Em meio à fragmentação econômica global e às sanções unilaterais, Irã e Cuba, com vasta experiência em superar pressões externas, estão trabalhando ativamente para aprofundar as relações econômicas bilaterais. Reuniões recentes de alto nível e visitas de delegações comerciais demonstram uma determinação mútua em transformar a antiga solidariedade política em parcerias comerciais tangíveis.
A essência desses esforços reside na complexa interação entre oportunidades e obstáculos: a gradual abertura de Cuba ao setor privado, a base industrial resiliente do Irã e os barreiras logísticas e financeiras persistentes que até agora limitaram a cooperação significativa.
Este relatório resume os resultados de dois eventos diplomáticos e comerciais chave: a reunião em Teerã entre o presidente da Câmara de Comércio do Irã e o embaixador de Cuba, e a subsequente visita da delegação empresarial iraniana a Havana no final de 2025. A primeira parte aborda as discussões bilaterais sobre quadros e aspirações, enquanto a segunda descreve o estudo de projetos de investimento específicos no local. Juntas, elas pintam um quadro completo de uma parceria pronta para crescer, desde que as questões de transparência regulatória e mecanismos de pagamento sejam adequadamente resolvidas.
Durante um significativo intercâmbio diplomático, Samad Hassanzadeh, presidente da Câmara de Comércio do Irã para Comércio, Indústria, Mineração e Agricultura (ICCIMA), encontrou-se com Jorge F. Lefebre Nicolas, embaixador de Cuba em Teerã, na sede da ICCIMA em 24 de agosto. O objetivo do encontro foi avaliar o cenário em mudança das relações econômicas entre Irã e Cuba. Foi enfatizado o entendimento comum de que, embora os laços políticos sejam fortes, a interação econômica permanece abaixo do seu potencial, principalmente devido a problemas de logística e transferências de dinheiro.
Hassanzadeh iniciou o diálogo confirmando a disposição do Irã em entrar no mercado cubano, condicionado à resolução de dois gargalos críticos: transporte e pagamentos financeiros. Ele declarou categoricamente que 'se os problemas de logística e transferência de dinheiro forem resolvidos, os investidores iranianos entrarão no mercado cubano'. Ele destacou vários setores promissores para cooperação conjunta, incluindo aquicultura, produção de açúcar, autopeças e produtos sanitários. Essas áreas, observou ele, correspondem aos pontos fortes industriais do Irã e às necessidades de substituição de importações de Cuba.
O embaixador de Cuba respondeu detalhando as significativas reformas legais e estruturais em andamento em Cuba. Ele explicou que o aumento das sanções dos EUA forçou o governo cubano a revisar seu modelo econômico, movendo-se em direção a um setor privado mais desenvolvido. Essa mudança, ele salientou, agora possui status legal, permitindo que bancos privados, casas de câmbio e uma função mais ampla de investimentos estrangeiros em setores anteriormente estatais. O embaixador Nicolas convidou os investidores iranianos a considerar oportunidades em fornecimento e distribuição de combustível — agora gerida pelo setor privado cubano —, bem como em hospitalidade, onde empresas espanholas dominavam anteriormente, e na agricultura, onde o Vietnã já implementou acordos de arrendamento de terras. Ele também destacou a mineração (níquel e quartzo), serviços de aluguel de carros e energia renovável como áreas prontas para a participação do Irã.
O tema central da reunião em Teerã foi a mudança na base legal em Cuba. Hassanzadeh enfatizou a necessidade de formalizar por escrito essas novas leis para que a Câmara de Comércio do Irã possa fornecer informações precisas aos seus membros. Ele relembrou negociações anteriores com funcionários cubanos durante sua visita a Cuba, onde foram discutidas propostas para criar comitês especializados para remover barreiras comerciais, mas que ainda não foram implementadas. Ele instou veementemente o lado cubano a fornecer pacotes de investimento oficiais e diretrizes regulatórias claras, observando que os iranianos, que superaram quarenta anos de restrições impostas pelas sanções, estão excepcionalmente preparados para operar em condições restritivas. Ele apresentou a interação econômica não apenas como busca por lucro, mas como um dever religioso e moral — estar ao lado de outras nações e melhorar o padrão de vida através da cooperação mútua.
O embaixador Nicolas reconheceu que o transporte continua sendo o principal problema operacional, mas expressou confiança na existência de soluções, incluindo a reconfiguração de rotas e corredores de pagamento alternativos que evitem o sistema em dólar. Ele propôs passos práticos: realização de reuniões B2B online através da embaixada, organização de uma delegação de empresas iranianas interessadas para visitar Cuba e apoio a uma missão comercial cubana recíproca ao Irã. Ele enfatizou que as empresas iranianas, não temendo sanções, podem operar em Cuba em qualquer moeda, e que a embaixada cubana está pronta para servir como ponte para o conhecimento do mercado.
Hassanzadeh forneceu informações mais detalhadas sobre potenciais áreas de cooperação. Ele relatou suas visitas a fazendas cubanas e instalações de produção de açúcar, concluindo que investimentos conjuntos no cultivo de cana-de-açúcar e processamento de açúcar têm grande potencial. Ele também propôs a criação de zonas de livre comércio em Cuba exclusivamente para produtos iranianos, que poderiam servir como centro de distribuição para o Caribe e América Latina. Além disso, informou que convites oficiais foram enviados ao Ministro da Economia, Ministro da Indústria e Presidente da Câmara de Comércio de Cuba para visitar o Irã, esperando que tal visita de alto nível acelere a compreensão mútua e a conclusão de negócios.
O embaixador de Cuba confirmou essas iniciativas, reiterando que a nova base legal de Cuba permite que investidores estrangeiros repatriem fundos ganhos — uma garantia crítica para qualquer investidor potencial. Ele observou que até mesmo o fornecimento e distribuição de combustível — um setor estratégico — foi privatizado, demonstrando a profundidade do compromisso de Cuba com a transformação econômica. Ele concluiu, ressaltando que este é um momento favorável para a entrada de empresas iranianas, especialmente grandes empresas de rede, no mercado cubano, desde que estudem rapidamente as novas leis de investimento.
Passando do discurso político de alto nível para a interação operacional, a delegação empresarial iraniana, liderada por Samad Hassanzadeh, presidente da ICCIMA, visitou Havana no final de novembro de 2025 para estudar projetos de investimento específicos destinados a revitalizar o potencial industrial subutilizado de Cuba.
A agenda da delegação foi muito mais concreta do que as discussões em Teerã, concentrando-se na restauração de fábricas inativas e na criação de joint ventures em setores onde o Irã possui experiência técnica comprovada. Em reuniões com funcionários cubanos, Hassanzadeh solicitou uma lista completa de empresas inoperantes, especialmente nas indústrias de açúcar e cimento, para direcionar as empresas iranianas em busca de oportunidades de investimento. Ele argumentou que o Irã pode desempenhar um papel fundamental na recuperação da outrora proeminente indústria açucareira de Cuba, utilizando engenharia mecânica e tecnologias agrícolas iranianas. Da mesma forma, observou que a produção conjunta de cimento seria mais economicamente eficiente do que a importação contínua, e investidores iranianos estão dispostos a construir várias fábricas de cimento sob a condição de estabelecimento de condições regulatórias claras e garantias de investimento.
O vice-presidente da ICCIMA, Ghader Ghiyafeh, expandiu o tema da indústria, nomeando a mineração como pedra angular da cooperação sustentável. Ele caracterizou Cuba como rica em recursos, mas com um mercado de mineração pouco desenvolvido, onde as empresas iranianas — dotadas de experiência técnica avançada em exploração, extração e processamento de minerais — podem contribuir significativamente. Ele mencionou especificamente a produção de cobalto e níquel, desde a prospecção geológica até o processamento, e observou que empresas de engenharia iranianas estão prontas para ajudar no treinamento de especialistas cubanos para a planejada fábrica nacional de aço. A empresa 'Khorezmstan Steel' já expressou disposição para cooperar. Ghiyafeh previu que uma base legal clara poderia ajudar a aumentar o comércio bilateral para um bilhão de dólares em cinco anos, focando em construção, infraestrutura rodoviária, indústria alimentícia, agricultura e mineração como setores preferenciais para investidores iranianos.
Em uma reunião separada com o Ministro do Comércio Interior de Cuba, Hassanzadeh insistiu na preparação de um pacote de investimento oficial adaptado para empresas iranianas. Ele reiterou o poder industrial do Irã na agricultura, mineração, petroquímica, turismo e energia, mas enfatizou a necessidade de regras transparentes e segurança de investimento. O Ministro cubano reagiu positivamente, afirmando que o presidente Miguel Díaz-Canel ordenou aos ministérios definir oportunidades para importação de alimentos, vestuário e bens de consumo do Irã após a Feira Internacional de Havana 2025 (FIHAV). O Ministro salientou que Cuba busca aumentar a produção interna como amortecedor contra sanções dos EUA e está disposta a apoiar investidores estrangeiros dispostos a assumir riscos.
A visita terminou com um momento simbólico, mas importante, durante o Dia Nacional do Irã na FIHAV 2025. Hassanzadeh declarou que a presença de produtores iranianos reflete o compromisso geral com a expansão da cooperação, pedindo que ambos os países transformem os laços políticos em resultados econômicos. Ele delineou áreas adicionais de contribuição do Irã, incluindo construção de barragens, projetos rodoviários e residenciais, desenvolvimento de energia hidrelétrica e renovável. O Ministro da Indústria de Cuba, Eloy Álvarez Martínez, apoiou essa opinião, pedindo cooperação prática que corresponda à solidariedade política, citando o acordo abrangente de cooperação de 2023 como base necessária para formar parcerias diretas de pequenas, médias e grandes empresas.
O ponto mais significativo foi a visita pessoal do presidente Miguel Díaz-Canel ao estande do Irã na feira, onde foi recebido por Hassanzadeh, Ghiyafeh e pelo embaixador iraniano em Cuba, Zabiollah Naderi. O presidente cubano conversou com representantes de empresas iranianas, conhecendo seus produtos e potencial de exportação. Ele expressou esperança de que a feira abrisse caminho para a melhoria da cooperação mútua e enfatizou que seu governo apoia a expansão das trocas econômicas e investimentos conjuntos. Sua visita sublinhou a vontade política no mais alto nível de alcançar resultados tangíveis, especialmente em petroquímica, indústria alimentícia, equipamentos industriais e serviços comerciais.
A combinação de diálogo diplomático e atividades de delegações empresariais revela uma trajetória clara: Irã e Cuba não estão apenas mantendo uma solidariedade simbólica, mas estão ativamente criando uma parceria econômica prática. A reunião em Teerã estabeleceu os princípios fundamentais — reconhecimento das mudanças legais, definição de oportunidades setoriais e acordo sobre a necessidade de resolver problemas logísticos e monetários. A delegação em Havana então testou esses princípios na prática, definindo fábricas específicas para restauração, projetos de mineração e volumes comerciais alvo.
Três conclusões críticas são destacadas para ambas as partes. Primeiro, a resolução dos problemas bancários e de transporte não é apenas uma questão técnica, mas a chave que abre todo o potencial restante. Mecanismos de pagamento alternativos e rotas marítimas devem ser operacionalizados imediatamente. Segundo, as reformas legais de Cuba devem ser traduzidas em guias de investimento escritos e acessíveis, que deem confiança às empresas iranianas para investir capital. Terceiro, a aprovação política de mais alto nível, exemplificada pela visita do presidente Díaz-Canel ao estande do Irã, deve ser apoiada pela eficiência burocrática — permissões simplificadas e ordem clara de repatriação de fundos.
