Os cintos de honra foram realmente usados na Idade Média?
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Os cintos de honra foram realmente usados na Idade Média?

O cinto de honra na Idade Média é um conceito bastante insano e cruel: uma carcaça metálica destinada a prender as partes íntimas das mulheres com o objetivo de preservar sua virgindade à força. Esta ideia reflete, evidentemente, a misoginia característica da sociedade medieval. No entanto, fora da imaginação popular, a veracidade histórica desta história é muito baixa.

Textos europeus contêm menções a dispositivos para preservação da castidade durante o primeiro milênio da nossa era, mas antes do século XII, essas referências apareciam exclusivamente em contexto teológico, servindo como metáforas de fidelidade e pureza. Esses «cintos» não eram objetos reais, mas sim uma forma de expressar a exigência de que as mulheres mantivessem a virgindade e a pureza até o casamento.

A primeira menção registrada de uma descrição física deste objeto data de 1405 e está contida em um livro chamado «Bellifortis», cujo tema central era a engenharia militar. Nele, há um desenho bastante detalhado do cinto de honra: uma faixa de couro para os quadris, dois laços para as pernas e, na área genital, uma tigela metálica com orifícios para urinar.

No entanto, a autenticidade da descrição é questionável. O professor de história Albrecht Klassen, da Universidade do Arizona, autor de um livro que desmente o mito dos cintos de honra, observa que o autor de «Bellifortis» usa piadas escatológicas ao longo de toda a sua obra, e que não existem exemplos autênticos registrados da Idade Média que correspondam à imagem na vida real. É mais provável que a imagem fosse uma sátira.

Por volta do século XVI, o cinto de honra começou a aparecer com mais frequência em ilustrações, gravuras e xilogravuras. Na Era do Renascimento, a mesma cena era frequentemente retratada: o cinto era designado a mulheres casadas que precisavam manter a modéstia enquanto o marido estava ausente, lutando em guerra (muitas vezes ele levava consigo uma chave).

Mesmo nesse período, essas imagens tinham predominantemente um caráter humorístico, enfatizando o absurdo da situação e sua ineficácia. Uma das pinturas mais famosas do final do século XVI, uma ilustração alemã, mostra uma esposa semi-nua no cinto, entregando a chave ao marido que se despede. No entanto, atrás do dossel da cama, um amante já espera com uma cópia da chave. Mesmo assim, os cintos de honra não eram levados a sério.

Além disso, a ideia de que esses objetos serviam mais para humor e entretenimento do que para fins práticos é fundamental para entender o mito: apesar de sua falsidade, esses objetos eram tão divertidos para o público da época quanto são para nós hoje, de modo que a ideia de que «cintos de honra foram usados na Idade Média» se espalhou.

Assim, os séculos XVI e XVII foram marcados pela era dos cintos de honra. Nos séculos XVIII e XIX, exemplos supostamente preservados desses objetos começaram a surgir por toda a Europa: cintos de vários tamanhos, modelos e materiais. Até mesmo cintos de honra para cães foram encontrados. Hoje, os historiadores acreditam que quase todos esses artefatos foram falsificados, criados como sátira baseada em um equívoco popular.

«Provavelmente, a maioria dos exemplares existentes foi produzida nos séculos XVIII e XIX como curiosidades para pessoas de moral dissoluta ou de mau gosto», afirma o site do Museu Britânico em Londres, que guarda um desses itens em sua coleção.

A impraticabilidade do objeto é outro argumento contra sua autenticidade. Mesmo que tal objeto tivesse sido fabricado para seu propósito legítimo nos séculos XVI e XVII, os especialistas concordam que seria quase impossível usá-lo adequadamente. Além do desconforto, os pequenos orifícios para excreção de urina e fezes (se é que existiram!) representavam problemas óbvios de higiene, e sempre havia o risco de cortes nas partes metálicas.

É evidente que, como tudo no mundo, tal folclore é absorvido pelo consumo de massa e reproduzido na cultura pós-moderna. Atualmente, existem vários tipos de cintos e gaiolas para preservação da virgindade, para homens e mulheres, vendidos em lojas de sexo como artigos fetichistas. Ironicamente, esses objetos são muito mais reais e práticos de usar do que os artefatos que os inspiraram.

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