À medida que as crianças retornam às salas de aula no novo ano letivo, as escolas dos Emirados Árabes Unidos estão se preparando para mudar os hábitos digitais dos alunos, pois espera-se que as novas regras, que restringem o acesso às redes sociais para menores de 15 anos, afetem seu bem-estar, capacidade de concentração e vida social.
Especialistas em educação e saúde mental observaram que essas mudanças podem trazer benefícios, como a redução das distrações online, a diminuição da comparação social e o aumento do engajamento em atividades presenciais. No entanto, eles alertaram que algumas crianças podem sentir frustração, isolamento ou medo de perder algo importante inicialmente.
Para as instituições de ensino, a transição provavelmente não se limitará apenas à restrição do acesso dos alunos às plataformas sociais. Espera-se que educadores e pais desempenhem um papel fundamental na ajuda às crianças a desenvolver hábitos digitais mais saudáveis e a adquirir habilidades de uso responsável das redes sociais no futuro.
Claire Scowen, vice-presidente de riscos e líder global de proteção e defesa de crianças na GEMS Education, afirmou que as crianças que ligam fortemente as redes sociais aos seus relacionamentos de amizade podem sentir ansiedade ou frustração inicialmente com a exclusão. No entanto, Scowen enfatizou que a redução do acesso pode criar mais oportunidades para interação pessoal, atividade física e uma rotina mais saudável, insistindo que as crianças compreendam os motivos das mudanças e se sintam apoiadas durante a adaptação.
Scowen acrescentou que a eliminação de distrações relacionadas às redes sociais apoia a capacidade das crianças de se concentrar e participar das aulas, mas as escolas devem distinguir entre tempo de tela e uso de tela. Ela também salientou que a tecnologia continua sendo uma parte importante da educação, portanto, o foco deve estar no desenvolvimento de 'hábitos digitais saudáveis e equilibrados', e não em uma avaliação uniforme de todo o tempo de tela.
Caroline Yaff, consultora e terapeuta de terapia cognitivo-comportamental na Medcare Camali Clinic, acredita que a restrição do acesso às redes sociais pode ter um impacto positivo no bem-estar mental e emocional das crianças. Isso pode reduzir a pressão associada à necessidade de exibir uma imagem ideal online, limitar a exposição ao cyberbullying e diminuir a comparação social, potencialmente apoiando a autoestima e a confiança das crianças.
No entanto, Yaff alertou que as redes sociais também servem como meio de comunicação com amigos, busca de apoio e autoexpressão. Portanto, sua ausência pode causar sentimentos de solidão, isolamento ou ansiedade em algumas crianças durante a adaptação. Ela aconselhou pais e escolas a facilitar a transição, incentivando a interação pessoal através de esportes, artes, hobbies e atividades extracurriculares.
Clubes extracurriculares, esportes de equipe e oportunidades de explorar novos interesses podem ajudar as crianças a substituir o tempo gasto nas redes sociais por atividades que promovam o desenvolvimento social, físico e criativo.
Niswa Tantavi, psicóloga e diretora executiva do Nafsology Psychology Center em Dubai, observou que as mudanças podem trazer benefícios psicológicos significativos, especialmente pela redução da comparação social, cyberbullying e exposição a conteúdo impróprio. Ela também apontou que as crianças podem se beneficiar da melhoria do sono, fortalecimento dos relacionamentos pessoais e maior participação em assuntos familiares, hobbies e outras atividades.
No entanto, Tantavi alertou os pais para não subestimarem o impacto emocional da remoção daquilo que se tornou parte da rotina diária da criança. As crianças podem experimentar frustração, tédio, medo de exclusão e sentimento de perda, especialmente se seus colegas continuarem usando redes sociais. Descrevendo essa experiência como uma forma de 'luto social' no início do ano letivo, ela recomendou que os pais apresentassem as restrições como uma mudança de estilo de vida, e não como um castigo, dando às crianças espaço para expressar tristeza, frustração ou ansiedade sobre o isolamento social.
Tantavi aconselhou a preparar as crianças antecipadamente para a transição e, quando apropriado, permitir-lhes guardar memórias e se despedir de contatos online, ao mesmo tempo em que criam maneiras alternativas de manter a amizade por meio de chamadas telefônicas, encontros presenciais e passeios. Ela também observou que os pais devem esperar alguma resistência durante o período de adaptação, validando os sentimentos das crianças e mantendo limites e rotinas claras.
Os especialistas também afirmaram que a redução do uso recreativo das redes sociais pode afetar a concentração em sala de aula. Yaff explicou que as plataformas de redes sociais são projetadas para capturar e redirecionar repetidamente a atenção, o que dificulta que os alunos mantenham o foco por longos períodos. Com menos distrações, as crianças podem mergulhar mais profundamente nas aulas e obter uma experiência de aprendizado mais significativa. Menos tempo de tela também pode promover uma rotina mais saudável e um sono melhor, o que afeta a participação dos alunos na escola.
Tantavi declarou de forma semelhante que a redução do uso recreativo das redes sociais pode ajudar as crianças a restaurar a atenção sustentada, limitando a estimulação rápida e as interrupções frequentes associadas às plataformas sociais. No entanto, ela enfatizou que o problema mais amplo não é apenas as redes sociais, mas o equilíbrio entre a estimulação digital e as atividades importantes para o desenvolvimento, incluindo exercícios físicos, interação pessoal e criatividade.
Scowen também destacou a diferença entre as várias formas de uso de tela, observando que a tecnologia continua sendo uma parte inseparável da educação moderna. Os especialistas afirmaram que a restrição de acesso não anula a necessidade de educação digital. As crianças ainda devem entender privacidade, pegada digital, desinformação, comportamento online e como os algoritmos influenciam o que elas veem.
Tantavi acrescentou que as crianças também devem aprender a reconhecer manipulações e desinformação, entender o funcionamento dos algoritmos, proteger informações pessoais, estabelecer limites saudáveis online, demonstrar empatia e desenvolver autorregulação emocional. Yaff disse que pais e professores podem ajudar as crianças a desenvolver essas habilidades, ensinando-as a usar configurações de privacidade, avaliar a credibilidade de informações e fontes, reconhecer desinformação e manter um comportamento respeitoso online. O desenvolvimento do autocontrole e o estabelecimento de regras tecnológicas claras ajudarão as crianças a se tornarem usuários mais confiantes e responsáveis quando finalmente conquistarem maior independência online.
Enquanto isso, as escolas desempenham um papel no apoio à interação pessoal, na ajuda dos alunos a recuperar a concentração e na manutenção de uma comunicação aberta com pais e filhos ao surgirem problemas. Os especialistas concluíram que o sucesso das novas regras dependerá não apenas da restrição do acesso, mas também do que substituirá as redes sociais na vida diária das crianças — seja amizade, esporte, hobby, envolvimento em sala de aula ou oportunidades para desenvolver resiliência fora da rede.
