Embora o desejo de possuir apenas veículos esportivos seja atraente para muitos entusiastas, na prática, com o avanço da vida pessoal, como casamento e aumento da família, um SUV espaçoso de sete lugares frequentemente se torna a opção mais adequada para a rotina.
No Brasil, o Toyota SW4 estabeleceu-se por longo tempo como a principal referência neste segmento, sendo o maior SUV vendido pela montadora japonesa no país. Sua consolidação se deu graças à mecânica extremamente confiável, à vasta lista de equipamentos e à respeitada imagem da marca. Contudo, a entrada de fabricantes chinesas, que oferecem um custo-benefício notavelmente competitivo, fez com que a falta de tradição dessas novas marcas deixasse de ser um impedimento, conquistando o público.
Neste cenário, a GWM introduziu o GWM Haval H9 no ano passado como um concorrente direto ao Toyota. A primeira geração do SUV chinês, lançada em 2014, tinha como objetivo confrontar o Toyota Land Cruiser Prado, e seu design inicial refletia claramente essa inspiração no rival japonês. Entretanto, essa rivalidade permaneceu na Ásia, visto que a primeira geração não foi importada para o Brasil, tendo durado dez anos.
A segunda geração, que foi apresentada em 2024, alterou drasticamente o conceito do veículo. Abandonando qualquer semelhança com o Toyota, o Haval H9 transformou-se em um SUV grande e quadrado, inspirando-se de maneira mais discreta em ícones como o Land Rover Defender e o Mercedes-Benz Classe G. Parece que a Great Wall Motor compreendeu que, em vez de copiar um adversário forte, seria mais eficaz oferecer algo que ele não possui: um estilo de off-road clássico, mantendo o conforto e os bons equipamentos esperados de um SUV superior a R$ 300.000.
Especificamente, o preço da versão única do Haval H9 no Brasil é de R$ 335.000. Este modelo chegou em agosto de 2025, coincidindo com a inauguração da fábrica da GWM em Iracemápolis (SP), onde também são produzidos o SUV híbrido Haval H6 e a picape Poer P30. O Haval H9 e a Poer P30 compartilham a plataforma P71 e o motor turbodiesel, sendo os primeiros modelos da GWM no Brasil sem eletrificação.
Este valor é considerado bastante agressivo quando comparado ao Toyota SW4, cuja versão mais acessível, a SRX Platinum de cinco lugares, custa R$ 417.590. No entanto, o Toyota justifica esse preço devido à sua trajetória de mais de três décadas, que sustenta cada aspecto de sua etiqueta de preço.
O utilitário japonês chegou ao mercado brasileiro no início dos anos 1990, inicialmente como Hilux SW4, período em que o mercado nacional recém-aberto estava descobrindo os veículos 4x4 japoneses. Foi somente em 2005, com o lançamento da geração baseada na plataforma IMV, que o SW4 deixou de ser apenas um jipe rústico para se firmar como o SUV definitivo da classe média-alta brasileira. Ele combina uma arquitetura robusta de chassi de longarina com um interior sofisticado, capacidade para sete passageiros e motorização turbodiesel.
Através de sucessivas atualizações e reformulações, a Toyota construiu uma reputação de durabilidade e alta liquidez na revenda. Essa solidez permitiu que o modelo criasse uma espécie de domínio emocional no segmento, tornando-se uma escolha quase automática para quem procurava um SUV grande de sete lugares que não causasse problemas, seja na oficina ou na hora da venda.
Portanto, é inegável que o Haval H9 entrou no mercado com uma tarefa desafiadora, mesmo apresentando um custo significativamente menor. Desconsiderando a versão de cinco lugares do SW4, as opções restantes são a SRX Platinum de sete lugares, avaliada em R$ 424.590, e a variante topo de linha Diamond, que custa R$ 475.990. Considerando a configuração de assentos e os valores, o confronto mais relevante ocorre entre o Haval H9 e a versão SRX Platinum de sete lugares do SW4, pois a variante Diamond custa R$ 51.400 a mais, o que apenas evidenciaria o teto de preços da categoria ao colocá-lo em disputa.
Todas as configurações do utilitário japonês utilizam rigorosamente o mesmo conjunto mecânico e estrutural: o consagrado motor 2.8 turbodiesel, a transmissão automática Aisin de seis velocidades e o sistema de tração 4x4 com reduzida. Isso implica que o custo adicional da versão Diamond cobre essencialmente melhorias no acabamento e em certos itens de conveniência, como pintura bicolor com teto preto, revestimento interno em couro bege com teto escuro, carregador de celular por indução, abertura do porta-malas por gesto ou ilhó, iluminação ambiente em LED e tomadas USB extras.
Assim, o debate justo e racional se estabelece em torno de uma disparidade financeira de R$ 89.590 entre o Haval H9 Exclusive e o SW4 SRX Platinum. Esse montante é suficiente para cobrir anos de seguro, IPVA e combustível, ou até mesmo financiar um esportivo antigo para os fins de semana, sem comprometer o orçamento familiar.
Analisando friamente e racionalmente, ignorando o prestígio da Toyota, a tradição do SW4 ou qualquer receio com carros chineses, a escolha pelo Haval H9 parece ser a mais fácil. Contudo, se fosse assim, este comparativo perderia o sentido. Ambos os SUVs possuem vantagens e desvantagens ao serem examinados em detalhe.
Motor, câmbio e desempenho
O Toyota SW4 é equipado com o motor 1GD-FTV, um 2.8 turbodiesel com injeção direta, que recebeu várias atualizações para alcançar os atuais 204 cv a 3.400 rpm e 50,9 kgfm de torque a 2.800 rpm. Acoplado a uma transmissão automática de seis marchas de conversor de torque, este conjunto deve movimentar 2.175 kg. Isso resulta em uma relação peso/potência de 10,6 kg/cv, conferindo ao SW4 um desempenho satisfatório: aceleração de 0 a 100 km/h em 11,8 segundos e velocidade máxima de 180 km/h.
Em contraste, a GWM equipou o Haval H9 com o motor GW4D24, um 2.4 turbodiesel que gera 184 cv a 3.600 rpm e 48,9 kgfm de torque. Embora haja uma defasagem nos números brutos, o motor chinês compensa na curva de entrega, pois seu torque máximo aparece muito cedo, já aos 1.500 rpm. Adicionalmente, o H9 possui câmbio de 9 marchas, o que teoricamente otimiza o aproveitamento da curva de torque do motor.
Entretanto, o peso também é um fator relevante. O H9 pesa 2.575 kg, o que representa 400 kg a mais que o SW4. O fato de o Haval ter 20 cv a menos não ajuda nesse quesito. A relação peso/potência deteriora-se consideravelmente para 13,7 kg/cv, fazendo com que o tempo de 0 a 100 km/h atinja 13 segundos e a velocidade máxima fique em 170 km/h. Estes dados são apenas os divulgados pelo fabricante, e na prática, em estradas com o veículo carregado, a diferença será ainda mais perceptível.
Dimensões
Apesar de tudo isso, o comprador de qualquer um desses SUVs geralmente não está excessivamente focado em aceleração ou dinâmica de curvas. Normalmente, esses veículos são adquiridos considerando o espaço, e neste aspecto, o Haval H9 supera o Toyota SW4. Sua carroceria, com estética de overlander, mede 4,95 m de comprimento (15 cm a mais que o Toyota), 1,97 m de largura (12 cm a mais) e 1,93 m de altura (quase 10 cm superior ao rival). O vão entre eixos do chinês é de 2,85 m, garantindo 11 cm a mais de espaço interno em comparação com os 2,74 m do modelo japonês.
No uso diário, com apenas cinco lugares ocupados, o H9 oferece um volume cavernoso de 791 litros até a altura dos vidros, uma grande diferença em relação aos 500 litros do SW4. No entanto, quando a terceira fileira de assentos está em uso, a situação se inverte: o SW4 comporta 180 litros de bagagem, enquanto o H9 oferece apenas 88 litros quando os dois últimos assentos estão instalados. Assim, no H9, é preciso escolher entre transportar todos os passageiros ou levar as malas; para ter ambos, é necessário instalar um bagageiro de teto.
Itens de série
A versão SW4 SRX Platinum apresenta o pacote padrão da marca para a categoria: bancos estofados em couro com ajustes elétricos e ventilação frontal, ar-condicionado automático de duas zonas com saídas traseiras, porta-malas motorizado, espelho retrovisor interno fotocrômico, sistema de som premium JBL com subwoofer e o pacote de assistência Toyota Safety Sense. Este pacote inclui piloto automático adaptativo (ACC), frenagem autônoma de emergência, alerta de ponto cego e alerta de tráfego cruzado.
Contudo, o painel de instrumentos mantém mostradores analógicos ao lado de uma pequena tela TFT de 4,6 polegadas, e o freio de estacionamento utiliza o tradicional acionamento manual por alavanca. Esses elementos, juntamente com a arquitetura da cabine considerada datada, indicam a antiguidade do projeto.
O Haval H9 Exclusive, por sua vez, agrega uma série de comodidades que nem mesmo a versão Diamond da Toyota, custando R$ 475 mil, oferece. O modelo chinês inclui ar-condicionado automático de três zonas (contra duas do Toyota), ionizador purificador de ar, teto solar elétrico panorâmico, faróis Matrix de LED, freio de estacionamento eletrônico com Auto Hold, acionamento remoto do motor, painel de instrumentos totalmente digital com tela de 10,2 polegadas que exibe informações de assistências ao motorista (como o assistente de permanência em faixa, ausente no Toyota) e uma ampla central multimídia de 14,6 polegadas.
Em termos de conforto, os bancos dianteiros recebem aquecimento, memória de ajuste para o motorista e função de massagem. O pacote de manobras inclui câmera de visão 360 graus com recurso de “chassi transparente”. No conjunto de assistências ao condutor, o H9 também dispõe de assistente de desembarque e frenagem autônoma durante manobras de ré.
Em conclusão, a resposta sobre qual veículo compensa mais depende do perfil do comprador. Ao ponderar o peso adicional do H9 contra a vantagem dinâmica do SW4, a cabine moderna do primeiro versus a simplicidade intuitiva do segundo, e a diferença de preço próxima a R$ 90 mil, fica claro que a decisão não é simples.
O design, o conjunto motriz, o acabamento e a lista de equipamentos do Haval H9 demonstram que não estamos mais na era de 2010, quando os carros chineses competiam apenas por preço baixo e plásticos de qualidade inferior. O SUV grande da GWM se apresenta como um produto maduro, com uma identidade visual que pode agradar quem aprecia o universo 4x4 e deseja evitar um veículo comum.
A GWM também oferece uma garantia estendida de 10 anos (igual à oferecida pela Toyota), uma estratégia agressiva e necessária para amenizar o maior temor do consumidor brasileiro de carros premium: a depreciação e o risco de ficar preso ao veículo na revenda. Pagar R$ 335.000 por um SUV volumoso, bem equipado e com estilo marcante pode, de fato, representar um bom investimento.
Entretanto, o Toyota SW4 possui um peso significativo no mercado brasileiro que pode ser o fator decisivo na compra. Pagar R$ 89.590 a mais por um carro com cabine mais antiga e menor apelo visual pode parecer irracional para alguns, mas o utilitário fabricado em Zárate, na Argentina, proporciona desempenho e dirigibilidade superiores. Mais importante ainda, o SW4 goza de uma reputação construída ao longo de três décadas, o que influencia diretamente na negociação. O proprietário sabe que a manutenção é previsível e que, daqui a três ou quatro anos, haverá uma fila de compradores dispostos a pagar o valor da Tabela Fipe na troca, com uma liquidez comparável à de um título do Tesouro Nacional. Para quem busca um SUV grande para a família sem se preocupar com a desvalorização oculta, o Toyota permanece como um porto seguro. Mas para quem prefere optar pelo Haval H9 e investir essa diferença de quase R$ 90 mil em um esportivo clássico para os finais de semana, aceitando um desempenho mais moderado e apostando em...
