O projeto A Casa das Memórias, desenvolvido pelo Studio Lagom, surgiu da intenção de progredir no tempo atendendo às necessidades atuais, ao mesmo tempo em que preserva as lembranças familiares e honra suas origens. Esta residência está situada em um terreno de 50 por 17 metros na cidade de Valsad, um local caracterizado por belas áreas agrícolas e lagoas de lótus, o que valoriza o contexto geográfico local.
O novo projeto ocupou o espaço da antiga moradia da família, uma estrutura de 22 cômodos que servia tanto como habitação quanto como escritório, localizada próxima a um pequeno poço. Os proprietários haviam adquirido este imóvel de um senhor parsi, que incluía mobiliário de madeira de qualidade. Apesar do grande número de cômodos, eles eram pequenos e a disposição espacial carecia de funcionalidade. Com o avanço da idade dos moradores, incluindo um com mobilidade reduzida, tornou-se essencial e urgente a mudança para uma casa moderna, desenhada com acessibilidade universal e livre de barreiras.
A equipe do Studio Lagom foi envolvida no projeto após a construção das fundações para uma estrutura convencional. Os arquitetos conceberam a casa de maneira distinta e, seguindo a preferência da clientela, que viajava frequentemente, optaram por uma estrutura de alvenaria estrutural, utilizando tijolos aparentes. Foi criada uma narrativa centrada no poço, celebrando-o como um ponto positivo. Assim como no arranjo anterior, o edifício manteve uma área residencial e um espaço de trabalho adjacente.
A presença arquitetônica da edificação é notável, mas permanece integrada ao ambiente circundante. O bloco destinado ao escritório possui uma interação mais ativa com a rua, sendo parcialmente obscurecido por um portão principal inspirado nas persianas de uma escrivaninha de tambor. A fachada frontal do escritório é definida como uma caixa de concreto adornada com ripas de teca, cujas linhas e cantos são suavizados por vegetação estrategicamente plantada no topo, que transborda pelas tiras de madeira. A entrada do escritório é discreta, situada em um bloco mais estreito ao lado do principal. Ao lado deste, encontra-se o acesso à área residencial, que está recuada em uma caixa de concreto vazada e sinalizada por uma grande porta tradicional entalhada.
Ao atravessar essa peça de artesanato e seguir por um caminho margeado por vegetação e vasos birmaneses (parte da coleção dos clientes), chega-se à própria casa. O programa da residência está disposto em formato de «C», envolvendo cômodos que se abrem para um pátio verdejante que contém um lago de lótus e o poço em uma de suas laterais.
O pavimento térreo acomoda a sala de estar, descrita como um templo inserido em um espelho d'água, a área de jantar, a cozinha e dois dormitórios. O andar superior oferece duas amplas suítes principais (a do casal e a do filho, ambas com vista para o pátio), uma sala íntima e um quarto de hóspedes. Os dois andares são conectados por uma escada que se desenvolve sem apresentar apoios verticais visíveis.
O projeto enfatiza fortemente a fusão entre o interior e o exterior, utilizando janelas de veneziana de diferentes tamanhos, aberturas pontuais e claraboias para gerar um ambiente envolvente, otimizado pela luz solar e pelo paisagismo. Cada cômodo se conecta ao exterior, seja através de um jardim ou de um terraço exuberante, reforçando o caráter biofílico do planejamento. Por exemplo, o quarto principal abre-se para um terraço privado, atendendo ao gosto dos moradores por receber convidados e praticar culinária.
Da mesma forma, o escritório do quarto do filho tem vista para a copa redonda de um jasmim-manga próximo ao poço e para o restante do pátio. Nos espaços privados dos membros mais velhos da família — os pais e o tio do cliente —, o bambu cultivado no local serve de cenário para seus aposentos. Detalhes sutis, como a abertura horizontal rente ao chão em formato de «L» com vedação de vidro na sala de estar, contribuem para manter a linha de visão de quem está sentado, direcionando o olhar para o lago de lírios posicionado logo atrás.
A percepção de estar ao ar livre é alcançada gradualmente, através da combinação de áreas internas integradas a espaços abertos, zonas semicobertas e recantos externos, permitindo que os residentes desfrutem da casa em seu próprio ritmo. Isso é evidente na área de jantar, que está situada entre um jardim interno com iluminação zenital e o lago de lírios integrado ao pátio central. Uma série de esquadrias tipo camarão com venezianas permite modular essa conexão entre o espaço fechado e o externo em diferentes intensidades.
A escolha dos materiais é sincera, incorporando a essência intrínseca dos elementos em uma narrativa rica e multifacetada. O esquema inicial solicitado — tijolo aparente, pedra Kota e madeira — foi complementado com concreto (em acabamentos polido e granilite) para adicionar modernidade ao projeto. Os elementos de madeira empregados foram recuperados da antiga residência, como esquadrias, armários e vigas, ou adquiridos como madeira de demolição. Em suma, a casa exibe um equilíbrio delicado entre criatividade e funcionalidade na incorporação dos itens da antiga moradia ao novo lar.
A maior parte dos closets, por exemplo, utiliza portas da casa antiga dispostas ritmicamente, complementadas por painéis de madeira conforme a necessidade. De maneira similar, a escada atual incorpora os degraus de madeira da anterior, embutidos em blocos de concreto maiores para aumentar a largura, enquanto portas e estruturas antigas de armários foram transformadas em móveis de armazenamento autônomos, agora apoiados sobre pés de latão. Uma consideração consciente também se manifesta no aproveitamento de sobras de materiais para o revestimento dos terraços.
O reaproveitamento e a reciclagem de componentes antigos, somados às paredes de tijolos sem reboco, estão alinhados ao objetivo de clientes e profissionais de arquitetura de construir uma residência sustentável. O uso de energia solar e a coleta de água da chuva são outras iniciativas que compõem essa proposta.
A inclusão de objetos da antiga casa, misturados a uma seleção de peças compradas, confere singularidade e profundidade histórica a cada ambiente. Itens como uma antiga cama de dossel, um guarda-roupa de madeira presente de casamento dos pais do cliente, relógios antigos, antiguidades, assentos vintage e um charpoy antigo, entre outros, harmonizam-se com colunas do sul da Índia com capitéis decorados, peças ornamentadas de embarcações e objetos de arte esculpidos em madeira vindos de diversas regiões do país. Essa abordagem não só personaliza cada cômodo, mas também enriquece a dinâmica da narrativa geral.
Diferentes gêneros de arte original — abstrata, figurativa, folclórica indiana e contemporânea — meticulosamente escolhidos por toda a Índia, adicionam seu próprio charme à residência. Uma longa parede de tijolos paralela à área social, atrás de um espelho d'água linear, delimita o espaço de trabalho da área residencial. Esta estrutura, apelidada de «parede de tijolos dançantes» pela equipe de arquitetura, apresenta tijolos assentados em ângulos variados e níveis de projeção em relação ao plano da parede, criando uma superfície texturizada e perfurada. Sua beleza tridimensional é acentuada pela luz solar que penetra pela claraboia superior. Esta é uma solução estratégica pensada para permitir a ventilação entre os blocos residencial e comercial sem comprometer a privacidade da casa. Do lado oposto, existe um pátio paisagístico linear repleto de vegetação, atuando como outra zona de transição para separar as duas áreas.
No escritório, uma escada helicoidal funciona como um ponto focal perto da entrada. Ela está posicionada entre uma divisória de vidro que separa a casa do escritório e uma estante vazada que protege a área de trabalho da visão direta. Sete janelas, também herdadas da antiga casa, parecem flutuar na face transparente desta última divisória, uma solução que novamente garante a privacidade da residência perante os visitantes do escritório. O espaço de trabalho compartilha a mesma atmosfera da casa, utilizando a mesma materialidade e móveis de época — embora estes, especificamente no escritório, sejam peças novas. Mais do que uma mera residência, A Casa das Memórias configura-se como uma entidade viva, um sistema que une estética, funcionalidade e harmonia com o estilo de vida, o passado e o presente de seus habitantes.



