Arqueólogos descobriram uma enorme cápsula do tempo contendo mais de meio milhão de sementes antigas na parte oriental da Índia. Estas descobertas revelam como as pessoas sobreviveram e prosperaram ao longo de três milênios, superando mudanças climáticas e a mudança de impérios.
O estudo, conduzido por cientistas do Instituto de Paleociências Birbal Sahni e do Serviço Arqueológico da Índia, analisou restos vegetais carbonizados em um sítio chamado Uren, localizado em Bihar. Ao estudar essas evidências microscópicas da história, a equipe conseguiu mapear uma história agrícola contínua que abrange o período da Idade do Ferro em 1300 a.C. até a Alta Idade Média em 1200 d.C.
Esta descoberta fornece uma visão mais detalhada de como os primeiros agricultores na planície do Ganges desenvolveram sistemas intensivos de cultivo de arroz que ainda hoje sustentam milhões de pessoas na região.
Os pesquisadores determinaram que os antigos habitantes de Uren praticavam a policultura, cultivando diferentes culturas no verão e no inverno para garantir um suprimento alimentar constante. Nas camadas mais antigas do sítio, datadas de 3000 anos atrás, a comunidade dependia de uma combinação equilibrada de culturas de inverno, como cevada, trigo e lentilhas, juntamente com culturas de verão, incluindo arroz e milheto.
No entanto, à medida que os séculos passavam e o poder dos grandes impérios indianos, como Maurya e Gupta, aumentava, os pesquisadores registraram uma transição acentuada para o cultivo de arroz. Por volta do período Sunga-Kushan, em cerca de 200 a.C., o arroz tornou-se a cultura principal dominante, constituindo a grande maioria das sementes encontradas. Essa mudança indica que as sociedades antigas estavam intencionalmente intensificando sua agricultura, investindo em irrigação e ferramentas aprimoradas para produzir mais alimentos para cidades em crescimento.
Para rastrear os vestígios antigos, a equipe aplicou métodos de arqueobotânica. Quando os antigos cozinhavam ou limpavam grãos perto do fogo, algumas sementes caíam acidentalmente nas chamas. Em vez de se transformarem em cinzas, essas sementes foram carbonizadas ou viraram carvão vegetal, permitindo que permanecessem no solo por milhares de anos sem apodrecer.
Para extrair esses pequenos fragmentos queimados, os cientistas usaram o método de flotação: o solo das escavações era misturado em um reservatório com água. Como as sementes carbonizadas são mais leves que a lama, elas flutuam na superfície, de onde podem ser coletadas e examinadas sob um microscópio. Em seguida, os pesquisadores aplicaram a morfometria — a medição precisa da forma e tamanho das sementes — para distinguir plantas selvagens de cultivadas. Além disso, eles usaram a datação por carbono-14, que mede a decomposição de átomos de carbono, para determinar com precisão o tempo de deposição de cada camada de sementes.
Enquanto muitos sítios arqueológicos conhecidos foram estudados no Vale do Indo ou na planície superior do Ganges, a região oriental da planície do Ganges muitas vezes foi negligenciada. A maioria dos estudos anteriores nesta área fornecia apenas vislumbres de algumas centenas de anos. O sítio de Uren é único por representar uma sequência única e contínua ao longo de 3000 anos no mesmo local. Isso permitiu que a equipe visse exatamente como a agricultura mudou passo a passo à medida que o clima se tornava mais úmido ou seco.
Os cientistas puderam observar como os agricultores introduziram plantas exóticas de longe, como alho da Ásia Central e tamarindo da África, provando que esses assentamentos antigos estavam ligados a vastas redes comerciais internacionais muito antes da era moderna.
A pesquisa destaca a resiliência e a inventividade dos agricultores antigos. Há cerca de 1300 anos, a região enfrentou um clima significativamente mais seco devido ao enfraquecimento das chuvas de monções. Em vez de abandonar suas fazendas, os habitantes de Uren se adaptaram, reestruturando seus sistemas de plantio e dependendo de uma gama mais ampla de plantas resistentes à seca. Eles também construíram lagoas de irrigação e reservatórios para armazenar água para suas culturas de arroz de verão. Essa capacidade de lidar com o clima em deterioração demonstra que os antigos não se deixaram ser vítimas do meio ambiente, mas sim atuaram como inovadores ativos, encontrando maneiras de sobreviver através de soluções de engenharia e diversidade de culturas.
