O coordenador residente interino da ONU na Venezuela solicitou apoio a Portugal e ao povo português, destacando a importância de auxílio com meios de subsistência. Ele mencionou que empresas poderiam auxiliar empregando pessoas que perderam seus postos de trabalho ou moradias, além de organizações no setor social e educacional poderem oferecer suporte a quem perdeu tudo.
Álvaro Rodríguez, que também atua como coordenador humanitário da ONU, informou que a atuação da organização tem aumentado significativamente no país, especialmente após os dois terremotos ocorridos em 24 de junho.
Rodríguez detalhou que o trabalho da ONU possui duas frentes principais. A primeira foca em questões de médio e longo prazo, visando orientar o governo, o setor privado e as comunidades rumo aos objetivos de desenvolvimento sustentável, conforme estabelecido pelas Nações Unidas como um quadro de cooperação essencial.
A segunda vertente é a humanitária, que ganhou muita força nas últimas semanas, concentrando-se em suprir todas as necessidades decorrentes dos tremores, tais como alimentação, assistência médica, abrigo, educação, saneamento e acesso à água potável.
O coordenador enfatizou que estas duas áreas de colaboração com o governo e com os cidadãos venezuelanos representam a maior parte do foco da ONU no território.
Alertando que a percepção comum após os sismos é de melhora gradual, Álvaro Rodríguez ressaltou a urgência de continuar ajudando as pessoas. Ele observou que aqueles afetados pelos duplos sismos, que perderam familiares ou sofrem de transtornos mentais, e cujos filhos não puderam frequentar a escola, enfrentam dificuldades por longos períodos, sendo o objetivo da ONU reintegrá-los na vida diária.
Além disso, ele defendeu a necessidade de uma reconstrução feita de maneira superior. A ideia não seria apenas retornar ao estado anterior ao terremoto, que incluía habitações precárias, mas sim construir melhor para garantir a sobrevivência em boas condições caso ocorra outro evento sísmico.
Rodríguez compartilhou sua experiência ao visitar o terremoto da Turquia em 6 de fevereiro de 2023, onde 50 mil pessoas morreram, o que lhe deu uma noção clara de encontrar edifícios destruídos e pessoas ainda procurando parentes. Ele descreveu a dificuldade de testemunhar tal cenário e imaginar que essas pessoas teriam que recomeçar a vida após tanto sofrimento.
O coordenador da ONU acrescentou que, embora as imagens transmitidas pela televisão ajudem a ilustrar a catástrofe para o exterior, elas não capturam a dimensão humana da tragédia. Ele afirmou que, ao conversar com muitas pessoas, especialmente em campos de refugiados, percebe-se que o que viveram e o que estão vivenciando permanecerá em suas memórias para sempre, citando o trauma de quem ficou sozinho ou perdeu toda a família.
Álvaro Rodríguez expressou preocupação com a possibilidade de o desastre na Venezuela deixar de ser noticiado internacionalmente, mesmo que permaneça presente no cotidiano das pessoas. Ele salientou que, apesar da mudança constante do mundo e de outras tragédias, o trabalho continuará no país, pois os setores público e empresarial, trabalhadores, ONU, doadores e embaixadas jamais esquecerão o ocorrido.
Sobre o financiamento, ele admitiu que é sempre desafiador obter todos os recursos necessários para uma resposta sistêmica a uma catástrofe. No caso da Venezuela, ele destacou a grande contribuição do governo e do povo dos Estados Unidos, o que oferece uma ótima chance de cumprir metas de reconstrução nos próximos seis meses. Além de apoiar as vítimas dos sismos, os EUA também contribuem para programas humanitários em outras regiões do país devido a problemas causados por chuvas excessivas, tendo fornecido uma quantia generosa de cerca de 200 milhões de dólares.
Os duplos sismos de 24 de agosto provocaram sérios danos em infraestruturas, feridos e mortes em sete estados da Venezuela: Caracas, Miranda, Arágua, Carabobo, Lara, Yaracuy e La Guaira, sendo este último o mais afetado. De acordo com o último balanço oficial, 6.438 pessoas faleceram e 86.358 foram atendidas em hospitais após os sismos. Entre os falecidos, há pelo menos 138 portugueses e lusodescendentes.
