A conhecida cantora Mariam Bagayoko, aos 88 anos, continua a se apresentar com energia contagiante, apresentando ao público os ritmos do antigo Mali. Ao se apresentar no Palácio da Cultura em Bamako, ela demonstrou movimentos impressionantes, utilizando um instrumento de percussão chamado yabara, feito de um grande fruto de abóbora preenchido com sementes secas, que tilintava fortemente ao ser batido na palma da mão esquerda.
Este som combinava harmoniosamente com as notas profundas do ngussumbala — um grande xilofone semelhante a um xilofone, único da região de Beledugu, no centro-oeste do Mali, conhecida por suas tradições musicais rurais. Antes de começar a apresentação, ela fez um gesto de respeito aos espíritos protetores e aos griots, guardiões da palavra oral, e em seguida, interpretou poderosas canções na língua bambara, evocando imagens de reuniões rurais sob a luz da lua.
Bagayoko, apelidada de 'Lusitana de Beledugu', apresentou ao público mundial, durante décadas, as pouco conhecidas tradições locais do Mali. No final de 2025, ela recebeu um prêmio por realizações de uma vida nas Premiações Musicais Aga Khan em Londres. Ela foi uma das 11 finalistas selecionadas entre mais de 400 candidatos da África, Ásia, Oriente Médio e Europa.
O júri, que incluía a estrela maliana Oumou Sangaré e o conhecido mestre catalão de música antiga Jordi Savall, elogiou sua 'paixão e dedicação inabalável' à preservação e transmissão do patrimônio musical do Mali, com especial atenção às mulheres e meninas.
Nascida em Kolokani, ao norte da capital Bamako, em Beledugu, onde a música e a dança acompanham cada etapa da vida — desde o trabalho nos campos até as cerimônias —, Bagayoko recorda ter aprendido a 'cantar antes mesmo de conseguir falar'. Na infância, ela seguia as mulheres da aldeia que moíam nozes de shea para fazer manteiga, e sempre acompanhava esse trabalho com canções. Ela se juntava a elas com seu pequeno instrumento de abóbora e cantava.
'No início, ninguém prestava atenção em mim. Mas gradualmente, minha presença se tornou indispensável', compartilha ela. Essas simples melodias acabaram por torná-la uma das embaixadoras mais conhecidas da música tradicional do Mali. No entanto, seu pai, músico e intérprete em companhias teatrais tradicionais locais Kotoba, era contra suas aspirações musicais. Ela lembra: 'Ele temia que, se eu tivesse sucesso muito rápido, não viveria muito, que poderia ser envenenada por inveja.'
Usando antigas canções de seu país, a música de Bagayoko aborda problemas sociais e oferece conselhos inspirados em eventos atuais. Ela afirma: 'O privilégio do artista é ter a capacidade de se expressar. Através da música, transmitimos lições sem causar dor às pessoas, mesmo quando elas se veem no que estamos falando.'
Uma de suas performances mais famosas é a canção 'Ciwara', dedicada à coragem dos agricultores e ao valor do trabalho árduo. Ela também é conhecida por dançar no xilofone ngussumbala, transformando este instrumento em um palco. Grande parte de sua reputação baseia-se nos esforços para manter vivas as músicas e danças bambara.
'Eu ensinei muitos jovens que continuaram seu próprio caminho e ainda me são gratos. A ideia é garantir que nada disso desapareça', diz ela. Bagayoko teme que a música tradicional esteja perdendo seu 'valor intrínseco' devido à forma como a tecnologia e a influência estrangeira estão alterando os sons locais. Ela observa: 'Hoje, o ngussumbala e o yabara ainda estão presentes em nossa música, mas você não ouve mais os ritmos de nossa terra natal. A nova geração os modernizou e os adaptou aos ritmos de outros países.'
Através de seu projeto cultural 'Tiebilentie', ela ajudou a reviver a dança mascarada acrobática, que antes era usada apenas em cerimônias rituais, levando-a a casamentos e festividades no Mali e no exterior. Bagayoko encontra conforto na ideia de que seu legado sobreviverá a ela através de seus filhos e jovens. Em um concerto em Bamako, ela sorriu e disse: 'Minha filha cantou e dançou para o público assim como eu. Ela até subiu no xilofone... o futuro está em boas mãos.'
