Médicos e trabalhadores da higiene estão prestando assistência a pacientes com a doença causada pelo vírus Ebola no centro de tratamento de Rwampara, em Bunia, Ituri, no leste da República Democrática do Congo. No entanto, o surto atual é causado pelo vírus Bundibugyo, enquanto a vacina Ervebo foi aprovada e recomendada para surtos causados pela cepa Ebola Zaire.
Nesse sentido, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e seus parceiros foram forçados a desenvolver recomendações de emergência para o uso desta vacina no surto atual, uma vez que não há uma vacina rotineira aprovada especificamente para o vírus Bundibugyo.
Este detalhe destaca as complexidades enfrentadas pela RDC. Embora o combate ao Ebola no mundo tenha melhorado significativamente, o vírus ainda é capaz de explorar lacunas na pesquisa científica, nos sistemas de saúde e na preparação para emergências.
A chegada das vacinas é importante, mas isso não significa que o surto esteja sob controle. O surto de Bundibugyo tornou-se o maior surto de Ebola já registrado na RDC, superando a escala do surto de 2018-2020. A OMS descreveu a transmissão do vírus como intensa, observando sua disseminação por várias províncias e zonas de saúde. Além disso, casos foram registrados no Uganda, indicando que o problema tem um caráter regional.
Torna-se crucial a distinção entre a disponibilidade da vacina e a capacidade de aplicá-la de forma eficaz. O pessoal médico precisa de proteção, é necessário identificar rapidamente os contatos de pacientes infectados e as comunidades precisam de informações confiáveis. Os laboratórios devem diagnosticar as infecções antes que os pacientes transmitam o vírus inadvertidamente.
Um contêiner de vacinas no armazém não conseguirá parar a epidemia; portanto, a resposta depende da logística, vigilância e confiança tanto quanto da ciência.
A crise na RDC não pode ser vista como um problema limitado às suas fronteiras. O país faz fronteira com nove nações e abriga uma população grande e altamente móvel. O surto atual já se espalhou para o Uganda, e casos isolados foram registrados na Europa. A OMS avalia o risco para a RDC como muito alto devido à transmissão contínua e à expansão geográfica.
Para todo o continente, este é um sério teste à segurança regional em saúde. O Centro Africano de Controle de Doenças (Africa CDC) tem desempenhado um papel cada vez mais central na coordenação das medidas continentais de resposta, enquanto a OMS colabora com os governos africanos para fortalecer as capacidades laboratoriais, a vigilância e a preparação para emergências.
A crise atual serve como um teste prático de se esses sistemas podem funcionar rápido o suficiente quando o surto se desenvolve mais rapidamente do que o esperado. Também enfatiza por que fechamentos totais de fronteiras não são uma solução obrigatória. A liderança do Africa CDC afirmou que restrições amplas de viagem não são justificadas para o surto atual, dando maior ênfase às medidas de saúde pública direcionadas e à vigilância.
A conclusão mais desagradável deste surto é que a África não pode se dar ao luxo de construir seu sistema de proteção de saúde apenas após o início da crise. O vírus Bundibugyo ocorre raramente, e o pequeno número de surtos conhecidos explica por que o desenvolvimento de vacinas ficou atrás das pesquisas sobre a cepa Zaire mais conhecida. No entanto, raridade não significa insignificância.
A pandemia de COVID-19 mostrou quão rapidamente um patógeno desconhecido pode se transformar em uma emergência global. Ebola é uma doença diferente, mas a lição principal é semelhante: os países precisam de capacidade de pesquisa, capacidade de produção, pessoal médico treinado e estoques de equipamentos de emergência antes mesmo de serem necessários.
Portanto, a África deve investir não apenas em vacinas, mas também na capacidade de desenvolver e produzir vacinas em seu próprio continente. Depender dos estoques internacionais sempre significará uma competição entre os países africanos por recursos escassos durante uma crise global. A criação de potencial farmacêutico e biotecnológico regional dará ao continente maior controle sobre sua própria segurança em saúde.
A distribuição de vacinas é encorajadora, pois demonstra o potencial da cooperação internacional. No entanto, isso também deve servir como um impulso para uma discussão mais ambiciosa sobre a autossuficiência da África. A RDC enfrentou o Ebola várias vezes; o surto atual é o décimo sétimo para o país. O fato de um novo sorotipo poder surgir, deixando os órgãos de saúde sem uma vacina especificamente aprovada, mostra por que a preparação não pode cessar após a contenção de um surto.
A África precisa de vigilância de doenças reforçada, diagnóstico mais rápido, profissionais de saúde melhor remunerados e mais investimentos em pesquisa de vacinas. É também necessário que os países troquem informações e recursos antes que o surto cruze a fronteira de outro país. A chegada do Ervebo dá à RDC mais uma ferramenta na luta desesperada, mas isso não é o fim da história; é um lembrete do que ainda precisa ser construído.
O continente não deve esperar que milhares de pessoas fiquem doentes antes que o mundo mobilize vacinas, financiamento e experiência. A verdadeira medida de sucesso será o quão melhor a África estará preparada para o próximo surto em comparação com este.
