A Casa El Trébol, projetada pelo Engelman Estudio, está situada no ponto mais elevado do bairro homônimo, em San Carlos de Bariloche, na região de Rio Negro, na Patagônia Argentina. O projeto foi concebido a partir da experiência intrínseca do local, inserido em um cenário de densa vegetação nativa e topografia acentuadamente inclinada. A arquitetura traduz essa vivência em um trajeto processional que visa alcançar a serenidade no topo, funcionando como um dispositivo que direciona o olhar para as melhores vistas da floresta e, subsequentemente, para o horizonte aberto da Laguna El Trébol.
A estratégia de design foca em dois aspectos cruciais: enquadrar a paisagem e gerenciar a transição entre espaços. O acesso em zigue-zague e a entrada no hall principal atuam como um volume transparente, servindo como um mirante genuíno que rompe a densidade da mata para permitir a contemplação do ambiente patagônico. Essa delimitação estabelece um diálogo contínuo entre abertura e fechamento visual em cada área, preservando a privacidade da residência sem comprometer sua ligação com o exterior. A progressão espacial do acesso apenas insinua a dimensão do interior, que se revela plenamente ao atingir o ponto panorâmico.
Internamente, o hall organiza o programa em duas alas distintas: a Ala Privativa (localizada à direita), destinada aos dormitórios e caracterizada por ser mais introspectiva e protegida; e a Ala Pública (à esquerda), que compreende um vasto espaço contínuo integrando sala de estar, jantar e cozinha, finalizando em uma ampla varanda voltada para o oeste. A ala pública adquire total transparência com grandes painéis de vidro, permitindo uma fusão perfeita com o entorno natural. Os espaços de serviço, por outro lado, são posicionados voltados para a fachada mais fechada.
Formalmente, a casa apresenta-se como um prisma de volumetria nítida e marcante, definido por uma forte proporção horizontal e pela presença estrutural do telhado. Este último expõe sua estrutura invertida, configurando um esqueleto estrutural rítmico que domina o espaço interno. A seleção de materiais equilibra continuidade e contraste: o piso interno mantém a uniformidade da laje de fundação, apresentando um aspecto pétreo e liso. No perímetro, a edificação é envolta por uma casca de madeira de Louro, cuja espessura e personalidade contrastam com os amplos painéis de vidro voltados para as vistas primárias. A fachada sul, dominada pela floresta densa, possui apenas uma abertura para o acesso, sendo o percurso de pedestres realizado por uma escadaria integrada à paisagem.
Na encosta descendente, a flora nativa, incluindo rosa mosqueta e lavanda, juntamente com árvores frutíferas, molda o horizonte vegetal e sensorial do local.
Um Estúdio Anexo de 35 m² se destaca no extremo noroeste do terreno, funcionando como um gesto de concentração e suspensão. Este volume se assenta diretamente na rocha e avança em balanço sobre o declive, proporcionando uma experiência de moradia singular. Projetado para profunda reflexão, ele possui todos os confortos necessários. Sua organização espacial maximiza a projeção visual sobre a copa das árvores. Embora mantenha a geometria simples e o revestimento de tábuas verticais da casa principal, sua posição em cota inferior cria um horizonte particular com vistas exclusivas para as copas das árvores frutíferas, sem interferir na paisagem da residência principal.
Tanto os interiores da casa principal quanto os do estúdio adotam uma paleta de materiais calorosos e sóbrios. Todas as paredes são revestidas com painéis de Guatambu laqueado fosco, conferindo uma textura de madeira sutil e contínua, resultando em um ambiente luminoso e acolhedor sem depender de artificiais. O equilíbrio cromático e tátil é complementado pelos pisos de porcelanato cinza pedra e pelos forros de madeira. A área da cozinha está localizada em um dos lados mais longos do volume público, onde uma imponente bancada de pedra acomoda os serviços e o armazenamento. Paralelamente, outra bancada elevada, também em pedra, serve como bar e copa, oferecendo vistas privilegiadas para a lareira.
A utilização da madeira de Louro, que foi transportada e tratada do norte argentino, representa um diálogo essencial com o cenário bucólico da região. Com o tempo, o Louro perde umidade, e seu tom acobreado inicial evolui para um cinza-furta-cor, harmonizando-se com o cromatismo da floresta e alcançando um equilíbrio perfeito com o entorno. Sua resistência assegura a durabilidade e estanqueidade da fachada. As tábuas verticais são dispostas estrategicamente para mascarar rufos e calhas, mantendo a pureza volumétrica e a excelência dos acabamentos.
As fachadas foram adaptadas à orientação solar e às condições climáticas: a Fachada Sul (voltada para a Floresta) utiliza uma paginação horizontal de tábuas largas e montantes externos. Essa aspereza material busca integrar-se à paisagem horizontal das árvores, fornecendo maior espessura e vedação para a face mais úmida. Já a Fachada Nordeste (exposta) tem sua paginação rotacionada e se torna horizontal, alinhando-se ao horizonte amplo da paisagem e amenizando as condições climáticas da face mais exposta.
A cobertura atinge sua máxima altura em direção à paisagem e à melhor incidência solar, criando um beiral invertido que enfatiza a força do volume e a abertura para o exterior. O volume privado está orientado para a divisa sudoeste, que apresenta o clima mais complexo; neste ponto, a casca metálica preta da cobertura desce e envolve a lateral, garantindo isolamento superior em uma área que não necessita de aberturas visuais. O volume público projeta uma extensa passarela horizontal em direção à paisagem, funcionando como uma extensão das salas de estar e jantar. Adicionalmente, na lateral noroeste, há uma varanda passante, um quarto setor público semiaberto, ideal para momentos sociais ou para apreciar a paisagem sob proteção. Esta varanda se conecta a um semiaberto lateral que abriga a área de churrasqueira e cozinha externa, promovendo uma transição suave com o espaço interno.



