Fenômeno El Niño pode elevar a temperatura média global de 2027 a níveis recordes
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Fenômeno El Niño pode elevar a temperatura média global de 2027 a níveis recordes

O El Niño previsto para 2026 está caminhando para ser o mais intenso já registrado, apresentando potencial para desencadear eventos climáticos extremos em diversas áreas do globo e possivelmente tornar 2027 o ano mais quente da história. Especialistas consultados pela AFP indicam que este fenômeno deve atingir uma magnitude sem precedentes em mais de cem anos.

O El Niño é um evento natural ligado ao aquecimento das águas do Pacífico tropical e faz parte do ciclo conhecido como Oscilação Sul-El Niño (ENSO). Ele se manifesta quando os ventos alísios, que normalmente sopram do leste para o oeste, enfraquecem temporariamente. Consequentemente, a água quente acumulada na porção ocidental do Pacífico migra para o leste e ascende à superfície.

Quando as temperaturas da superfície oceânica se mantêm acima da média por vários meses, isso favorece a formação de mais tempestades e nuvens na região, gerando alterações que afetam diferentes partes da atmosfera mundial. Michelle L’Heureux, líder da equipe de ENSO do Centro de Previsão Climática da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), alertou à AFP que eventos mais fortes implicam maior probabilidade desses impactos, embora ela tenha enfatizado que nenhum efeito é garantido.

Este fenômeno tem o potencial de causar condições mais quentes e secas em certas regiões e mais frias e úmidas em outras. Já são notáveis alguns impactos, como na Indonésia, onde uma temporada de seca prolongada e severa contribuiu para incêndios florestais que afetaram centenas de milhares de hectares.

Cálculos realizados por cientistas climáticos Zeke Hausfather e Andrew Dessler sugerem que o El Niño pode adicionar temporariamente 0,3 °C à tendência de aquecimento global de longo prazo. Assim, a temperatura média global em 2027 poderia atingir 1,76 °C acima dos níveis pré-industriais. Dessler, professor da Texas A&M University, comentou à AFP que esse aumento concentraria em um único ano o aquecimento que, sem a influência temporária do El Niño, só seria esperado para 2037, classificando-o como uma 'prévia do futuro'.

Mike McPhaden, cientista sênior do Laboratório Ambiental Marinho do Pacífico da NOAA, apresentou uma estimativa similar, afirmando à AFP que não seria improvável que 2027 alcançasse 1,7 °C acima dos níveis pré-industriais, caso as projeções dos modelos se confirmem.

Detalhes sobre a medição da intensidade

Não há um método universalmente aceito para mensurar a intensidade dos episódios de El Niño. Em fevereiro, o NOAA implementou o Índice Oceânico Relativo do Niño (RONI). Este indicador compara o aquecimento da área Niño 3.4 com o aquecimento de toda a faixa tropical do oceano, visando representar de forma mais precisa o sistema de interação entre oceano e atmosfera responsável pelos efeitos do ENSO.

Embora os valores obtidos pelo RONI sejam menores, a classificação prevista para o fenômeno permanece inalterada. Segundo a NOAA, há 69% de chance de que o El Niño de 2026 seja o mais forte de sua série histórica, que começou em 1950.

Impacto das mudanças climáticas nos eventos de El Niño

Os cientistas concordam que as alterações climáticas intensificam os efeitos causados pelo El Niño. Uma atmosfera aquecida por gases de efeito estufa consegue reter mais umidade, o que pode levar a chuvas mais intensas associadas ao fenômeno. Simultaneamente, o solo tende a secar mais, piorando as condições de estiagem em locais onde o El Niño já promove a diminuição das precipitações.

Ainda há menor consenso sobre se as próprias mudanças climáticas estão induzindo El Niños mais potentes. Contudo, evidências nessa direção estão emergindo. McPhaden declarou que 'as mudanças climáticas podem estar amplificando o próprio ciclo do El Niño'.

De acordo com o cientista, o aquecimento dos mares tropicais faz com que os ventos responsáveis pelo fenômeno reajam de maneira mais vigorosa às condições oceânicas. Isso restringe o mecanismo de realimentação entre atmosfera e oceano, permitindo que os episódios se desenvolvam com maior rapidez. McPhaden baseou essa afirmação em dados paleoclimáticos, como esqueletos de corais, além de medições instrumentais do século XIX e modelos climáticos, os quais apontam que a amplitude dos episódios de El Niño pode ter crescido cerca de 10% ao longo do último século.

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