O mercado imobiliário chinês, que outrora foi o principal motor do rápido crescimento econômico do país, transformou-se em um de seus problemas mais sérios. Este setor, que estimulou a demanda, o emprego e o acúmulo de patrimônio por décadas, está atualmente passando por uma desaceleração pelo sexto ano consecutivo. As consequências desta crise são sentidas não apenas por milhões de famílias na China, mas também afetam a estratégia econômica geral do país e o comércio mundial.
A crise no mercado imobiliário chinês ganhou mais destaque após um tribunal chinês condenar, no mês passado, o bilionário aposentado Hui Kaian, fundador da China Evergrande, à prisão perpétua. Ele foi acusado de abuso de fundos e suborno. A sentença sublinhou a profundidade da crise no setor imobiliário chinês para o mundo todo.
No entanto, o problema da Evergrande não é um caso isolado de uma única empresa. Mais de seis anos após os reguladores financeiros intensificarem o controle sobre construtoras endividadas, o mercado imobiliário ainda não encontrou estabilidade. Milhões de casas inacabadas permanecem em todo o país. As vendas de terras continuam a enfraquecer, e o ritmo de construção e implementação de novos empreendimentos residenciais está diminuindo. Mesmo nas grandes metrópoles, como Pequim e Xangai, a dinâmica do aumento dos preços de novas moradias desacelerou.
A situação em cidades menores e menos desenvolvidas tornou-se ainda mais difícil. Em várias dessas cidades, o custo de moradias usadas caiu cerca de um quarto em comparação com os níveis de 2020, o que levou à diminuição do valor dos ativos familiares e ao enfraquecimento do poder de compra da população. Como resultado, o mercado imobiliário, antes considerado a base do consumo interno da China, agora exerce pressão sobre a atividade econômica.
No trimestre encerrado em junho, a economia chinesa cresceu 4,3% em comparação com o mesmo período do ano anterior, o que foi o crescimento mais lento em três anos. Assim, a crise habitacional ultrapassou o setor imobiliário, afetando os gastos do consumidor, as receitas dos governos locais, os investimentos e o emprego.
Alguns analistas acreditam que o potencial para uma queda adicional nos preços do mercado imobiliário chinês permanece significativo. Uma das estimativas sugere uma possível redução adicional nos preços das moradias de cerca de 40%. Se isso acontecer, exercerá pressão adicional sobre as famílias cujos ativos estão amplamente ligados ao setor imobiliário.
Esta crise também reflete a mudança na estratégia de desenvolvimento da China. Sob a liderança do presidente Xi Jinping, o governo está enfatizando o redirecionamento de capital do setor imobiliário para a produção estratégica, indústrias de alta tecnologia, veículos elétricos, baterias, energia solar e outros setores em desenvolvimento.
No entanto, essa transição tem seu preço: em meio ao enfraquecimento da demanda interna, a economia chinesa depende cada vez mais das exportações. Após 2019, o superávit comercial da China aumentou mais do que o dobro. O crescimento das exportações chinesas intensificou as tensões comerciais com a União Europeia e os EUA, gerando um novo problema global — o 'China Shock 2.0'. Há o receio de que a capacidade industrial excessiva da China e o crescente volume de exportações possam pressionar as indústrias locais em muitos parceiros comerciais, incluindo países do Sul Global.
Assim, a crise habitacional na China deixou de ser apenas um problema de construtores, bancos ou habitação; tornou-se uma narrativa sobre a mudança do modelo econômico do país. Este modelo, que anteriormente se apoiava na demanda interna e no setor imobiliário, está agora em transformação em direção à produção estratégica e às exportações.
