Arquitetos passam da seleção de materiais para a produção própria em projetos de construção
Leia mais
ArchDaily Brasil
archdaily.com.br

Arquitetos passam da seleção de materiais para a produção própria em projetos de construção

Tradicionalmente, os profissionais de arquitetura dedicam-se a selecionar materiais, avaliando suas características e definindo seu uso. Contudo, diversos escritórios estão adotando uma abordagem mais ativa, passando a desenvolver seus próprios insumos construtivos.

Para organizações como Material Cultures, BC architects e Studio Ossidiana, este processo pode iniciar-se desde o cultivo de cânhamo destinado à construção civil, a utilização de terra escavada de canteiros de obras, ou a combinação de concreto com pigmentos, pedras e conchas. O trabalho dessas entidades integra a investigação de materiais com as fases de processamento, fabricação e execução da obra.

De escolher um material a defini-lo

Material Cultures foca no desenvolvimento de materiais utilizando cânhamo e outros recursos de origem biológica. A Flat House, localizada na Margent Farm em Cambridgeshire, serviu como ponto de partida para a fundação da organização. Neste projeto, o cânhamo cultivado em 20 acres da fazenda foi empregado no desenvolvimento de painéis pré-fabricados para um sistema construtivo voltado a moradias de maior porte. Adicionalmente, a colaboração resultou em um revestimento de fibra de cânhamo inédito naquela residência.

George Massoud, membro do Material Cultures, esclarece que este esforço transcende o mero material. Ele enfatiza que a criação de alternativas exige uma profunda compreensão do ecossistema circundante e da economia política que o sustenta, abrangendo a procedência dos recursos, quem os transforma e como chegam ao local da construção.

A BC materials, uma divisão do BC architects, trabalha com materiais frequentemente descartados, tais como terra escavada, subprodutos agrícolas e entulho de construção. Através de processos de teste e tratamento, esses resíduos podem ser convertidos em blocos, rebocos, argamassas, misturas de taipa de pilão e sistemas construtivos pré-moldados. O escritório consegue criar tanto materiais personalizados para demandas específicas quanto produtos padronizados, adaptando sua composição e produção conforme a necessidade de cada aplicação, desde a identificação de um recurso local até a determinação de como o material final será fabricado e aplicado na construção.

Já o Studio Ossidiana dedica-se ao desenvolvimento de materiais à base de concreto, modificando seus componentes e proporções. O estúdio descreve esta pesquisa como a busca por um novo léxico material, mesclando pigmentos, pedras, areia e cimento em diferentes quantidades para resgatar as qualidades expressivas do concreto. No projeto Petrified Carpets, essas variações culminaram em peças com distintas tonalidades, texturas e acabamentos superficiais.

Da amostra ao edifício

A passagem de uma simples amostra de material para uma edificação completa envolve desafios relacionados à escala, uniformidade, métodos de fabricação e montagem. As dimensões e o desempenho do material impactam diretamente a estrutura, os sistemas de vedação, os acabamentos e a ordem sequencial da construção. Ademais, a produção desses materiais demanda maquinário, tempo dedicado e mão de obra especializada.

Na Regional House Edeghem, concebida pelo BC architects, blocos de terra compactada, feitos com argila local, constituem os arcos estruturais, enquanto o hempcrete é utilizado para isolar a fachada e o telhado. Durante um workshop de três semanas, foram produzidos cerca de 19.000 blocos, seguidos pela instalação de 312 metros quadrados de hempcrete ao longo de duas semanas subsequentes. Mais de 150 voluntários participaram ativamente da produção e da construção com esses materiais.

Operar nesta escala exigiu a coordenação rigorosa entre produção, construção e disseminação de conhecimento. Era crucial que as misturas mantivessem a mesma consistência ao serem replicadas em milhares de blocos e centenas de metros quadrados de vedação. Os participantes também necessitavam de orientações claras para prepará-los e instalá-los corretamente.

No caso da Flat House, o desenvolvimento de painéis pré-fabricados recheados com cânhamo influenciou profundamente a maneira como o edifício foi construído e montado. Fabricados fora do canteiro, os painéis foram içados e instalados em apenas dois dias. Este sistema material estabeleceu uma ligação direta entre o cultivo de cânhamo na Margent Farm e a sequência construtiva da residência.

Para o Art Pavilion M em Almere, o Studio Ossidiana criou o terrazzo Surf and Turf, incorporando conchas locais e agregados provenientes da horticultura. Sua composição e acabamento foram desenvolvidos especificamente para o pavilhão, conferindo ao material um caráter visual e tátil único na arquitetura.

Quando o conhecimento sobre os materiais circula

O desenvolvimento de materiais pode ultrapassar os limites do projeto inicial. No Lot 8, realizado em parceria com Assemble e Atelier LUMA, a BC materials figura como fabricante. Esta participação ilustra como o conhecimento técnico sobre materiais, gerado internamente em um escritório de arquitetura, pode subsequentemente contribuir para projetos liderados por outras equipes.

Isso reflete uma expansão mais ampla do BC architects, que ampliou suas atividades por meio do BC studies e da BC materials, englobando pesquisa, formação, prototipagem e produção de materiais. Tais atividades garantem que o saber adquirido em um projeto específico possa servir de base para futuras criações de materiais, sistemas construtivos e colaborações.

Os três escritórios organizam este trabalho de formas distintas. O BC integra projeto, pesquisa, capacitação e produção através de suas diversas divisões. O Studio Ossidiana cria materiais a partir de projetos singulares e em colaboração com fornecedores especializados. Já o Material Cultures articula a investigação de materiais com o cultivo, o processamento, as técnicas construtivas e os recursos regionais.

Nestas operações, arquitetos e arquitetas participam de fases que normalmente antecedem a chegada do material à equipe de projeto. Eles realizam o mapeamento de recursos, elaboram misturas, testam componentes e organizam a manufatura. Assim, a produção de materiais se integra ao processo arquitetônico, elevando o papel dos profissionais: eles deixam de apenas especificar o que será construído para definir como esses próprios materiais serão fabricados.

Popular