A atitude preconceituosa tornou-se um sério problema para os estudantes LGBT+ nas escolas de Cabo Verde. Um dos afetados, Edilson da Graça, relatou um incidente traumático em que colegas o agarraram e arrastaram pelo chão durante uma brincadeira no parquinho, resultando em múltiplos hematomas e hospitalização inconsciente. Essa experiência afetou profundamente seu estado psicológico.
Desde muito cedo, na escola primária, Edilson começou a perceber sua 'diferença' e se tornou vítima de bullying, que persistiu na escola secundária. Nesse período, ele não tinha a oportunidade de falar abertamente sobre os problemas familiares; ele recebeu apoio principal de algumas colegas de classe e de uma professora, que se tornou uma fonte crucial de ajuda durante crises de ansiedade.
Edilson observou que nem todos os professores reagiam da mesma forma, e alguns até demonstravam a ele aversão. No entanto, apesar da agressão, ele nunca parou de frequentar a escola. Aos 18 anos, ele tomou a decisão de aceitar sua identidade transgênero depois de sentir que estava vivendo uma 'vida secreta'. Hoje, aos 25 anos, ele continua a enfrentar preconceitos, mas acredita ter aprendido a lidar com eles de maneira diferente, transformando esse preconceito em força.
Ele insiste que as escolas devem ter regras claras para combater a discriminação, incluindo proteção legal para as vítimas. Edilson enfatizou que todos devem viver livremente, considerando isso tão natural quanto respirar, e acrescentou que as mudanças devem abranger também as famílias para aumentar o respeito à diversidade.
Matias Antunes, um gay de 49 anos, também compartilhou memórias de preconceito escolar. Ele percebeu que era 'diferente' aos 13 anos e frequentemente sofria assédio por parte de rapazes. Um dos momentos mais marcantes foi um insulto durante a preparação para uma festa escolar, quando um rapaz o humilhou por decorar a sala de aula com outras alunas.
Matias acredita que a violência física afeta mais os homens, embora se lembre de casos em que lésbicas em sua escola eram vítimas. Jailson Barbosa, um homossexual de 33 anos, enfrentou problemas semelhantes desde o ensino primário. No ensino secundário, era ridicularizado, especialmente quando vestia roupas consideradas femininas pelos colegas. Uma vez, foi empurrado de uma escada, e seu braço ficou muito inchado. Ele recorda que, após isso, os mesmos colegas o ameaçaram, fazendo com que ele tivesse medo de ir à escola e ser atacado.
Jailson apresentou uma queixa à administração, mas não pretendia abandonar os estudos, contando com o apoio de alguns professores. Atualmente, ele considera que há mais informação nas escolas e que elas estão melhor preparadas, mas defende a continuação do trabalho em empatia e respeito.
A experiência de Edilson, Jailson e Matias abrange diferentes gerações, mas une-os na escola como um dos primeiros lugares onde sentiram preconceitos. A professora Carla Barbosa reconhece que as situações discriminatórias continuam, notando uma tendência especial em relação a rapazes com comportamento considerado feminino. Na opinião da professora, parte desse comportamento está ligada a concepções tradicionais de papéis de gênero. Essas normas também podem se aplicar a raparigas que não correspondem às expectativas tradicionais de comportamento feminino, incluindo jovens lésbicas, embora os relatórios de violência física coletados pela Lusa se refiram principalmente a homens.
Neste sentido, Carla Barbosa afirma que a educação deve envolver professores, famílias e a sociedade, pois 'a escola não trabalha sozinha. A escola é três pilares: família, sociedade e a própria comunidade educacional.'
Sandra Tavares, presidente da Associação LGBT+ na capital de Cabo Verde, reporta que a organização recebe regularmente denúncias de discriminação no setor educacional, incluindo insultos, bullying e ataques, embora não haja estatísticas oficiais. Ela aponta que alguns casos forçaram os jovens a evitar ou deixar a escola completamente. A associação também acompanhou casos em que, após a agressão, foi necessária a intervenção da Polícia Nacional para prevenir novos ataques, e outros casos foram encaminhados para acompanhamento psicológico.
Sandra Tavares defende uma abordagem abrangente, combinando informação, apoio psicológico e intervenção tanto em relação às vítimas quanto aos agressores, incluindo a implementação de um protocolo nas escolas para resposta rápida à discriminação.
Mariza Carvalho, presidente do Instituto de Igualdade e Paridade de Género de Cabo Verde (ICIEG), admite que os preconceitos contra pessoas LGBT+ permanecem 'muito visíveis' nas escolas de Cabo Verde, embora o instituto não mantenha um registro oficial de reclamações. O ICIEG coleta relatórios principalmente durante eventos de conscientização e treinamento, alguns dos quais se referem a eventos da infância. O instituto colabora com organizações civis e parceiros espanhóis no treinamento de professores sobre temas de orientação sexual, identidade de gênero, preconceitos e discriminação. Mariza Carvalho declara: 'É necessário levantar esses temas, denunciar casos de discriminação e perseguição.'
Em julho, a organização Altihay Fuerteventura - Coletivo LGBT+ das Ilhas Canárias anunciou a segunda fase de treinamento em escolas após professores cabo-verdianos relatarem preconceitos contra alunos. O projeto, implementado em parceria com o Ministério da Educação, começou em novembro de 2025 e já abrangeu professores nas ilhas Santo Antão, Sal, São Vicente, Santiago e Maio. A segunda fase planeja expandir-se para outras ilhas a partir de outubro.
