Empresas de private equity tradicionalmente focam em otimizar custos, reestruturar negócios e elevar a receita das companhias em que investem. Recentemente, a inteligência artificial (IA) foi integrada a esse modelo de atuação através de uma nova iniciativa.
Blackstone e Hellman & Friedman criaram uma colaboração com a Anthropic, resultando em uma equipe composta por cerca de 160 especialistas em IA. Inicialmente, esses profissionais serão alocados em empresas que fazem parte dos portfólios dessas firmas de private equity.
Esta ação faz parte de uma joint venture avaliada em US$ 1,5 bilhão (aproximadamente R$ 8,2 bilhões) entre a Anthropic e diversas instituições de Wall Street. Além de Blackstone e Hellman & Friedman, a parceria inclui Apollo, General Atlantic e Goldman Sachs como investidores.
O projeto recebeu o nome de Ode e foi formalizado como uma entidade independente. Blackstone, Hellman & Friedman e Anthropic se comprometeram a aportar cerca de US$ 300 milhões (aproximadamente R$ 1,6 bilhão) cada no empreendimento.
Visão da Equipe Operacional
Rodney Zemmel, responsável global pela equipe operacional da Blackstone, destacou que o diferencial da equipe reside em ser composta por engenheiros seniores, e não por indivíduos recém-chegados ao campo da IA. Contudo, a ambição da Ode é expandir seus serviços para além das empresas sob controle dos fundos de private equity, visando atender também corporações externas a esses portfólios.
Essa movimentação ocorre em um contexto onde gestores estão intensificando a análise dos gastos com IA, questionando se os investimentos geram retorno efetivo. Paralelamente, há uma crescente apreensão entre os funcionários de escritórios sobre a substituição por IA, embora os executivos tenham mitigado os avisos sobre demissões em massa. Uma pesquisa da EY-Parthenon em maio indicou que apenas 20% dos CEOs acreditavam que os investimentos em IA levariam a cortes significativos de empregos, em comparação com 46% em janeiro de 2025.
Os executivos de private equity enfatizam que o foco principal da Ode será auxiliar na criação de novas linhas de produtos e no aumento da receita das empresas, e não primariamente na redução de custos.
Aplicações Tecnológicas e Crescimento
Os produtos da companhia têm demonstrado capacidade de reconhecimento de pessoas previamente autorizadas e envio de notificações aos residentes. A Ode planeja instalar mais de três milhões de câmeras de vídeo em residências neste ano, sendo que no ano anterior foram instaladas 1,7 milhão. Os engenheiros da Ode também auxiliam a Chamberlain no teste de um software capaz de compreender os hábitos familiares, como horários de chegada, e emitir alertas ao detectar padrões incomuns.
Essa estratégia está ligada à projeção de crescimento significativo da Chamberlain. A empresa prevê que seu segmento de «porteiro digital» atinja US$ 500 milhões (cerca de R$ 2,7 bilhões) em receita anual até 2030. Para o ano corrente, a meta é de US$ 100 milhões (cerca de R$ 546 milhões), superando os US$ 40 milhões (cerca de R$ 218 milhões) registrados no ano anterior.
Jeff Meredith, CEO da Chamberlain, informou ao The Wall Street Journal que, antes da formação da joint venture, a estimativa máxima para esse negócio era de cerca de US$ 160 milhões (aproximadamente R$ 874 milhões). Com todas as operações, a Chamberlain projeta superar US$ 2 bilhões (cerca de R$ 10,9 bilhões) em receita neste ano. A empresa também espera ganhar eficiência com o uso ampliado do Claude, modelo de IA desenvolvido pela Anthropic.
Um exemplo disso foi a campanha de publicidade dos novos produtos de acesso inteligente da companhia durante o Prime Day da Amazon em junho. Segundo Zemmel, essa campanha teve um custo dez vezes menor que a do ano anterior, em parte devido ao emprego de ferramentas de IA.
Em maio, a Ode expandiu sua estrutura com a aquisição da Fractional AI, uma startup especializada em serviços de IA; a maioria dos engenheiros de IA da nova empresa já vinha da Fractional AI, e a Chamberlain já possuía relacionamento comercial com a startup desde o final do ano passado.
Em outra organização apoiada pela Blackstone, a Citrin Cooperman, empresa de serviços profissionais, tem visto engenheiros da Ode desenvolvendo um portal para facilitar a interação e colaboração entre contadores e consultores financeiros com seus clientes. Da mesma forma, Hellman & Friedman implementou a Ode na Baker Tilly, uma das 30 empresas do portfólio, onde os engenheiros trabalham diretamente com líderes de auditoria.
O propósito nesse caso é mapear os fluxos de trabalho cotidianos de profissionais das áreas contábil e tributária para determinar onde a aplicação de agentes de IA pode ser expandida. A equipe da Ode também reforça o pequeno time interno de engenharia de software da Baker Tilly. As empresas pertencentes aos portfólios dos fundos de investimento remuneram os serviços da Ode por meio de contratos de consultoria ou prestação de serviços.
Apesar da conexão com os fundos de investimento, as empresas assistidas não são obrigadas a contratar a Ode. Zemmel esclareceu que a decisão de utilizar a Ode cabe às empresas apoiadas pelo private equity, dependendo da adequação ao projeto e do custo.
Portanto, a estratégia vai além da simples implementação de softwares prontos; ela consiste em inserir especialistas e engenheiros nas empresas para identificar processos passíveis de transformação, desenvolver novos produtos e descobrir oportunidades de receita. Embora a Ode tenha nascido da colaboração entre Anthropic e grandes players de Wall Street, seus planos transcendem o âmbito do private equity. Chris Taylor, CEO da Ode, afirma que o fluxo de potenciais clientes, incluindo empresas sem apoio de fundos de private equity, é «imensurável e cresce diariamente».
