A ideia de que o buraco gravitacional no Oceano Índico, medindo milhões de quilômetros, seria o maior do mundo é questionada por um novo achado: a Antártida possui uma anomalia ainda mais profunda.
Este cenário é possível porque a Terra não possui uma forma perfeitamente esférica, apresentando irregularidades e deformações causadas pelas variações de gravidade em diferentes áreas. Tais desvios ocorrem devido à não uniformidade da densidade interna do planeta, onde o movimento de rochas e estruturas gera forças gravitacionais distintas, definindo o que os cientistas denominam geoide.
No Oceano Índico, a atração gravitacional apresenta quedas notáveis, criando uma vasta depressão conhecida como Baixa Geoide do Oceano Índico, com aproximadamente três milhões de quilômetros quadrados. Devido à menor gravidade, o nível do mar nesta área pode estar mais de cem metros abaixo da média global.
Por anos, a origem desta cavidade gravitacional foi um mistério. Contudo, um estudo realizado em 2023 por pesquisadores do Instituto Indiano de Ciência conseguiu reconstruir a história tectônica dessa anomalia. A pesquisa indicou que a causa reside a mais de mil quilômetros de profundidade, remontando a cerca de 30 milhões de anos, quando os remanescentes do antigo Mar de Tétis afundaram sob a África, forçando rochas quentes e derretidas à superfície.
As simulações desse trabalho demonstraram que plumas de magma de baixa densidade ascenderam pelo manto terrestre, alterando a densidade local e originando a depressão gravitacional no Índico. Anteriormente, este buraco era considerado o mais profundo do planeta.
Entretanto, um artigo mais recente, publicado na revista Scientific Reports, introduziu uma mudança significativa no entendimento do mapa gravitacional terrestre. Cientistas do Instituto de Física do Globo de Paris, na França, e da Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, empregaram um método de mapeamento renovado para identificar outra dimensão do fenômeno.
Os pesquisadores analisaram dados atualizados dos satélites GRACE, em colaboração com a NASA e o Centro Alemão de Pesquisas em Geociências (GFZ), utilizando um referencial distinto. Enquanto os mapas tradicionais comparam a Terra a um elipsoide padrão, que apenas corrige o achatamento polar e a rotação, esta equipe usou um «elipsoide hidrostático», que modela a gravidade em um estado de repouso ideal. Ao eliminar esses fatores, emergiu uma visão completamente nova do manto terrestre.
Neste novo referencial, a Baixa Geoide Antártica, situada no lado oeste do continente gelado, mostrou-se mais profunda que a anomalia do Oceano Índico, redefinindo as comparações históricas entre as duas regiões. Os autores esclareceram que isso não invalida as descobertas de 2023 sobre o Índico; apenas a métrica de comparação foi alterada, sem que a força gravitacional tenha mudado em nenhum dos locais.
A anomalia sob a Antártida é muito mais antiga, datando de pelo menos 70 milhões de anos. Seu deslocamento do Atlântico Sul até a posição atual ocorreu devido a uma rápida realocação de massa no interior do planeta, um processo análogo ao fluxo de uma lâmpada de lava, impulsionado pela interação entre placas tectônicas afundadas e rochas aquecidas do núcleo ao longo de milhões de anos.
Adicionalmente, a descoberta mais recente oferece uma hipótese relevante para o clima global: as modificações na gravidade antártica podem ter provocado uma redução do nível do mar na região há cerca de 34 milhões de anos. Este declínio coincide com o início do congelamento permanente da Antártida, sugerindo que a anomalia gravitacional poderia ter criado as condições necessárias para o surgimento das primeiras calotas polares terrestres.
Embora a Baixa Geoide do Oceano Índico permaneça uma estrutura proeminente, ambas as anomalias auxiliam a ciência a compreender como o interior da Terra influencia a superfície ao longo das eras geológicas. Modelos computacionais preveem que tanto o buraco do Índico quanto o da Antártida continuarão presentes por milhões de anos futuros.
