A mediateca e a escola de música foram erguidas adjacentes a um paredão de tom ocre, conferindo-lhes uma identidade singular. O propósito do projeto era introduzir uma edificação moderna numa das cidades medievais mais belas da Europa, reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO, conhecida pelo seu labirinto de ruelas pitorescas e casarões antigos com tonalidade dourada.
Assim, o desafio consistiu em conceber uma obra arquitetónica distinta, única e duradoura, sem comprometer a essência de Sarlat-la-Canéda, capital da região do Périgord Noir, na França. Para atingir este objetivo, houve uma colaboração próxima com um arquiteto do património credenciado pelo Estado francês, facilitando a integração da rica história do local.
O terreno anteriormente ocupado por uma fábrica centenária de foie gras teve uma parede de pedra preservada, que hoje demarca a parte traseira da mediateca. Esta decisão reflete uma abordagem focada no respeito pelo ambiente circundante e na valorização das técnicas e materiais locais.
Grande atenção foi dada ao uso dos materiais para garantir que o projeto se fundisse com o terreno. A forma como as fachadas da mediateca estão fragmentadas espelha o núcleo histórico da cidade, e a cor e a textura dos seus revestimentos remetem às antigas muralhas de pedra que definem o município.
As duas estruturas, a mediateca e a escola de música, são ligadas por um pátio central. No lado sul, beneficiam-se de uma vasta praça coberta e aberta nas laterais, voltada para a natureza, apta a receber diversos eventos ao ar livre. Ao criar uma certa separação entre os edifícios, permitiu-se que a cidade assumisse posse desse espaço, revelando árvores que observam a construção de cima e realçando a notável topografia natural do terreno.
A escola de música foi instalada no antigo edifício administrativo da fábrica de foie gras, um elegante casarão burguês com área de acesso público que se liga à grande praça coberta, abrindo-se para a cidade. Foi escolhida a preservação desta construção histórica, reformulando-a para salvaguardar o seu património construído e o seu charme inegável.
Adotou-se uma estratégia de reutilização e suprimento local. Dois materiais foram reaproveitados no local: detritos de pedra, usados para restaurar a fachada existente da mediateca, e pedras, recolhidas e pressionadas contra painéis isolantes para deixarem a sua marca em moldes artesanais, que serviram de matriz para o betão moldado no local. Este betão foi produzido utilizando agregados de pedreiras próximas.
A pedra e o parque natural adjacente forçaram a mediateca a assentar contra a face do paredão, aproveitando a inércia térmica da imponente massa rochosa. Consequentemente, as distorções geométricas do plano do edifício baseiam-se nas características topográficas primárias do sítio. Além disso, foi convidada a própria rocha a fazer parte da mediateca, escavando-se uma gruta de leitura nela. A presença da rocha natural no interior da mediateca providencia um nível confortável de humidade e temperatura.
A rocha assenta sobre uma estrutura de betão armado com apoios estruturais lineares e pontuais, sendo que as fachadas e as lajes da estrutura são cruciais para a sua estabilidade. Paredes de betão armado, por vezes em balanço, seguem princípios estabelecidos de engenharia, revelando um espaço que pode ser apreciado sem obstruções visuais.
O tom ocre de Sarlat colore os espaços de leitura, que se estendem num generoso pé-direito duplo para captar a luz natural de múltiplas maneiras. Através de janelas altas e painéis de vidro, é possível observar as árvores que coroam o paredão, bem como partes da cidade histórica e o céu azul. O pátio dos funcionários, no primeiro piso, comunica-se com o hall do rés-do-chão através de divisórias envidraçadas que dispersam a luz pelos espaços de leitura. A elevada altura do teto e a estratificação do ar asseguram o conforto térmico ideal durante o verão.
No primeiro piso, um terraço público ensolarado pode ser acedido tanto pelo pátio interno quanto pelas salas de administração. Este terraço orienta-se para a cidade e dispõe de amplos bancos para momentos de pausa contemplativa no quotidiano.
Com o seu plano aberto, pátio interno, terraço e grande praça coberta, este novo complexo posiciona-se claramente como um local dedicado à comunidade local, incentivando o convívio. O espaço contribui para democratizar o acesso à cultura, atuando como um refúgio propício à descoberta e ao partilhar.
