Queda de financiamento global impacta programas de proteção infantil em Moçambique e outros países
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Queda de financiamento global impacta programas de proteção infantil em Moçambique e outros países

Uma nota analítica emitida pelo Global Protection Cluster (GPC), plataforma internacional de coordenação da proteção humanitária, analisou o efeito dos cortes de financiamento nos programas de amparo infantil em cenários de crise. Este estudo foi complementado por uma pesquisa realizada entre março e maio de 2026, envolvendo organizações humanitárias em 22 operações, abrangendo Moçambique, Somália, Nigéria, República Democrática do Congo, Síria, Ucrânia e Afeganistão, coletando 786 respostas, das quais 391 relataram prejuízos diretos aos programas de proteção infantil.

Os dados revelaram que 48,5% dos participantes no mapeamento de capacidades apontaram impactos na proteção infantil. Além disso, 87% dos agentes afetados mencionaram perdas ou diminuições de pessoal de linha de frente, 84% relataram redução de serviços ou atividades, 78% indicaram perda de alcance geográfico e 74% observaram menor interação com as comunidades assistidas.

Em Moçambique, o levantamento identificou oito respostas ligadas a problemas na capacidade de proteção infantil, o que corresponde a 3,3% do total de ocorrências relacionadas à redução de pessoal em programas de gestão de casos. O país teve o mesmo número de respostas que a Ucrânia, ficando atrás de contextos como Somália, Nigéria, República Democrática do Congo, República Centro-Africana, Mali e Iémen.

Embora o relatório não ofereça uma análise detalhada da situação moçambicana — que enfrenta insurgência armada em Cabo Delgado desde 2017, além de ciclones e inundações que geraram milhões de deslocados —, ele inclui o país entre aqueles onde foram documentadas perdas de pessoal de campo, supervisão técnica, coordenação, gestão de informações e conhecimento especializado na área de proteção infantil.

O GPC concluiu que os recortes financeiros estão prejudicando funções cruciais para a salvaguarda das crianças, tais como gestão de casos, reunificação familiar, suporte psicossocial, acompanhamento de violações, prevenção comunitária e sistemas de encaminhamento para ajuda especializada.

A nota ressalta que as entidades locais e nacionais são as mais atingidas pelos cortes orçamentários, representando 43,9% das respostas sobre impactos na proteção infantil. De acordo com o GPC, a desestruturação dessas organizações implica não só uma diminuição de serviços, mas também o colapso de redes comunitárias, saberes locais e laços de confiança essenciais para os mecanismos de proteção infantil em ambientes humanitários.

Em uma visão mundial, os maiores impactos foram registrados na Somália, Nigéria, República Democrática do Congo e Síria, nações marcadas por conflitos bélicos, deslocamentos forçados ou crises humanitárias estendidas. O relatório adverte que os sistemas de proteção infantil já operavam sob grande tensão antes dos cortes financeiros, e a escassez de recursos ameaça a capacidade de identificar, monitorar e auxiliar crianças expostas a violência, exploração, separação familiar ou outras transgressões de direitos.

A conclusão do documento é que a crise de financiamento não é um problema passageiro, mas sim um fator que enfraquece estruturas inteiras de proteção infantil, incluindo equipes técnicas, sistemas de vigilância, mecanismos de referência e cobertura territorial, cujas reconstruções podem levar anos.

Adicionalmente, um relatório das Nações Unidas aponta que Moçambique registrou 552 violações graves contra 355 crianças em 2025, concentradas principalmente em Cabo Delgado. Este relatório alerta para sequestros, alistamento forçado, violência sexual e ataques a escolas cometidos por grupos insurgentes.

O mais recente informe do secretário-geral das Nações Unidas sobre Crianças e Conflitos Armados, apresentado em junho à Assembleia Geral e ao Conselho de Segurança da ONU, coloca Moçambique entre os países onde os menores continuam a enfrentar consequências diretas da violência armada.

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