A ideia de ter um animal de estimação é frequentemente considerada um comportamento exclusivo dos seres humanos, visto que manter, cuidar e criar laços de companhia com outra espécie requer uma combinação de tolerância, interação social e cuidado que nem sempre ocorre entre espécies distintas.
Entretanto, um estudo recente, divulgado na revista Primates, sugere que certos comportamentos presentes nessas relações podem ser observados em outros animais. Os cientistas realizaram a primeira análise completa das interações sociais entre macacos, primatas e animais de outras espécies, identificando exemplos de afeto, brincadeiras e atos de cuidado.
Para compilar este levantamento, a equipe integrou dados provenientes de artigos científicos, registros visuais (fotos e vídeos) e respostas fornecidas por especialistas em primatologia. No total, foram coletadas 427 observações: 303 oriundas da literatura científica, 58 de imagens e vídeos, e 66 de um questionário direcionado a pesquisadores.
Esses registros abrangeram 88 espécies de primatas e 127 espécies parceiras, sendo que 72 eram outros primatas e 55 pertenciam a espécies não primatas. As observações ocorreram tanto em ambientes naturais quanto em contextos controlados.
Tipos e Iniciativa das Interações
Dos 17 tipos de comportamento catalogados, os mais recorrentes foram as brincadeiras, registradas 139 vezes, seguidas pelos cuidados de higiene, com 136 ocorrências. As interações também englobaram contato físico, transporte, proximidade, abraços, partilha de alimentos e outras manifestações de aproximação. Foi possível determinar quem deu início à interação em 219 casos, sendo que o próprio primata assumiu a iniciativa em 66% dessas situações.
Existem exemplos notáveis, como macacos-prego auxiliando outros primatas, macacos interagindo com cães, macacos-japoneses caminhando sobre cervos e jovens macacos brincando com porcos domésticos. Um caso específico registrado no Brasil envolveu uma macaca-prego que adotou e amamentou um filhote de sagui.
Diferenças Comportamentais por Idade e Sexo
A pesquisa também revelou variações dependendo da idade e do sexo dos animais. Observou-se que fêmeas adultas tinham maior probabilidade de participar de interações de afeto em comparação com machos adultos. Indivíduos mais jovens demonstraram maior inclinação a brincar, enquanto as fêmeas adultas apareceram com mais frequência em atividades de cuidado e higiene.
Segundo os autores, tais relações podem auxiliar na investigação das características comportamentais que, ao longo da evolução, levaram a contatos semelhantes aos estabelecidos pelos humanos com os animais. Contudo, o estudo esclarece que isso não implica que os primatas analisados possuam animais de estimação no mesmo sentido humano. A própria pesquisa excluiu relações entre humanos e animais, ressaltando que muitas interações observadas podem ter origem ecológica, como busca por alimento, defesa contra predadores ou mera proximidade entre as espécies.
Adicionalmente, os pesquisadores reconhecem certas limitações metodológicas. O banco de dados combina fontes com variados níveis de credibilidade e pode tender a destacar eventos mais incomuns ou visualmente impactantes. Por essa razão, o estudo deve ser encarado como um ponto de partida para novas hipóteses, e não como uma métrica exata da frequência desse comportamento entre primatas.
A conclusão central, portanto, é mais abrangente: a tendência de desenvolver laços sociais positivos com animais de outras espécies pode não ser uma característica exclusiva da humanidade. Estudar esses comportamentos em outros primatas pode contribuir para uma compreensão mais profunda sobre como surgiram as bases evolutivas da convivência entre humanos e animais.
