRODES (Programa de Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite), do INPE, com informações de cobertura florestal e alterações de uso do solo registradas na plataforma MapBiomas. Os achados revelaram que a faixa de 200 km ao redor do Vale do Javari sofreu uma perda florestal 187,5 vezes superior àquela registrada dentro do território demarcado, sublinhando a importância da preservação no entorno.

Chaves fez um apelo direto para a proteção efetiva das terras indígenas e dos povos originários em isolamento voluntário, visto que estes últimos não conseguem buscar tal apoio sozinhos. Ele relatou que muitas pessoas no entorno priorizam o desmatamento e as rotas para escoamento de produtos ilegais e agropecuários, inclusive através da construção de rodovias que atravessam as terras indígenas. Como exemplo, existem planos para transformar a área de encontro entre Amazonas, Acre e Rondônia em uma zona de desenvolvimento agropecuário.

Por essa razão, Chaves defende a implementação de zonas de amortecimento para as terras indígenas, garantindo assim uma proteção real. O Vale do Javari abriga cinco grupos em contato com a sociedade vizinha — Marubo, Mayoruna, Matis, Kanamari e Kulina —, além de dois povos de contato recente, Korubo e Tsohóm-Djapá, e pelo menos 14 grupos em isolamento voluntário, configurando a maior concentração desses povos no país.

O professor Chaves alertou que os modos de vida dos indígenas isolados mal estão documentados. Qualquer intervenção, como abertura de clareiras, queimadas ou contaminação do ar por fumaça ou da água por mercúrio, constitui um ataque a esse modo de vida. Ele também mencionou o grave problema do narcotráfico na região, que ignora limites e permite que pessoas acessem os povos originários por meio de diversas atividades.

Manzione utilizou o Parque Indígena do Xingu como paralelo. Embora o território seja demarcado, as nascentes da bacia hidrográfica adjacente permaneceram desprotegidas e foram cobertas por plantações de soja. Adicionalmente, a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte nessa área alterou o curso do rio Xingu, causando um forte impacto na pesca e na cultura local.

Os pesquisadores indicaram que, atualmente, não há planos de ordenamento territorial para a região, muito menos um que integre os três países fronteiriços. Chaves explicou que isso transforma a área em um local sem lei, atraindo pessoas, muitas vezes sem terra. Ele acrescentou que mesmo aqueles cuja terra é legalmente protegida podem desconhecer a necessidade de proteção externa.

O geógrafo ressaltou que, por ser uma área de fronteira, as soluções transcendem o Brasil, exigindo uma articulação transnacional para combater o problema na origem, rastreando o dinheiro e as exportações. No entanto, ele apontou que essas atividades geralmente não estão ligadas ao mercado legal, mas sim a um comércio clandestino que abastece outras nações. Um relatório da Environmental Investigation Agency (EIA), divulgado no início de 2026, demonstrou que hotéis de luxo na Europa e nos Estados Unidos importavam madeira de áreas protegidas no Pará para fabricar decks, por exemplo.

Manzione adicionou que quanto mais tempo demorar a intervenção, mais essas atividades se consolidam. Ele observou que há gerações de indivíduos que dependem do corte de madeira, e mesmo que a cadeia seja eliminada e os recursos congelados, haverá um contingente populacional estabelecido na região há décadas que vive dessa prática.

Como mitigação, Manzione sugeriu focar no aspecto financeiro, tornando a atividade dispendiosa e rastreando a origem dos produtos para interromper a cadeia. Além disso, é vital usar dados de satélite para monitorar as mudanças na Amazônia e identificar zonas de risco. Contudo, essa segunda estratégia enfrenta ameaças legislativas.

Manzione alertou sobre o Projeto de Lei 2564/25, aprovado rapidamente, que proíbe a aplicação de embargos e sanções ambientais baseadas unicamente em imagens de satélite ou ferramentas de detecção remota. Isso significa que crimes ambientais, como o desmatamento, não poderão mais ser autuados apenas com imagens de satélite, exigindo presença física nas áreas, que frequentemente são inacessíveis.

Este projeto foi aprovado pela Câmara dos Deputados em março de 2026 e aguarda tramitação no Senado, podendo ser vetado. Ele preocupa líderes ambientalistas devido ao retrocesso que implica, pois enfraquece o trabalho de sensoriamento remoto baseado em imagens de satélite, realizado por profissionais do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e órgãos como o INPE.

Os pesquisadores também abordaram as mudanças climáticas. A região oeste da Amazônia é fundamental para a formação de chuvas que irrigam a agricultura e pecuária do Centro-Sul do país. Portanto, o avanço do desmatamento pode resultar em menor umidade atmosférica e redução das precipitações, afetando o setor agropecuário regularizado, que representa grande parte da receita nacional.

Chaves concluiu que, sem a defesa da conservação florestal aliada ao monitoramento e sem que as leis ambientais dialoguem com as leis agropecuárias, o país perderá aspectos ambientais, sociais e econômicos. Segundo ele, é possível construir um desenvolvimento sustentável onde a preservação convive com a produção, e o artigo visa justamente correlacionar a crise humanitária indígena com os aspectos ambientais e econômicos no contexto das mudanças climáticas.

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