O Ministro das Relações Internacionais e Cooperação, Ronald Lamola, pediu enfaticamente à África do Sul e ao Brasil que fortaleçam sua interação econômica. Ele enfatizou a necessidade de que a crescente demanda por minerais críticos contribua para a industrialização e prosperidade dos países do Sul Global, em vez de replicar os antigos modelos de extração de recursos.
Essas declarações foram feitas na quarta-feira no prédio do OR Tambo, em Pretória, durante a 8ª sessão da Comissão Conjunta África do Sul-Brasil. O evento contou com a presença do ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, e outros altos funcionários.
Lamola observou que a Comissão Conjunta foi criada como o principal mecanismo de gestão da cooperação bilateral e é a materialização prática da parceria estratégica entre África do Sul e Brasil. Ele relembrou que desde a última reunião da comissão em Brasília, em abril de 2024, houve um progresso significativo, incluindo a assinatura de um Memorando de Cooperação entre a ApexBrasil e o Ministério do Comércio, Indústria e Competitividade, bem como a adoção do Plano de Ação Turística para o período de 2026–2029.
Além disso, a cooperação foi aprofundada nas áreas de agricultura e educação, e o desenvolvimento da interação em energia, ciência, tecnologia e mineração continuou.
Fortalecimento dos laços comerciais e de investimento
Lamola afirmou que as fortes relações políticas entre os dois países são sustentadas por crescentes laços econômicos. Ele especificou que o Brasil é o maior parceiro comercial da África do Sul na América Latina e o segundo maior parceiro nas Américas. O volume de comércio entre eles em 2025 atingiu cerca de 2 bilhões de dólares (32 bilhões de randes).
Empresas sul-africanas estão presentes no Brasil nos setores farmacêutico, de tecnologia, mineração, serviços financeiros e indústria química. Por sua vez, empresas brasileiras investem nos setores automotivo e de alimentos da África do Sul. Lamola destacou que a África do Sul oferece às empresas brasileiras acesso ao mercado africano em rápida integração, com mais de 1,4 bilhão de habitantes, através da Zona de Livre Comércio Continental Africana.
Ao mesmo tempo, o Brasil serve como uma porta de entrada importante para empresas sul-africanas na América Latina e no Caribe. Lamola mencionou que o Acordo de Comércio Preferencial SACU–MERCOSUL fornece uma plataforma existente para o desenvolvimento, e a Comissão Conjunta abre oportunidades para expansão de mercados, remoção de barreiras comerciais e concretização do potencial de parceria.
A África do Sul também busca um comércio mais equilibrado e diversificado. As partes saudaram as recentes iniciativas que aproximam as comunidades empresariais, como a Missão de Exportação para o Brasil e o Fórum Empresarial África do Sul-Brasil, demonstrando crescente interesse em parceria comercial e novos investimentos. Lamola expressou esperança de que o Acordo de Promoção, Cooperação, Facilitação e Proteção de Investimentos seja celebrado em breve, fortalecendo a base para investimentos mutuamente benéficos.
Turismo e cooperação global
Lamola informou que o Brasil se tornou a nona maior fonte de chegadas turísticas na África do Sul. No ano passado, quase 65.000 brasileiros visitaram o país, aproximando o número de chegadas ao nível pré-pandêmico. Isso foi significativamente impulsionado pelo acordo bilateral de vistos de 90 dias e pelo aumento dos voos diretos entre África do Sul e São Paulo.
Como economias líderes de seus continentes, Brasil e África do Sul atuam como elos de ligação entre os países do Norte Global e do Sul Global. Em fóruns multilaterais, apoiaram uma posição comum sobre a reforma da governança global para que ela reflita melhor os anseios da maioria da comunidade internacional. Eles também esperam dar continuidade a essa cooperação no trabalho pela escolha histórica da primeira mulher Secretária-Geral das Nações Unidas.
Ambos os grupos regionais também concordam sobre a necessidade urgente de reformar a arquitetura financeira global. Lamola apontou que 750 milhões de pessoas em seu continente, ou seja, mais da metade da população africana, vivem em países onde os gastos com pagamentos de juros excedem os gastos com hospitais e salas de aula. Na América Latina e no Caribe, muitos países também estão endividados, com mais da metade da população, cerca de 350 milhões de pessoas, vivendo em países que gastam mais com o pagamento da dívida do que com saúde.
Ele observou que, como fundadores do G20, Brasil e África do Sul utilizaram este fórum para examinar de perto esses desequilíbrios e promover reformas específicas. Lamola expressou orgulho de que a África do Sul tenha assumido o bastão do Brasil como o último dos quatro presidentes sucessivos do Sul Global no G20. Durante sua presidência, a África do Sul colocou a desigualdade no centro da agenda global, incluindo a proposta de criação de uma Comissão Internacional sobre Desigualdade, que tem ganhado força desde então.
Ele expressou profundo agradecimento pelo apoio do Brasil durante o mandato da África do Sul, bem como por seu apoio moral inabalável em um período difícil, quando a participação da África do Sul estava unilateralmente restrita.
Minerais críticos e novo modelo de desenvolvimento
Lamola enfatizou que suas regiões e países são ricos em minerais essenciais para o futuro verde do mundo. De acordo com a Agência Internacional de Energia, a demanda por esses minerais provavelmente aumentará quatro vezes até 2040. À medida que essa demanda cresce, Brasil e África do Sul têm uma oportunidade importante de trabalhar juntos para evitar a repetição dos velhos modelos de mineração, nos quais os países do Sul Global fornecem matérias-primas, enquanto a riqueza e a prosperidade são geradas em outros lugares.
Ele declarou que seus países são ideais para promover outro modelo — um em que os minerais que alimentam o futuro verde também estimulam a industrialização, o desenvolvimento de habilidades, a troca de tecnologias e a prosperidade em suas próprias sociedades. Lamola acrescentou que ambos os países não hesitaram em usar sua voz e poder brando para chamar a atenção para os problemas e crises enfrentados pelos países do Sul Global.
Ele justificou essa posição dizendo que ela não é ditada pela caridade ou altruísmo, mas pela convicção de que muitos problemas enfrentados por suas sociedades não podem ser resolvidos pelas ações de países isolados. Recentemente, ambas as nações também enfrentaram a necessidade de resistir a abordagens unilaterais, defender seus interesses nacionais e preservar as democracias do ditado externo. Lamola concluiu que, em um cenário onde o sistema multilateral e o mundo enfrentam sérias dificuldades, os esforços conjuntos se tornam ainda mais importantes.
Ele salientou que a parceria é construída entre duas nações que entendem que democracia e construção nacional são sempre processos. África do Sul e Brasil aprenderam essas lições com a experiência. Por fim, ele desejou sucesso ao povo brasileiro nas próximas eleições, expressando confiança na força e resiliência da democracia brasileira.
